
A noite foi de Marlene Vieira. Numa cerimónia que falhou em entregar as tão desejadas três estrelas para Portugal (e onde não houve qualquer alteração na lista de duas estrelas), a chef de 45 anos salvou a Gala Michelin Portugal 2025, que aconteceu na noite de 25 de fevereiro, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto.
Numa conquista raríssima para o nosso País, Marlene Vieira venceu a sua primeira estrela Michelin para o Marlene,, o seu restaurante de fine-dining no Terminal de Cruzeiros de Lisboa, tornando-se assim na primeira mulher portuguesa em 30 anos a alcançar o feito. Maria Alice Marto, do Tia Alice, em Fátima, em 1993, já tinha conquistado uma estrela, mas com o guia em moldes completamente diferentes dos que existem hoje em dia.
Depois de em 2024 a expectativa para a chef receber a estrela ser muita e sair gorada, a distinção (muito aplaudida pelo auditório) chegou finalmente este ano.
Sem esconder o contentamento, Marlene Vieira assumiu ser "bom" chegar a este feito. "É sinal de que estamos a trabalhar bem, não é? E que temos excelência, que temos qualidade", disse a chef em entrevista à MAGG. "Eu nunca duvidei de mim. É importante dizer-vos isso. Não é por estar aqui, não me quero armar. Mas acreditei em mim mais do que qualquer outra pessoa. Acho que isso é importante para qualquer pessoa. Não tem nada que ver com o facto de ser mulher ou ser homem", disse. "Sabia que poderia estar e que tinha capacidades para estar num nível de excelência. E foi isso que me alimentou até aqui."
Sobre o facto de a estrela ter demorado a chegar, Marlene Vieira acredita que este reconhecimento aconteceu quando tinha de ser. "Acho que há um tempo certo para tudo. O meu percurso é um percurso de trabalho e de não abdicar de certas coisas da minha vida, no dia a dia, da minha filha, do meu marido, de certos projetos que eu gosto de ter e que ajudam também a alimentar este sonho", referiu a chef, que também assumiu que o investimento no restaurante de alta cozinha que lhe valeu a estrela Michelin foi muito pensado — e adiado.
"Nós temos uma empresa com quatro restaurantes [a contar com o restaurante Sála de João Sá, chef que é marido de Marlene Vieira] sem qualquer investimento exterior. Tivemos que ir fazendo as coisas de maneira a sermos sustentáveis financeiramente. Por isso, o Marlene, foi sendo adiado durante muitos anos porque para nós termos um restaurante neste nível é preciso muito investimento financeiro. Como nunca o tive, precisei de ganhar dinheiro primeiro noutros restaurantes. Foi isso que aconteceu. Portanto, é merecido", garante.
"É um prémio de carreira"
Apesar de esta ser a primeira estrela Michelin de Marlene Vieira e a própria ser a primeira a assumir que vencer a segunda pode ser um objetivo, o reconhecimento é um feito gigantesco que acaba por dar o selo de garantia a um esforço de muitos anos. "É um prémio de carreira. É assim que eu sinto", disse a chef.
Não escondendo a alegria de ter recebido a estrela no Porto, dado que é natural da Maia, Marlene Vieira assumiu que tudo aconteceu como e quando devia. "Como é que as coisas dão voltas e tinha de ser aqui, possivelmente. É o tempo. Nós temos de saber esperar, saber olhar para as coisas. E há muita intuição nesta profissão."
Marlene Vieira recordou também o esforço de anos para chegar a este patamar na sua carreira. "Sou uma pessoa competitiva de natureza. Mas comigo mesma. Não é com os outros. Não olho muito para o que está fora, trabalho muito de dentro para fora. Essa é a minha forma de estar. Mas sabia e acreditei sempre que isto podia ser possível um dia. E só dependia de mim. E, claro, com pessoas com muito talento ao meu lado."
No entanto, a chef acredita que nem tudo tem de ser posto em causa para alcançar a estrela — e muito menos sacrificado. "Ninguém trabalha mais do que oito horas nas minhas equipas. Há várias mães que estão nas minhas equipas e não as abandono. Fui abdicando de uma ou outra coisa em prol da necessidade daquele momento. Mas agora, é diferente. Para estarmos bem no trabalho, temos que estar bem no meio social.Na nossa família. Com os nossos amigos."
