No primeiro debate da corrida à presidência dos EUA, Donald Trump transportou a sua retórica inflamada do Twitter para o púlpito e fez o oponente democata, Joe Biden, perder a compostura por diversas vezes. Mas os analistas e opinadores políticos não têm dúvidas de que o momento mais marcante aconteceu na reta final do confronto, quando Donald Trump não só se recusou a condenar a extrema-direita como mencionou os Proud Boys, um dos grupos mais violentos de apoiantes, a quem pediu para se manterem “a postos”.

“Proud Boys, recuem e mantenham-se a postos”, disse Donald Trump em resposta a Chris Wallace, o jornalista responsável pela moderação do debate, que perguntou se o atual presidente dos EUA estaria disposto a condenar os ataques da extrema-direita no país.”Estou a favor disso, mas todos os confrontos de que tenho tido conhecimento são perpetuados pela extrema-esquerda e não pela direita. Alguém tem de fazer alguma coisa sobre a extrema-esquerda e os ataques perpetuados pela Antifa [movimento antifascista]”, continuou.

Em menos de uma hora, o grupo Proud Boys era um dos assuntos mais comentados do Twitter em todo o mundo. E estes, extasiados com a menção de Trump em direto, congratularam-se e fizeram da mensagem “recuem e mantenham-se a postos” um dos seus slogans. No Telegram, a plataforma de chat encriptada escolhida pelo grupo para comunicar entre si, podia ler-se a seguinte mensagem: “Estamos a postos, sir”.

Mas as mensagens, divulgadas pelo jornalista do “The New York Times”, Mike Baker, eram bastantes e pouco variavam de tom. “Basicamente, Trump disse-nos para irmos espancá-los. Isto deixa-me muito contente”, escreveu outro utilizador. “Trump disse aos Proud Boys para se manterem a postos porque alguém precisa de lidar com a Antifa. Estamos prontos, sir”, lia-se noutra mensagem.

Mas afinal, quem são os Proud Boys?

O grupo foi formado em 2016, durante as eleições que viriam a dar a vitoria a Donald Trump, por Gavin McInnes, uma figura associada à extrema-direita e cofundador da revista “Vice”.

Classificados desde 2018 pelo FBI como um grupo extremista, é caracterizado, por várias organizações, como um movimento de ódio, transfóbico, islamofóbico, misógino e anti-imigração — e conta com uma presença ativa nos EUA, mas também no Canadá, no Reino Unido e na Austrália. Mas ainda que a reputação dos Proud Boys, que fazem do amarelo e do preto as cores principais nas suas roupas, advenha da cobertura mediática decorrente das rixas violentas em que os seus membros se veem envolvidos, as autoridades acreditam que o grupo é relativamente reduzido com cerca de 100 membros espalhados pelos vários estados do país.

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Devido ao acesso facilitado a armas de fogo nos EUA, os seus membros apresentam-se como vigilantes ou paramilitares e é nesses termos que se deslocam de cada vez que há ajuntamentos ou manifestações organizadas e protagonizadas por outras figuras ligadas à extrema-direita.

E é às causas da intolerância e da violência que prestam juramento quando são iniciados no grupo. “Sou um orgulhoso chauvinista ocidental e recuso-me a pedir desculpa pelo meu envolvimento na criação do mundo moderno”, faz parte das juras, escreve o jornal britânico “The Guardian”.  O ritual de iniciação é, segundo mesma publicação, violento tal como as ideias perpetuadas pelo movimento. 

E ainda que os Proud Boys, sem surpresa, não se identifiquem como um grupo racista, assumem querer fazer regressar os “valores tradicionais do ocidente” e são também a favor do direito à porte de arma e contra o feminismo e a igualdade de género.

A que crimes estão associados?

Os Proud Boys têm um historial de envolvimento em rixas de rua, em que atacam ativistas ideologicamente posicionados à esquerda no espectro político e antifascistas. Recentemente, vários dos seus membros marcaram presença nas manifestações do movimento Black Lives Matter, após a homicídio de George Floyd por um polícia branco, nas quais responderam com violência sobre vários ativistas que protestavam pacificamente contra a violência da polícia sobre a comunidade negra.

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Em 2019, pelo menos dois membros foram presos e condenados a penas de prisão de quatro anos depois de espancarem vários ativistas em Nova Iorque. Em 2017, um dos membros mais conhecidos, Jason Kessler, foi uma das figuras responsáveis por organizar a presença de membros associados ao Ku Klux Klan e outros grupos neonazis nas manifestações da extrema-direita em Charllottesville.

Durante os protestos, uma ativista pelos direitos civis, Heather Heyer, foi atropelada por um carro guiado pelo extremista e supremacista branco James Alex Fields, que está hoje cumprir uma pena perpétua pelo crime que tirou a vida à mulher de 32 anos. Face à tragédia, Donald Trump desvalorizou, uma vez mais, o grupo e argumentou que, durante aquela manifestação, “havia pessoas boas de ambos os lados”.

No digital, a presença dos Proud Boys está banida das principais plataformas sociais — como o Facebook, o Twitter, o Instagram e o YouTube.

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