Inicialmente, foi considerado um herói. Andrew Cuomo, 63 anos, fez manchetes, deu entrevistas e foi elogiado por epidemiologistas pela forma como, enquanto governador de Nova Iorque, liderou uma resposta eficaz face ao aumento de casos de infeção por COVID-19 naquele estado, impondo um confinamento geral, aprovando um pacote de milhões de dólares para dar resposta à pandemia e anunciando a limpeza e desinfeção regulares de escolas e transportes públicos.

Com Donald Trump a encabeçar o caos de uma presidência republicana sem norte, o democrata Cuomo transmitia esperança e confiança na ciência. De repente, mudou tudo e o governador passou a vilão, acusado por várias mulheres de assédio sexual e conduta imprópria no exercício das suas funções.

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Cada vez mais isolado e sem o apoio do atual presidente dos EUA, Joe Biden, Andrew Cuomo demitiu-se para evitar uma eventual destituição que, apesar disso, ainda poderá vir a acontecer.

Preparámos um guia prático que explica, ponto por todo, o que aconteceu em redor de Cuomo — as acusações, as consequências, o que pode ainda acontecer e como a sua ligação ao irmão, pivô da CNN, põe um dos canais de televisão americanos mais influentes em cheque.

Antes de mais, quem é Andrew Cuomo?

Até esta terça-feira, 10 de agosto, Andrew Cuomo era o governador de Nova Iorque, representando o partido Democrata. Na verdade, ainda é, porque a sua demissão vai demorar 14 dias para assegurar que a transição decorre sem percalços até Kathy Hochul, uma advogada de 62 anos, possa subir ao cargo. Será a primeira mulher a liderar o estado de Nova Iorque desde 1777.

Em plena pandemia, Andrew Cuomo fez manchetes, apareceu em programas de televisão, deu entrevistas e foi apelidado como herói pela forma como, em Nova Iorque, reagiu de forma eficiente face ao surto da COVID-19 naquele estado.

Algumas das medidas implicaram a autorização de um fundo de emergência de cerca de 40 milhões de dólares (34 milhões de euros) para dar resposta às exigências da pandemia, a imposição de um período de confinamento total e um novo sistema de limpeza e desinfeção de escolas e transportes públicos para achatar a curva face ao crescimento exponencial do número de infeções.

Ainda que o governador tenha sido criticado por, à semelhança de muitos dos governantes americanos, ter ignorado a gravidade da situação epidemiológica, a sua resposta face à pandemia foi elogiada por epidemiologistas, políticos e figuras da alta sociedade americana.

Com Trump no poder, Cuomo servia como contraponto do caos que em que o presidente republicano tinha deixado os EUA. Em novembro de 2020, foi-lhe atribuído um Emmy pelas suas conferências de imprensa diárias face à evolução da pandemia em Nova Iorque.

Daí a uma demissão vai muito. O que aconteceu?

Um relatório pedido pela procuradora-geral de Nova Iorque, divulgado a 3 de agosto, com a conclusão de que, desde que Cuomo assumiu o cargo, em 2011, terá assediado sexualmente 11 mulheres.

As acusações, no entanto, começaram ainda em 2020 quando Lindsey Boylan, 36 anos, uma das assistentes de Cuomo, fez saber que o governador de Nova Iorque a tinha "assediado sexualmente durante anos" à vista de todos. "Muitos viram. Nunca conseguia antecipar aquilo que me esperava: seria criticada pelo meu trabalho (que era muito bom) ou assediada pela forma como me apresentava? Foi assim que vivi durante anos", denunciou.

As acusações não se ficaram por aqui.

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Numa viagem de avião em outubro de 2017, recorda Boylan, Cuomo terá sugerido que os dois jogassem a uma partida de strip poker, que tinha como objetivo que cada um dos jogadores tirasse a roupa à medida que fosse perdendo.

Mais: o governador de Nova Iorque terá ainda tentado dar um beijo não consentido à sua assistente, desta vez no seu escritório de Manhattan. "Quando me preparava para levantar e sair, ele pôs-se à minha frente e beijou-me nos lábios", escreve o jornal "The New York Times".

Mas foi Lindsey Boylan a única mulher a acusar Andrew Cuomo?

Não. A ela, seguiu-se Charlotte Bennett, 25, que fez parte da equipa de Cuomo, e que recorda que o governador lhe perguntou por diversas vezes se já tinha feito sexo com homens mais velhos. Numa das ocasiões, Bennett refere que Cuomo lhe terá perguntado se ela achava que a idade tinha alguma relevância numa relação amorosa.