"Este ano foi o ano que eu mais desfrutei dos meus amigos. E foi o ano da estrela. Nunca deixei de tentar.. Mas não é preciso ser obcecado. Porque é doente e porque nos faz mal de todas as maneiras. Isso eu aprendi com o meu marido. Ele ajudou-me muito, porque antes de ter a minha filha, era um bocadinho obcecada com o trabalho. Porque adorava aquilo de tal maneira. Todos os dias aprendia. Quando estamos a aprender diariamente, ficamos obcecados. Porque temos resultados imediatos, então nunca queremos parar. E a minha filha deu-me um grande travão, obviamente. Foi um grande travão, mas foi o melhor travão da minha vida", disse a chef.
Marlene Vieira foi o ponto alto de uma noite que "soube a pouco" para Portugal
Sem qualquer restaurante a conquistar três estrelas, nem nenhuma adição à lista de duas, a Gala Michelin Portugal 2025 acabou com um sabor amargo apenas adoçado pela conquista de Marlene Vieira.
"Soube a pouco", confirma a chef. "E nós nunca estamos verdadeiramente felizes quando não vemos o trabalho dos outros a ser premiado, não é? Sabemos que é importante para Portugal. Nós inspiramos-nos em profissionais e nos nossos colegas. E esta geração, a minha, e a que vem um bocadinho acima da minha, é uma geração muito unida, que apoia efetivamente o trabalho e que admira o trabalho do outro."
"Obviamente que estou feliz, mas ficaria mais feliz se houvesse uma terceira estrela misturada. E mais [restaurantes com] duas, porque... Sim, não houve nenhuma. É um bocado pouco, não é?", diz Marlene Vieira, que não esconde que continua a ambicionar mais, mas refere que a estrela Michelin não vai mudar a forma como fez as coisas até aqui.
"Não é mudar. Obviamente, o nosso menu muda a cada três meses, mais ou menos. Mas fora isso, o trabalho, essa forma, esse conceito vai continuar, não há volta a dar. Mas nós podemos andar para a frente, não vamos andar como os caranguejos para o lado. Temos que andar para a frente e agora recebemos este grande empurrão e estamos cheios de motivação, cheios de ideias. Isso já está aqui a fervilhar e nós somos criativos, precisamos desta palmada nas costas para dizer que continuamos. E eu já me conheço, quero sempre mais. Não sei, a segunda estrela, talvez. Temos de continuar a fazer aquilo que fazemos, não quero perder esta forma de estar."
Marlene Vieira é a primeira chef mulher a receber a estrela em 30 anos. "É um marco para Portugal"
Na mesma gala que a chef do Marlene, foi reconhecida, também Rita Magro (que recebeu o prémio especial de Chef Jovem no ano passado) venceu uma estrela com Vítor Matos para o Blind.
"De uma vez só, tivemos duas mulheres agora a entrar. Há uma esperança. Eu também sei que isto é um marco para Portugal, é muito importante para Portugal que haja esta força, estes exemplos de foco, de trabalho e também de uma forma saudável de estar na cozinha", diz Marlene Vieira.
"Não é preciso estar 15, 18 horas no trabalho para se conquistar isto. Isso não é verdade. É preciso haver, obviamente, talento, é preciso haver dedicação nos momentos em que estamos lá, focar, envolver a equipa, trabalhar, olhar para nós e para o projeto, sermos autênticos, sermos únicos, porque copiar também não é uma coisa que aconselho, acho que é só uma perda de tempo", salienta a chef.
Quanto a mais mulheres nas grandes cozinhas e a serem reconhecidas pelo seu talento, Marlene Vieira acha que é preciso ajuda e um ajuste naquilo em que a sociedade acredita e vê como fórmula de sucesso.
"É preciso que as ajudem [às chefs], quem trabalha com elas deve dar-lhes votos de confiança, as pessoas que têm poder nas mãos, quem tem hotéis, quem tem grupos gastronómicos. Eu sei que a imagem do homem é mais sexy, é mais comercial para vender. Não se foquem só nos lucros e nas vendas. Abracem causas, porque isso é muito importante para darmos algum sentido à vida", conclui (a estrelada) Marlene Vieira.