Depois dos estragos no Natal já estarem esquecidos, o nosso pensamento voltou-se novamente para a comida e começámos a pensar na ementa da Passagem de Ano. Para lá da tábua de queijos, do marisco e das passas, apontámos o vinho logo na linha abaixo da lista de compras. Mas a palavra "vinho" é tão vaga, que chegamos às prateleiras sem saber qual é que vai melhor com as entradas, se há vinho para a sobremesa e qual o melhor espumante para dar um duplo salto: à rolha e à entrada em 2021.

Este ano são muitos os portugueses que vão passar o Ano Novo em casa, principalmente a dois, mas isso não implica que não tenham rigor e glamour nos vinhos que combinam à mesa.

Para saber quais as escolhas certas, a MAGG recorreu à ajuda de quem sabe. O enólogo e diretor de enologia da Global Wines, Osvaldo Amado, pegou em todos os tipos de vinho e explicou-os a pormenor. O resultado? Um guia de etiqueta para os vinhos da Passagem de Ano.

Com canapés ou um queijo camembert no forno com mel e nozes, começamos pelo início: o vinho para as entradas.

Dica 1: aposte no espumante para entrada

A primeira regra é que não há regra, uma vez que podemos ter um vinho para cada momento da refeição. "Os vinhos são distintos pela sua natureza, brancos, tintos e rosés, e podem acompanhar iguarias distintas", refere Osvaldo Amado. Contudo, nada implica que não comece e acabe a refeição com o mesmo tipo de vinho devido à sua versatilidade.

"Uma harmonização deve ser um casamento perfeito entre as iguarias, os alimentos, e o vinho", diz o enólogo. Neste casamento as alianças devem ser trocadas entre uma comida ligeira e um vinho ligeiro ou uma comida pesada e um vinho mais estruturado.

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Embora já haja brancos estruturados, por norma são mais leves e, por isso, uma das opções para acompanhar as entradas, no caso de também estas serem ligeiras. Mas a variedade é infinita e não há nada que impeça de juntar uma fatia de presunto com broa de milho e um copo de vinho tinto, desde que ligeiro.

Falámos de brancos e tintos, mas o vinho rosé também faz parte da lista, bem como os espumantes. "Grande parte dos espumantes acompanham bem muitas entradas. Espumantes meio-secos e brutos, especialmente. Têm a capacidade de poder harmonizar, são vinhos que dispõem bem" logo no início da refeição, refere Osvaldo Amado. "Faz todo o sentido escolher um espumante para entrada, ou brancos ou rosés ligeiros", reforça.

Dica 2: os tintos não são só para pratos de carne

Se vamos a um restaurante alentejano é quase certo que para a mesa segue uma garrafa de vinho tinto para acompanhar as migas à alentejana com entrecosto. Já se formos mais para junto do rio, a açorda de sável pede um vinho branco. No entanto, a regra não dita que para carne é tinto e para peixe branco. O que diz então a etiqueta?

"Para acompanhar pratos de carne, os tintos genericamente acompanham melhor, mas hoje já há brancos estruturados, completos, que também acompanham bem", esclarece Osvaldo, que acrescenta uma série de fatores para a decisão.

É que tudo varia se falamos de uma carne vermelha ou branca, bem como dos condimentos usados que dão estrutura ao prato. O tradicional cabrito do Natal, uma carne forte por si só à qual se adicionam condimentos intensos, poderá pedir um tinto, mas "se for uma carne, mais ligeira, um grelhado, poderá ser um vinho branco estruturado ou um rosé mais completo", aconselha o enólogo.

Dica 3: saber distinguir um vinho frisante, espumante e champanhe

Para leigos em vinho a explicação é simples: todos têm gás, vulgarmente bolhas, e temos em mente um leque de opções limitadas para os aplicar. Para quem gosta de gás no vinho, aposta num frisante à refeição, o espumante é habitualmente deixado para uma sangria ou para mimosas num brunch e o champanhe é só para ocasiões especiais e com copos de pé alto. Mas será que tem de ser mesmo assim? Primeiro, é preciso perceber as diferenças.

"Em comum têm o facto de serem da classe dos vinhos efervescentes. Os vinhos frisantes são vinhos brancos, tintos ou rosé, que diferem dos outros porque só podem ter no máximo de 1,5 bar", explica o enólogo, referindo-se à quantidade de pressão de CO2.

Já entre espumante e champanhe, a diferença está no uso do método clássico, que caracteriza a qualidade dos vinhos espumantes da região do Dão e Bairrada, cujo resultado provém das suas castas indígenas, do próprio caráter das uvas e da sua maturação.

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Segundo o especialista, no Dão a casta mais propícia para grandes vinhos espumantes é a uva branca ou em cruzada e na casta tinta a Touriga Nacional, que produz rosés, tintos e Blanc de Noir. Na região da Bairrada, a partir da casca Arinto e Baga, que também faz um Blanc de Noir, também é possível degustar espumantes de qualidade.

Quanto ao champanhe, as melhores apostas são os que têm origem em França. Contudo, ao passo que o champanhe deve ser guardo para ocasiões especiais, como a Passagem de Ano, o espumante pode (e como vimos até deve) acompanhar alguns momentos de refeição.

"Os espumantes hoje são muito versáteis. Hoje já se fazem vinhos espumantes brancos, rosé e tintos, e dentro dos brancos temos o Blanc de Noir, a partir de uma uva tinta", diz Osvaldo Amado. "Hoje já é possível acompanhar refeições com espumante do início ao fim", remata.

Dica 4: vinho à sobremesa? Com certeza

A verdadeira questão: porque não? Existe uma multiplicidade de opções que, embora não associe imediatamente, no fim da refeição não hesita em levar para a mesa e apresentar como digestivo ou licor. É o caso do vinho do Porto ou vinho da Madeira, que ora vão para o copo ou mesmo para dentro das próprias sobremesas.

Mas quando se trata de acompanhar a sobremesa, não restam dúvidas: "Vinhos doces e vinhos espumantes são os mais adequados pela sua própria natureza pouco álcool, vinhos festivos, que causam boa disposição", destaca Osvaldo Amado, da Global Wines. No fundo, para sobremesas o segredo é apostar nos vinhos licorosos.

Dica 5: "Um espumante para ser bom deve ser elegante"

O melhor espumante, como vimos, é aquele que resultada do método clássico. Estamos no País certo para conseguir o espumante certo, basta ver nos rótulos a referência da região: Dão ou Bairrada, como aconselhou Osvaldo Amado.

Por fim, resta saborear aquilo que se pretende: "Um espumante para ser bom deve ser elegante, frutado, com alguma complexidade. Na boca não deve ser explosivo. Como se quer uma bebida de requinte, o espumante também deve de o ser", conclui o especialista em vinho.

Uma vez que o tempo para ir comprar o melhor espumante está a apertar, nós damos uma ajuda na escolha. Não olhámos a preços — embora haja opções bastante em conta — mas se é para esquecer 2020 e entrar no Novo Ano com uma bebida que faça jus às expetativas para o futuro, a aposta deve corresponder. Mostramos algumas opções.