Carolina Artur (nome fictício) foi, durante um ano, a voz de uma linha telefónica sexual, agendando encontros a partir de um site online, onde, com fotografias de várias mulheres, os clientes contactam o número referente a quem querem contratar, sendo que estes nunca são os contactos reais das acompanhantes.

O número de Carolina correspondia ao de 3 mulheres. Era ela a voz delas. A estudante de 23 anos comunicava com quem procurava apenas falar ao telemóvel e ao mesmo tempo com quem queria marcar encontros com uma das três acompanhantes. Um trabalho que de início lhe pareceu fácil, mas que acabou por ser um pouco mais complicado, dada a dificuldade em conciliar aulas, estudo e chamadas. Quando conseguiu um outro trabalho fixo, a trabalhar num bar e num museu, abandonou este.

Como arranjou este trabalho?
Na altura estava desempregada e conheci uma rapariga que trabalhava para esta empresa. Sabendo da minha situação, perguntou-me se eu não estaria interessada. Convidou-me a ir ter com ela um dia para me mostrar como funcionava, e eu fui. Acabei por aceitar, não porque precisasse de dinheiro para viver, mas sim porque queria ter o meu próprio dinheiro para gastar nas minhas coisas. Tinha acabado de me despedir de uma loja de roupa e aquilo pareceu-me algo relativamente fácil de conciliar com as aulas.

Quantas pessoas faziam parte deste trabalho?
Começou por ser um grupo pequeno, mas depois foi-se alargando. Ao telemóvel éramos menos do que as que faziam os serviços. Cada uma de nós era "secretária" de 3 raparigas. Vamos dizer que no total éramos 5 aos telemóveis para 15 que faziam serviços.

O que fazia no seu trabalho?
Eu era voz e secretária das acompanhantes. Os clientes viam uma série de fotografias no site, ligavam para o número (que supostamente era o delas próprias) e eu atendia. A minha parte era toda feita por chamada telefónica.

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Em que consistiam as chamadas telefónicas?
Sendo que eu me fazia passar por elas, tinha de explicar que tipos de serviços fazia (com base nas informações que elas me passavam), via a disponibilidade de cada uma e marcava o encontro. Acabava sempre por ter de me fazer passar por elas e na maior parte das vezes tinha ainda de fazer o que nós chamávamos de "demonstração", e dar uma conversa um pouco mais sexual, chegando alguns a masturbar-se. Esse tipo de conversas cativava-os. Mas era preciso ter cuidado, porque alguns ligavam só para terem “companhia” e o nosso tipo de serviço não era esse.

Como estudante no regime pós-laboral muitas vezes tinha de sair de aulas para atender, mas atendia mesmo em casa com os meus pais."

Como sabia o que tinha de dizer nessas conversas?
Era tudo muito fácil, eu já tinha uma espécie de guião que seguia. Ou seja, as introduções das conversas acabavam por ser sempre as mesmas. Mesmo que os clientes fizessem muitas perguntas, acabava por não fugir muito ao que eu tinha definido, não precisava de ser muito original, apenas responder da maneira que eu sabia que eles queriam e iam gostar mais.

Quais são as horas mais comuns de ligarem?
A grande maioria das chamadas acontecia entre as 22h e as 5h da manhã. Como estudante no regime pós-laboral muitas vezes tinha de sair de aulas para atender, mas atendia mesmo em casa com os meus pais lá.

Os clientes eram homens ou mulheres?
A maioria dos clientes eram homens, mas claro que também ligavam mulheres. Porém, com as mulheres que conversei, nenhuma marcou encontro, apenas falavam comigo.

Que idades tinham as pessoas que ligavam?
Eu diria entre os 30 e os 50 anos.

Houve uma vez em que um homem me ligou porque queria marcar um encontro surpresa para o pai dele, que tinha 70 anos."

Alguma vez criou uma relação afetiva com algum dos clientes?
Não. Eu falava várias vezes com dois ou três. Eles várias vezes me fizeram declarações, mas acabavam por não ser para mim porque eu apenas falava ao telemóvel. Ou seja, era provável que eles estivessem interessados nas raparigas e não em mim que apenas falava com se fosse uma delas.

Alguma vez se encontrou com algum deles?
Sim. Uma vez marquei com um deles, mas não disse à minha colega que tinha era suposto encontrar-se com ele. Apareci eu e o senhor, que tinha por volta dos 50 anos, ficou espantado. Já se tinha encontrado mais do que uma vez com a acompanhante em causa e entendeu que não era eu. Tentei explicar-lhe como as coisas funcionavam mas como ele não queria acreditar acabei por lhe dizer que me enganei na pessoa e fui embora.

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Tem alguma história engraçada?
Houve uma vez um homem que me ligou 3 vezes seguidas. Dessas 3 vezes ele fazia perguntas como "O que está a vestir", "O que está a fazer" ou outras relacionadas com o que eu gostava durante as minhas relações sexuais. Eu respondi, mas quando eu disse que era melhor tentarmos combinar os dois (tal como é suposto fazer) ele mandou-me calar porque estava a ejacular.

As pessoas ligam para marcar para eles ou para outras pessoas?
A maior parte das vezes é para os próprios, óbvio. Mas houve uma vez em que um homem me ligou porque queria marcar um encontro surpresa para o pai dele, que tinha 70 anos.

É dinheiro fácil?
Acabava por ser relativamente fácil. Cerca de 15€ por marcação.

Tinha de estar ao telemóvel sempre?
Não tinha de estar 24 horas por dia, sete dias na semana, mas tinha de estar grande parte do dia. Em especial à noite e até de madrugada. Eles ligam quando querem e eu tenho de atender. Se eu não atendo e não faço as marcações elas também não recebem, logo não têm trabalho e eu também não ganho com isso..

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