Madeleine McCann desapareceu a 3 de maio de 2007  na Praia da Luz, no Algarve. Mais de 14 anos depois, o mediático caso do desaparecimento da criança inglesa continua a dar que falar e levou Gonçalo Amaral a passar para o papel tudo o que se sabe sobre o tema, com o objetivo de "ajudar a esclarecer" todos os que, tal como ele, querem chegar à verdade.

"Maddie: Basta de Mentiras!" é o nome do seu mais recente livro sobre o tema, que chega esta quinta-feira, 14 de outubro, às livrarias: um dia depois de ter sido apresentado à imprensa por Gonçalo Amaral — o homem que foi coordenador operacional das investigações do "Caso Maddie". Tal como se pode ler na capa, o objetivo deste livro é ajudar a perceber algumas das razões pelas quais ainda hoje não se sabe o que aconteceu à menina desaparecida na Praia da Luz, no Algarve.

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O livro, que está a ser escrito desde 2011, tal como adianta o ex-inspetor da Polícia Judiciária, não tem como objetivo responder, mas ajudar a esclarecer muito do que se tem falado nos últimos anos, nomeadamente situações que foram relatadas no documentário "O Desaparecimento de Madeleine McCann", lançado em 2019 pela Netflix. "Isto é uma análise, é um relato daquilo aconteceu e daquilo que se pode vir a fazer. Escrevo como polícia, como investigador. Escrevo de alguma forma em defesa da polícia, mas não como uma reação [ao documentário]", disse o autor aos jornalistas na apresentação do livro.

Em "Maddie: Basta de Mentiras!", podem encontrar-se muitas páginas que se debruçam sobre o mais recente suspeito do rapto da menina, o alemão Christian Brueckner, que Gonçalo Amaral acredita que venha a ser acusado do crime, mas "sem provas". Durante a apresentação do livro à imprensa, o antigo inspetor da Polícia Judiciária teceu duras críticas à investigação alemã, chegando a referir que há várias "incongruências" em todo o processo — começando pela condenação de violação (pela qual Christian Brueckner está a cumprir pena atualmente), não tendo a polícia alemã, segundo Gonçalo Amaral, provas concretas de que isso tenha acontecido.

Livro

Estes são aspetos que levam o ex-inspetor a acreditar que Christian B. será acusado pelo caso de Maddie. "Eu acredito que o senhor procurador alemão irá acusar este indivíduo: se ele o acusou por um tal processo de violação em que o indivíduo foi condenado quando a prova foi subnegada ao tribunal alemão [fala do exame médico feito à suposta vítima de violação em Portugal]. Conscientemente ou não, não há nenhum tribunal alemão que tenha conhecimento daquele exame realizado no Hospital de Portimão", afirma.

"Vão acusar o homem sem provas nenhumas, mas vão acusá-lo e levá-lo a julgamento"

Neste sentido, questionado sobre se acredita que este caso se irá resolver, e quando, Gonçalo Amaral responde que "pelas palavras do senhor procurador" alemão, o processo irá ser resolvido "nos próximos tempos".

"Vão acusar o homem sem provas nenhumas, mas vão acusá-lo e levá-lo a julgamento. Só quero é alertar o senhor procurador de que há um processo português e que este, como é um suspeito vivo tem advogado, ao contrário da hipótese dos suspeitos mortos que aconteceram durante os primeiros anos. Há aqui um grande imbróglio que tem de ser resolvido", reitera.

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De acordo com o antigo coordenador do caso Maddie, as autoridades alemãs "têm zero" provas. "Eles que entreguem um CD com todo o processo à comunicação social como nós fizemos", sugere. "A informação e os indícios que estão no processo português são muito fortes no sentido em que ocorreu uma simulação de rapto. Enquanto não se esclarecer o porquê dessa simulação, nada mais é possível ir para a frente. Agora se o procurador é ágil em acusar, talvez consiga pela convicção dele acusar este indivíduo, apenas e só por isso", continua. "Imagino que dificilmente irão encontrar um cabelo deste Christian B. no apartamento onde Madeleine desapareceu , mas já não sei de nada."

Ao longo de todo o processo, Gonçalo Amaral nunca escondeu achar que os pais de Maddie estão envolvidos no desaparecimento da criança que, na altura, tinha apenas 4 anos. "Não se pense que os pais da criança misteriosamente desaparecida estão à parte disto tudo. Não acreditem naquilo que anda por aí, isto é uma estratégia que lhes foi dada a conhecer há muito tempo e que só avança porque eles aceitaram que avançasse neste sentido", diz, referindo-se ainda à acusação de Christian B.

