Quantas vezes marcamos um jantar de grupo na ínfima esperança de que toda a gente realmente vá?. "Sim, somos vinte. Pode marcar mesa para as 20h", dizemos ao telefone, mesmo quando tanto nós como o funcionário do restaurante sabemos que isso nunca vai acontecer. Primeiro, o português não prima pela pontualidade. Segundo, há sempre um acidente na A5, uma reunião que o chefe marca para as 19h, um filho que cai de bicicleta ou um bebé que fica com a vigésima otite do ano.

Na prática, aquela mesa para vinte pessoas vai passar a ser apenas para 15, o que resulta numa reorganização da sala de jantar e em pelo menos duas travessas de comida que ficam sem destinatário.

Para que o propósito final daqueles pratos não seja o lixo ou um tupperware perdido no frigorífico — mesmo a pedir uma visita do Ljubomir Stanisic — a empresa FairMeals propõe uma nova forma de ver aquele desperdício ganhar nova vida.

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Através do site e de uma aplicação a ser lançada em breve, os restaurantes, cafés, padarias, hotéis ou qualquer outro estabelecimento que comercializem produtos alimentares podem anunciar os produtos e refeições que não foram vendidos ao longo do dia e que não podem ser guardados para que seja respeitada a qualidade, frescura e composição nutritiva dos alimentos usados.

Não há investimento ou fidelização para o restaurante. A única coisa que tem que fazer é registar-se no site e anunciar quais as refeições que têm a mais naquele dia. "Um dia pode ser esparguete à bolonhesa, noutro dia picanha ou até sushi, caso o vendam também", explica à MAGG Ana Cláudia Santos, coordenadora do projeto em Portugal. E dizemos Portugal porque esta é uma plataforma que funciona cá, mas também na Alemanha, uma vez que o seu criador, Christian Wimmler, apesar de alemão, estudou em Portugal e atualmente vive entre os dois países.

Um negócio em que todos ganham

Vamos por partes e comecemos pelos restaurantes. Neste caso, o proprietário, depois do registo feito no FairMeals, tem apenas que ir atualizando a sua oferta com os pratos do dia a dia. Para isso dá-lhes um preço mais baixo do que é praticado no restaurante, até porque funciona em serviço de take away. "Além disso, e como falamos de evitar desperdício, muitas das refeições só estão disponíveis um pouco depois das tradicionais horas de almoço e jantar", explica Ana Cláudia. Mesmo assim, conta a responsável, já existem restaurantes que mantêm a produção ou até já a aumentaram, a contar com os clientes que não se importam de esperar um pouco para comer estas refeições que, continuam a ser do dia, e a um preço reduzido. "Tem acontecido bastante em Coimbra, com os estudantes", refere.

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Hora de fazer um resumo. O restaurante evita deitar comida fora e perder lucro, o cliente consegue comprar refeições a um preço mais baixo. Mas há mais. Do lucro total que o restaurante tem ao usar esta plataforma, 20% vai para a FairMeals, que por sua vez doa 5% a instituições de solidariedade social, muitas delas relacionadas também com o desperdício alimentar. "É que mesmo com o nosso trabalho, não deixa de haver comida a ser deitada fora", lembra Ana Cláudia. Daí que estejam a ser preparadas parcerias com organizações como a Reefood [que distribui comida recolhida em restaurantes por famílias carenciadas] para que esse tipo de instituições possa distribuir aquilo que não seja vendido, mesmo depois da intervenção da FairMeals.

A operar desde setembro, são nove os restaurantes a servir mais de cem clientes distribuídos entre Lisboa, Porto e Coimbra. Se pusermos estes números numa balança, em que do outro lado estão os quase 10 mil euros que cada restaurante perde em excedente alimentar todos os anos, está-se mesmo a ver que não são os heróis a ganhar, certo? A esta provocação, a FairMeals responde com ambição. "Até ao fim do ano vamos ter, pelo menos, 150 restaurantes a trabalhar connosco".

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