Estavam mais de 400 adolescentes sentados no auditório do Fórum Lisboa, mas isso não foi impedimento para que uma jovem se levantasse e respondesse à pergunta: "Quais de vocês é que já assistiram a atos de discriminação?". Ela não só assistiu, como sentiu: "Estava com a minha namorada e uma senhora começou a criticar-nos. Nós perguntámos-lhe o que é que ela faria se a filha dela gostasse de mulheres e ela disse-nos que a punha fora de casa."

A circunstância que naquele momento se vivia era especial. Aquela palestra, guiada por Catarina Furtado, na sexta-feira, 24 de janeiro, era um espaço seguro, inclusivo, de partilha e de reflexão. Apesar dos mundos diferentes, todos os que lá estavam sentados tinham algo em comum. Estão a viver a adolescência e a passar pelos medos, dúvidas e mudanças inerentes a esta época da vida — aquela em que somos assolados pela noção de que existimos, de que somos seres humanos e de que há um futuro para montar. Cidadania, responsabilidade social e o potencial de cada um foram outros temas abordados pela apresentadora.

Mais à frente, outra miúda identificava frases que perpetuam comportamentos que não se podem tolerar: "Sim, quando éramos mais pequenos e um menino nos batia, as mães diziam: 'Não ligues, Ele bate-te porque gosta de ti." Mas violência não é amor, controlo não é amor, ciúme não é amor como lembrou a Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), fundadora da associação Corações com Coroa, coautora do documentário "Príncipes do Nada" (com nova temporada a estrear-se na RTP, já em abril)  e autora de "Adolescer é Fácil #SóQueNão", o livro que levou a MAGG à conversa com Catarina Furtado.

Catarina Furtado. 'Há muitos miúdos privilegiados que se sentem completamente sozinhos'

Falou sobre as dificuldades da adolescência. No caso da Catarina, houve algum aspeto mais conflituoso nessa altura da vida?
Conflituoso nunca tive, felizmente. Muito porque entrei na Escola de Dança do Conservatório Nacional com 9 anos, o que fez com que a minha concentração tivesse sido canalizada entre a dança e a conciliação do meu tempo com a escola normal. Isso fez com que eu não tivesse muito espaço para me desviar para outras questões, que podiam não ser muito produtivas. Deu-me uma enorme disciplina. Mas, independentemente das diferenças tecnológicas que separam as gerações, as hormonas são iguais. Portanto, ser adolescente é ser alguém que anda com as hormonas aos saltos. E isso é assim para todos: dói crescer, como disse aqui um dos miúdos. Dói crescer com inseguranças, com medos, dói crescer com sonhos que se pensa que não se vão alcançar. Eu tive isso tudo.

O que é que a ajudou a enfrentar estes medos?
Tive um grupo de amigas, sobretudo da dança, muito coeso e depois tive muito mundo trazido pelo meu pai, jornalista, e pela minha mãe, professora do ensino especial. O meu contexto fez-me perceber desde muito cedo que queria investir em qualquer coisa que me permitisse fazer algo pelos outros. Percebi desde muito cedo que tinha uma missão na vida. E que essa missão seria acreditar sempre no ser humano.

Também destacou o papel dos professores na sua vida.
Sim. Tive professores que olharam para mim e que em vez de só me ralharem por ser conversadora, por querer pôr muitas ideias em prática ao mesmo tempo — o que me levava a desconcentrar —, souberam conduzir a minha traquinice, viram alguma coisa nela. Souberam guiar-me. Acreditaram em mim.

Hoje esteve a falar para 400 adolescentes, absolutamente concentrados nas suas palavras e muito participativos. 
Hoje tivemos uma mistura muito interessante de jovens. Uns vindos de escolas bastante bem apetrechadas, do ponto de vista das oportunidades, outros nem tanto. E tão bem que eles coabitaram. Esse é um dos meus sonhos: uma real e eficaz integração das pessoas, que é o que não acontece, quer com os refugiados, quer com os imigrantes, por exemplo. Como esta integração não é bem feita, temos assistido a atos de xenofobia, de racismo, de medo. Depende destes programas e atividades a promoção de uma saudável integração — e que ainda não está a acontecer, em Portugal e em todo o mundo.