"Neste momento, ainda existe no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem um processo contra o estado português, interposto pelos pais da criança desaparecida. E está para sair o resultado, por isso é que se anda a dizer que há uma investigação em curso e que ele [Christian] vai ser acusado."

Para Gonçalo Amaral, não faz sentido que a justiça alemã diga que não há nada que ligue os pais da criança ao desaparecimento porque, segundo ele, a polícia alemã nem sequer está a investigar essa hipótese. " [O procurador alemão] só está a construir um monstro e está a dar-lhe com as culpas todas. Está a usar uma estratégia que a mim já me tinham falado há quase 10 anos."

"Houve sempre demasiado interesse da parte das autoridades e do governo britânico pelo caso"

Durante os últimos 14 anos, muito se fez e houve um grande investimento britânico a nível monetário e de recursos na tentativa de encontrar Madeleine McCann — o que leva muitos a questionar o porquê de tanto interesse nesta criança em particular e não em tantas outras que todos os anos desaparecem nas mesmas circunstâncias.

Quanto a esta situação, Gonçalo Amaral afirma não ter dúvidas de que há neste caso um desígnio de estado britânico. "A visita à polícia judiciária de Portimão do embaixador britânico em Lisboa, acompanhado por um indivíduo ligado ao MI5 que terá um cargo também importante, leva-nos também a pensar nisso. Houve sempre demasiado interesse da parte das autoridades e do governo britânico pelo caso. E o interesse continua e a despesa continua", diz, relembrando ainda que até o assessor de imprensa do primeiro-ministro inglês saiu em defesa do casal McCann nos dias após o desaparecimento.

"Não entrando em teorias da conspiração, já cheguei a pensar que isto era apenas uma situação derivada do facto de serem todos médicos e de terem feito asneira num país de terceiro mundo, como alguns dizem que é Portugal. Ou seja, limpar a má imagem do Reino Unido, mas há tantas más imagens do Reino Unido que ocorrem todos os anos. Tem de existir aqui qualquer coisa e não é por acaso que essa qualquer coisa é consumada em vários momentos", diz, com o objetivo de deixar a plateia a pensar.

"Ninguém se preocupou com a soberania e justiça nacional"

Na opinião do ex-inspetor da Polícia Judiciária, durante este processo, "ninguém se preocupou com a soberania e justiça nacional". "O poder judicial, neste momento, com este caso, está de joelhos. Vêm aqui buscar investigações porque querem provar que este indivíduo [Christian] é muito mau."

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Para Gonçalo Amaral, o pior, e de facto inadmissível, foi quando o procurador alemão acusou os portugueses de se terem "descuidado" com o caso por se tratar de uma criança britânica, "porque fosse portuguesa tínhamos investigado melhor". "Isto exige da parte da direção da Polícia Judiciária uma tomada de posição. Alguém tem de sair em defesa da própria Polícia Judiciária", enfatiza.

"Maddie: Basta de Mentiras!" é já o segundo livro de Gonçalo Amaral exclusivamente dedicado ao tema. Apesar de ter enfrentado uma providência cautelar interposta pelo casal McCann após a primeira obra que escreveu sobre o caso — "Maddie – A Verdade da Mentira" — o ex-inspetor não teme que o mesmo possa vir a acontecer e explica porquê. "Não temo porque o que aqui está é uma análise de um profissional da polícia. Nem o nome dos pais da criança desaparecida aqui constam, são sempre tratados como os pais da criança desaparecida."

Durante a apresentação do livro, Gonçalo Amaral referiu que o primeiro é só focado nos primeiros seis meses da investigação, em que a polícia portuguesa foi ofendida e colocada em causa, ao contrário deste segundo. "Aquele livro serviu para sair em nossa defesa e mostrar o que fizemos e as conclusões a que chegámos. Este vai muito mais longe, fala nas várias possibilidades: tese de rapto, a possibilidade de a criança ter morrido horas ou dias antes de ter sido comunicado o desaparecimento, ou na hipótese de desaparecimento voluntário da criança", explica.

Para Gonçalo Amaral, ainda muito há por descobrir e saber sobre este caso e sobre Madeleine McCann. De acordo com o ex-inspetor, nunca foi entregue às autoridades portuguesas o historial clínico da criança, nem quaisquer dados da  investigação dos detetives contratados pelos pais. "A criança misteriosamente desaparecida merece uma investigação objetiva e séria", defende o autor do livro.

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