"Percebi que o governador queria ir para a cama comigo e senti-me desconfortável e assustada", refere em declarações ao mesmo jornal.

Uma terceira mulher, Anna Ruch, 33, também acusou o governador de assédio sexual, recordando um casamento em que ambos se encontraram, em setembro de 2019. Depois de um discurso do governador, os dois partilharam um brinde e uma conversa que terminou quando Cuomo terá posto a sua mão nas costas de Rush. Quando esta fez por tirar a mão de Cuomo, este queixou-se da forma "agressiva" como a mulher tinha reagido e perguntou-lhe se a poderia beijar.

"Fiquei confusa, chocada e envergonhada", recorda Anna Ruch, que nunca trabalhou com Andrew Cuomo, ao mesmo jornal americano. "É a impunidade do ato que me choca. Não tive qualquer escolha no momento em que aquilo aconteceu", lamenta.

Andrew Cuomo reagiu às acusações?

Sim. Negou as acusações de Charllote Bennett, dizendo nunca ter havido "quaisquer avanços inapropriados". Negou também as acusações de Lindsey Boylan e referiu-se às alegações de Anna Ruch como tendo sido "mal interpretadas".

Depois de comentar, individualmente, cada alegação, Andrew Cuomo emitiu um comunicado oficial lamentando o facto de ter feito "algumas piadas" ou provocado alguns dos seus funcionários de uma forma que lhe parecia inocente.

"Percebo, agora, que agi de uma forma que deixou as pessoas desconfortáveis", ressalvando, no entanto, que nunca tocou em ninguém de forma desapropriada. Questionado sobre a acusação de Anna Ruch, Cuomo desculpou-se dizendo que dar beijos e abraçar fazem parte "da sua maneira de cumprimentar" os outros.

O que se seguiu?

Depois da reação, surgiram novas acusações de mais mulheres que trabalharam com o governador. Uma delas, Karen Hinton, recorda que Cuomo a terá abraçado indevidamente depois de a ter chamado ao seu quarto de hotel em meados de 2000. Quando, mais tarde, tentou um segundo abraço, Hinton resistiu, escreve o "The New York Times". Cuomo negou todas as acusações e falou de Hinton como uma "adversária política" de há vários anos.

Também Ana Liss, outra assistente de Cuomo, acusou-o de lhe beijar a mão repetidas vezes e de lhe fazer perguntas sobre a sua vida romântica. Para estas acusações, também o governador teve resposta, alegando que este tipo de interações eram, regra geral, a forma como interagia com a sua equipa.

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Outra mulher, que escolheu preservar o anonimato por ainda trabalhar com Cuomo na altura da acusação, tornou público um momento em que, numa das interações com o governo, este a terá apalpado. Cuomo negou.

As acusações foram amontoando-se, obrigando a procuradoria-geral a investigar.

Já há conclusões dessa investigação?

Sim e foram conhecidas a 3 de agosto. Para um relatório oficial que totaliza as 165 páginas, foram ouvidas 179 pessoas e analisados cerca de 70 mil documentos.

As conclusões não deixam margem para dúvidas, com a procuradoria-geral de Nova Iorque a concluir que Cuomo assediou, pelo menos, 11 mulheres através de toques, apalpões, comentários de teor sexual e abordagens não consentidas e consumadas longe do escrutínio público. Mais: o organismo responsável pela investigação considerou todas as testemunhas e alegações credíveis.

Ainda que a maior parte das acusações já fossem conhecidas publicamente, pelo menos três denúncias são novas e nunca noticiadas pelos órgãos de comunicação social americanos.

Uma delas, por exemplo, diz respeito a uma militar do estado que Cuomo tentou contratar para a sua equipa de segurança pessoal e que, durante os encontros que os dois tiveram, sempre em contexto profissional, o governador terá passado a mão pela sua barriga enquanto esta segurava a porta para ele passar.

A militar, cuja identidade não é conhecida, acusa ainda Andrew Cuomo de lhe passar o dedo pelo pescoço e de lhe perguntar por que não estava a usar um vestido.

Há mais conclusões relevantes?

Sim, como o facto de, por exemplo, Andrew Cuomo ter instruído a sua equipa a vasculhar as vidas pessoais das pessoas que o acusaram de conduta imprópria para as desacreditar publicamente.