Em 2019, por causa do livro, passou por 11 escolas e falou para mais de dois mil alunos. Quais é que são as maiores diferenças entre os jovens que vivem em contextos mais privilegiados face aos que vivem em circunstâncias mais vulneráveis?
Fui maioritariamente a escolas públicas, mas também fui a estabelecimentos de ensino privado. Há sempre diferenças em relação ao mundo que cada um destes miúdos tem. Os miúdos de uma escola privada, de uma maneira geral, são miúdos que já viajaram para outros países, que já tiveram em situações de resorts, de hotéis. Mas, apesar disto tudo, há muitos miúdos privilegiados que se sentem completamente sozinhos. Muitos daqueles pais dão-lhes tudo o que é material, mas fica a faltar a outra parte. No cantinho dos desabafos [local em que os miúdos podiam falar pessoalmente com a apresentadora] eu tive miúdos que são cheios de dinheiro, que estão em colégios ótimos, a dizerem-me que estão completamente sozinhos, que têm tudo, mas que lhes falta falar com alguém que os compreenda, que os oiça, que os pais trabalham muito. Há miúdos a quem falta espaço de partilha, espaço de intimidade com os pais, que nunca se abriram verdadeiramente e que nunca falaram dos seus medos, até dos seus gostos. Tive imensos casos de miúdos que tinham tudo, mas a quem depois também faltava tudo.

Miúdos que vêm de bairros complicados são miúdos que têm outro tipo de vivências. Sabem que depende deles o esforço de agarrarem a vida. Mas o que eu depreendo disto tudo é que todos estão a atravessar fases da adolescência, e, portanto, têm muitos sintomas parecidos.

E do ponto de vista do conhecimento?
Do ponto de vista do conhecimento é curioso, porque não acho de todo que os miúdos nas escolas públicas estejam mais bem preparados. Há casos e casos. Há professores extraordinários nos dois lados e que de facto conseguem movimentar a motivação dos miúdos. Mas também há outros não. Há de tudo.

Catarina Furtado. 'Há muitos miúdos privilegiados que se sentem completamente sozinhos'

No cantinho dos desabafos, ouviu alguma história que a tivesse marcado mais?
Ouvi muitas, foram centenas. Fui a 11 escolas em 2019 e foram mais de dois mil alunos. E já faço as palestras há muito tempo, portanto o número é muito superior. No cantinho dos desabafos já ouvi coisas horríveis. Houve uma criança que esperou que eu terminasse a palestra e que, no final, me disse que precisava de falar comigo: disse-me que, na sua vida, nunca tinha visto mais nada a não ser violência. Fiquei completamente paralisada com aquele testemunho. O que é que se passava? Tinha uma mãe que foi vítima de violência doméstica, que saiu de casa para se poder salvar daquilo. A miúda foi também vítima de violência, tinha um enquadramento social inacreditável. Eu era a primeira pessoa a quem ela contava isto, porque ela sentiu que podia confiar em mim depois da palestra. E eu perguntei-lhe como é que, naquelas circunstâncias, ela vinha todos os dias para a escola. Ela respondeu: "Eu venho todos os dias para a escola com um sorriso treinado."

Que idade tinha?
12 anos. Nós adultos temos de estar muito mais atentos aos jovens. Temos de saber ouvi-los, temos de saber identificar determinados olhares. Eu senti-me muito privilegiada por ela me contar a sua história. Disse-lhe que ela tinha de ir à psicóloga da escola e ela concordou. Já no final da visita — porque ainda tinha mais miúdos para ouvir — , veio uma pessoa ter comigo e disse-me: "A X já falou comigo e contou-me tudo. Não se preocupe, eu sou a psicóloga da escola, a partir de agora eu tomo conta." Entretanto tenho recebido notícias da menina, quer através do Instagram, quer através da psicóloga da escola. E esta vida está a mudar.

