“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi o slogan criado por Fernando Pessoa para a bebida que em, 1927, se estreava em Portugal, para depois ser banida do país, regressando 50 anos depois. Diz-se que Salazar proibiu a entrada da Coca-Cola porque os camiões vermelhos em que este refrigerante era distribuído estragavam a paisagem verde.

A alimentação do Estado Novo, tal como hoje, variava consoante a zona do país e o nível de vida. Mas há hábitos comuns. O pão estava em todas as refeições, comia-se mais peixe do que carne e a comida era a tradicional portuguesa. Havia fritos e havia os cozidos. Os sabores de outros países, sobretudo dos mais longínquos, dificilmente entravam cá. Não era necessária uma mão sequer para contar os restaurantes chineses, que só no final do regime apareceram em Lisboa. Também não havia tailandeses, nepaleses, indianos ou japoneses. Isso são coisas de agora. Os caramelos, esses chegavam, mas só depois de uma excursão até Ayamonte, em Espanha.

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Das refeições principais, às diferenças dentro do país, às marcas que se recordam da época, no dia em que se celebra a liberdade, a MAGG foi tentar perceber o que é que se comia no tempo do Estado Novo.

Os restaurantes eram para os ricos

Em Lisboa já havia os croquetes do Gambrinos e o marisco do Ramiro. No Porto já havia francesinhas no Astronauta. No ano da revolução, Portugal estreia-se no Guia Michelin, com quatro restaurantes aos quais foram atribuídas as famosas estrelas: o Avis e Michel, em Lisboa, o Portugal, no Porto e o Pipas em Cascais. Mas comer fora de casa não era para todos e, para os que podiam, não acontecia todos os dias.

O que é que se comia em casa?

A comida era a da gastronomia portuguesa, a mesma que atualmente se continua a servir em muitos restaurantes e tascas. Havia leguminosas, como grão, feijão e ervilhas. Havia carne, que era cara e para muitos só era servida em dias de festa, mas apenas as reais e inteiras — os hambúrgueres, por exemplo, ainda não faziam parte das dietas. Comia-se mais peixe, sobretudo bacalhau, que servia para cozinhar diferentes pratos. A comida tinha mais qualidade porque os animais eram alimentados de outra forma, tal como já entoava Tonicha (participou no Festival da Eurovisão, em 1971) na canção escrita por António Avelar Pinto que diz “Ai que gosto que a comida tinha outrora” e que relembra o sabor do pão caseiro, o gosto do bacalhau, do cozido e da batata.

Nos acompanhamentos, havia a batata (muita batata), o arroz, e a salada, sobretudo de alface, cebola e tomate. O pão fazia parte de todas as refeições (só nos anos 60 é que e o trigo passou a ser mais acessível — antes disto era o de centeio), bem como os legumes e a sopa com hortaliças (nabiças, couves, beterrabas) que eram também alimentos e pratos de todos os dias. Hoje há a moda do granel, mas naquela altura esta era a forma mais normal de compra, que permitia escolher as quantidades desejadas.

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Preparavam-se e serviam-se os doces conventuais, com especial destaque para o arroz doce polvilhado com canela, mas também já havia os pacotes de Pudim Boca Doce ou o Flan Chinês El Mandarim. Entre as marcas mais conhecidas estavam também a água gaseificada Pirolito, a Bussaquina, semelhante ao Sumol, a Larangina C, também muito  popular.

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Ao pequeno-almoço não eram comuns os iogurtes, muito menos as granolas e os batidos. Bebia-se cevada e comia-se pão com manteiga ou pão com marmelada. Na província, sobretudo nos sítios mais pobres, era normal começar o dia com uma sopa de hortaliças ou, nos locais mais frios, com o mata-bicho, que era água ardente pura dentro de um cálice.

A vida na província era diferente

Na província a alimentação era de época, por falta de meios para conservar os alimentos, sobretudo nos locais mais pobres. O toucinho frito também era um clássico e mostra que o porcoera aproveitado na sua totalidade. Os tempos eram difíceis. Havia zonas onde se passava fome. As sopas de cavalo cansado, constituídas por vinho, pão e açúcar, eram um prato normal nas Aldeias da Beira Baixa. No Minho comiam-se sardinhas e carapaus e em Trás-os-Montes havia os peixes de rio que foram desaparecendo. As verdadeiras alheiras eram feitas à base da caça, como animais como a perdiz. Entre os pratos típicos estavam também as sopas de cegador, que levavam massa com bacalhau.

O vinho estava em casa, mas dentro de pipas, para depois serem vendidas em tabernas. As sardinhas que chegavam ao interior vinham de burro em barricas cheias de sal, transportadas pelos almocreves. A paga, para os mais desfavorecidos, podia ser feita por trigo granulado em troca do peixe.

As compras e os supermercados

A bolacha Maria vendia-se avulso, bem como pedaços de chocolate. Não havia tabletes de todos os sabores e tamanhos, não havia centenas de bolachas, caixas de cereais ou sequer iogurtes nos corredores dos hipermercados. A verdade é que o primeiro supermercado (no fundo era uma mercearia grande) em Lisboa que permitiu a livre circulação do cliente — que antes precisava de ficar à espera da sua vez para ser atendido — surge em 1962 e chama-se Supermercado Saldanha (na zona do Saldanha, em Lisboa). No ano seguinte abre, junto ao café Luanda, na Avenida de Roma o Supermercado JAL. E o primeiro Pingo Doce surge após a abertura do Pão de Açúcar, em 1970.

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