Questionado pelos investigadores sobre isto, Cuomo negou, alegando não se lembrar de alguma vez ter pedido uma investigação de oposição a quem o acusava.

Quem apoiava Andrew Cuomo face às alegações?

Ninguém.

À medida que as declarações foram surgindo, todo o plantel de Democratas pediu a sua saída do cargo que assumia há vários anos. As exceções mais sonantes, pelo menos ao início, diziam respeito a Joe Biden, presidente dos EUA, e Nancy Pelosi, democrata e presidente da Câmara dos Representantes dos EUA.

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Com a divulgação do relatório feito a pedido da procuradoria-geral de Nova Iorque, tanto Biden como Pelosi afastaram-se, unilateralmente, de Cuomo, pedindo a sua demissão ou destituição.

Dentro do partido Republicano, claro, as críticas surgiram em uníssono.

A saída era, portanto, inevitável?

De facto. A cada acusação que foi surgindo, Andrew Cuomo foi perdendo todo o apoio que tinha. Joe Biden exigiu a sua saída, Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, fez o mesmo e nem a assembleia legislativa de Nova Iorque, o organismo que decide a destituição (ou impeachment) e onde o partido Democrata está em maioria face ao partido Republicano, lhe dava apoio.

Por isso, o esperado aconteceu esta terça-feira, 10 de agosto, quando Andrew Cuomo, através de uma conferência de imprensa, anunciou que iria renunciar ao cargo. De olhar fixo nas câmaras, voltou a dizer-se inocente e alegou que, em algum momento, quis ou teve intenção de assediar alguma mulher.

"É a minha convicção de que nunca pisei o risco com ninguém, mas não percebi o quanto esse limite tinha sido alterado", explicou, dizendo ser vítima de "grandes mudanças culturais", com as quais justifica o seu comportamento.

A renúncia ao cargo põe um fim ao caso?

Nem de perto. A demissão foi vista como uma alternativa à destituição, que não acontecia num governador de Nova Iorque desde 1913.

Isso, no entanto, ainda pode vir a acontecer uma vez que as investigações para a destituição não terminam apenas porque o governador se demitiu. Se o processo seguir em frente, como se espera que aconteça, Cuomo estará para sempre impedido de se candidatar a qualquer cargo público.

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Além disso, há mais uma agravante: o facto de o relatório pedido pela procuradoria-geral de Nova Iorque abrir portas para que o ex-governador seja, posteriormente, acusado formalmente por assédio sexual e conduta imprópria no exercício das suas funções num cargo público.

Há mais acusações a serem investigadas?

Sim, nomeadamente a alegação de que a equipa de Andrew Cuomo terá escondido o número real de mortes em lares de idosos que reportaram surtos de COVID-19.

Ao que se sabe, os assistentes que compuseram a sua equipa terão assinado relatórios com um número de mortes muito abaixo daquele que foi o valor real — numa diferença de cerca de três mil mortes entre os dados oficiais e aqueles que a equipa do governador de Nova Iorque tornou públicos.

O que é que a CNN tem que ver com Cuomo?

Durante o momento em que Andrew Cuomo era visto como um herói pela foram como respondeu à crise sanitária em Nova Iorque, era frequente haver interações entre ele e o irmão, Chris Cuomo, um dos pivôs da CNN, em direto para o canal americano. No entanto, à medida que o canal se preparou para cobrir a demissão do governador, uma das ausências mais notadas das emissões foi, precisamente, a de Chris Cuomo, que o canal justificou estar de férias (planeadas há vários meses).

As dores de cabeça começaram ainda em maio quando se soube que Chris Cuomo tinha estado envolvido numa série de conversas, com a presença do irmão, para agilizar uma resposta pública face aos crimes que eram imputados ao governador. A CNN não puniu o apresentador, mas fez saber que "não era apropriado" ao pivô "participar em conversas que incluíssem membros da equipa" de Andrew Cuomo e que, por isso, Chris Cuomo estava proibido de as protagonizar.

Isso, no entanto, não se verificou. Sabe-se agora que Chris Cuomo permaneceu, até à altura da demissão do irmão, a ser um dos seus conselheiros mais fieis, tal como noticiaram o "The Washington Post" e o "The New York Times".

A CNN não reagiu, mas já tinha feito saber que não iria proibir o pivô de falar diretamente com o irmão. A opinião pública, no entanto, divide-se e são já vários os que pedem uma investigação formal a Chris Cuomo e à forma como a sua atuação na CNN poderá ter extravasado os limites da ética jornalística.

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