Há muitos casos de violência no namoro entre os mais jovens?
Sim, há muitos casos de violência no namoro.

A Umar realizou um estudo em 2019 sobre a violência no namoro, em que incluiu uma amostra de 4.938 participantes — 2.644 raparigas e 2.242 rapazes. Concluiu:

  • Destes jovens que estiveram ou estão numa relação de intimidade, 58% reporta algum dos indicadores de violência no namoro analisados no estudo;
  • 67% do total de jovens aceita como natural pelo menos uma das formas de violência na intimidade. A normalização das situações descritas indica uma elevada legitimação social da violência nas relações de intimidade entre os/as jovens;
  • A violência no namoro está presente quer pela experiência vivida nos relacionamentos íntimos — com a vitimação entre 11% (violência física) e 34% (violência psicológica) — quer pela legitimação e naturalização destes comportamentos, em que os dados se situam entre 9% (que legitimam comportamentos de violência física) e 27% (que legitimam comportamentos de controlo);
  • A naturalização da violência é maior nos rapazes em todas as formas de violência estudadas;
  • Em relação à violência sexual, a diferença entre rapazes e raparigas é significativa, uma vez que a legitimação destes comportamentos, pelos rapazes é de 34% e, pelas raparigas, de 15%;
  • Os comportamentos de controlo apresentam-se como os mais legitimados, por jovens de ambos os sexos (27%), sendo a proibição de vestir determinadas peças de roupa o comportamento mais legitimado (36% dos/as jovens);
  • A violência nas redes sociais, enquanto dimensão (relativamente) nova nas relações de intimidade, mostra resultados alarmantes, tanto na legitimação 23% — quase um quarto de jovens — considera normal esta forma de agir no namoro; como na vitimação (21%);
  • A perseguição compreende um conjunto de comportamentos que é legitimado, tanto por rapazes (33%) como por raparigas (17%). Esta legitimação pode advir do facto de, na nossa cultura, estes comportamentos não serem considerados violência (apesar de já criminalizados) e serem muitas vezes romantizados, sendo, portanto, um assunto que deve ser refletido pelas pessoas que têm a responsabilidade da educação dos/as jovens.

De onde é que isto vem?
Os nossos jovens em Portugal têm um índice muito elevado de um não conhecimento das reais definições de cada comportamento. Ou seja, elas confundem muito e acham que se a pessoa é namorado ou namorada é património. Por isso, controlam não só os telemóveis, como aquilo que se veste, como as escolhas de amigos. Há a crença de que o ciúme quer dizer amor, de que o controlo quer dizer amor. Isto acontece quer nos rapazes, quer nas raparigas.

A maior parte das vítimas são mulheres?
A maior parte das vítimas são mulheres e isto tem muito que ver com o facto de termos muitas ideias erradas enraizadas na nossa sociedade. Há muita violência psicológica e também física, com níveis muito dramáticos e preocupantes — o que inevitavelmente leva aos números horrorosos e vergonhosos da violência doméstica. Se estes jovens crescem a acreditar que é normal tratar mal, então vão ser também eles agentes protagonistas de violência doméstica.

Ainda há pouco uma miúda dava o exemplo da frase: "Se ele te bate, é porque gosta de ti".
Exato. Temos de contrariar isso. Uma das coisas que digo na palestra, e que também está no livro, é que temos de ter consciência das frases que dizemos, porque ajudam a perpetuar comportamentos.

Como mulher a trabalhar também no meio artístico, sentiu algum tipo de discriminação?
Claro que sim. Senti o poder de quem era meu patrão e isso é uma coisa terrível. A questão do assédio sexual é uma coisa que hoje em dia, felizmente, devido aos movimentos que começaram a surgir, passou a ter mais espaço no debate e de reflexão. Mas aquilo que considero inaceitável — e que continua a acontecer — é que quem tem poder a nível dos empregos, dos postos de trabalho, exerça manipulação psicológica sobre as mulheres. Isso não podemos aceitar nunca.

Como é que reagia na altura? Já tinha consciência disto?
Não, não tinha tanta. Mas vim de uma casa em que sempre se falou de todas as questões sem tabu. Na altura tive a capacidade e força que muitas pessoas não têm. E, atenção: não têm porque eu vinha de uma família privilegiada em que se acontecesse alguma coisa eu tinha sempre a retaguarda da minha casa. Há quem não tenha. E estas pessoas não são mais nem menos. São as circunstâncias e contextos de cada um.

Catarina Furtado. 'Há muitos miúdos privilegiados que se sentem completamente sozinhos'

Independentemente do contexto social, do que é que os miúdos de hoje precisam mais?
Os miúdos de hoje precisam de ser ouvidos. Os miúdos estão mais suscetíveis a estímulos exteriores portanto com o potencial de distração muito maior, face à minha geração. E, portanto, é um desafio herculiano ser professor hoje em dia. Mas o que eu também sinto é que de facto os miúdos têm de ser ouvidos de outra forma, com outra linguagem e com espaço para isso. E às vezes as escolas não têm esse espaço. Os miúdos estão a precisar de ser espremidos, de ser orientados, no sentido de terem alguém que alguém lhes diga que eles devem promover a sua própria identidade, que devem tentar marcar pela diferença, que devem trabalhem em conjunto. Precisam de alguém que lhes mostre o potencial que eles têm para mudar o mundo. De outra forma, e por estarem numa altura em que são mais influenciáveis, corre-se o risco de ocuparem de forma vazia o seu tempo. Eu não sou nada descrente em relação à nova geração, tanto que tenho centenas de pedidos nas minhas redes sociais para fazerem voluntariado. Eles só precisam de ser encaminhados. Nisso, acho que o sistema educativo devia mudar um bocadinho.

E os pais?
Nós em Portugal ainda achamos que se tem de trabalhar dez horas, em vez de serem as oito ou as seis, como no caso dos países nórdicos. Acho que o mundo já está a caminhar num sentido em que os horários podem ser geridos de outra forma, mas nós, em Portugal, somos um bocadinho desorganizados no nosso trabalho. Temos de mudar um bocadinho as coisas de forma a que os pais tenham mais tempo para os filhos.

Fala sobre cidadania, sobre preconceito, sobre bullying, sobre os direitos das mulheres. Se tiver de escolher uma bandeira, qual é?
A minha pasta, enquanto embaixadora do FNUAP, é a saúde materna e neo-natal, assim como todas as questões ligadas à saúde reprodutiva e à juventude. Esta é a minha batalha. Em todos os contextos vulneráveis, nomeadamente em contexto de refugiados, as mulheres continuam a dar à luz e continuam a morrer ao dar à luz. E sabemos que ao investirmos nestas áreas, na saúde reprodutiva, estamos a dar um passo gigante para aquilo que é um mundo mais justo e equilibrado.

A equação está feita: há muitas provas no terreno de projetos que foram vingadores e sabemos que a partir do momento em que uma mulher é salva e em que é feito um investimento na sua saúde e educação, ela vai perpetuar isso dentro do seu seio familiar, vai pôr os filhos na escola, nos centros de saúde e, portanto, vai diminuir a mortalidade infantil e vai fazer com que haja um pontapé, quer da família, quer da comunidade, quer do país. Está tudo ligado.

É isso que a Corações com Coroa tem feito.
A Corações com Coroa não é uma associação caritativa por isso mesmo. Eu quis atuar no degrau acima: aquele que dá o empurrão, que é fundamental para as pessoas conseguirem dar a cambalhota das suas vidas. Temos esse exemplo nas nossas bolseiras: elas têm o que é essencial, que é a capacidade, de trabalho, o talento e a vontade, mas não têm recursos, quer financeiros quer psicossociais. A associação acolhe, dá colo e o tal empurrão. A nossa intervenção é interdisciplinar e atua a nível biopsicossocial.

Por último, o que é que diria à Catarina adolescente?
Sim, um dia vais ter maminhas. E, agora mais sério: sim, tu vais ter tudo aquilo com que sonhaste.

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