O título inicial era "Entregas Grátis", mas o que chegou esta segunda-feira, 20 de dezembro, à RTP Play tem o nome de "5Starz". A nova aposta do canal público foca-se nas rotinas dos estafetas de entregas de comida ou encomendas em casa e, diz-nos Justin Amorim, argumentista, realizador e criador da série, a ideia estava arrumada na gaveta há vários anos.

O momento em que as ideias começariam a ser passadas para o papel aconteceu a partir de 4 de setembro de 2015, e Amorim recorda a data com relativa facilidade porque o que marcou a noite (e as semanas seguintes) já faz parte da memória coletiva dos portugueses.

José Sócrates, ex-primeiro-ministro, tinha acabado de sair da prisão de Évora para cumprir prisão domiciliária na sua casa. À porta do prédio, em Lisboa, amontoavam-se jornalistas para várias horas de direto quando, sem ninguém contar ou prever, um estafeta da Telepizza surgiu em frente às câmaras para tentar entregar uma pizza a Sócrates.

"Succession". Do ritmo à vida dos ricos que deslumbra, o que explica o sucesso da série?
"Succession". Do ritmo à vida dos ricos que deslumbra, o que explica o sucesso da série?
Ver artigo

A CMTV acompanhou o insólito ao longo de cerca de seis minutos, numa decisão editorial que, ainda que de forma indireta, acabou por render à marca cerca de 2.3 milhões de euros em publicidade gratuita.

De uma pizza de 2.3 milhões de euros às histórias de estafetas

O momento tornou-se viral, com o estafeta a ser entrevistado em direto, e Justin Amorim foi apenas um dos milhares de espectadores que acompanhou o insólito. "Lembro-me de pensar que estas pessoas têm vidas muito estranhas e que era possível acontecer-lhes de tudo enquanto estavam a trabalhar", conta o realizador à MAGG.

A partir daí, continua, começou o trabalho de investigação. "Fui ler mais sobre o que eram as vidas destas estafetas, entrando em fóruns e grupos onde comunicam uns com os outros, até que comecei a descobrir uma série de histórias caricatas que aconteciam durante as entregas", diz. Embora não se tenha sentado à mesa com nenhum estafeta para perceber exatamente em que consistia um dia de trabalho normal, falava com vários sempre que também fazia uso de serviços de entrega.

Independentemente das histórias que foi ouvindo e lendo serem todas muito diferentes, Amorim é capaz de identificar um traço comum a todas elas. Nomeadamente, o facto de se tratar de um trabalho "precário, com más condições", e em que a vida dos estafetas assume sempre tons "monótonos" e repetitivos.

São essas características que espera pode trazer para "5Starz", uma série que pretende focar-se num grupo de estafetas (e nos seus dilemas pessoais, estando atenta a temas como consumo de drogas, sexualidade ou violência doméstica) que, cada um à sua maneira, se relaciona de forma muito particular com o trabalho que assume durante o dia e que, em certos aspetos, pode até ser uma extensão da sua personalidade.

5STARZ
A série é composta por seis episídios e estreou-se esta segunda-feira, 20 de dezembro, na RTP Play créditos: RTP

É o caso da personagem de Bruno Leça, também conhecido como Nurb — devido ao seu canal de YouTube que soma já mais de 198 mil subscritores, mas que não tem conteúdo novo desde 2018 —, que aqui dá vida a Rodrigo. "Todas as personagens têm personalidades muito diferentes e isso ajuda a complementar a história que queremos contar. A única coisa que têm em comum é o facto de serem amigos e estafetas.

A personalidade da minha personagem não tem nada que ver com a dos outros e isso, acredito, mostra a diversidade de pessoas que existem nesta profissão", diz-nos Leça, que Justin Amorim interrompe por breves instantes para acrescentar que, do rol de personagens que compõem a narrativa, a de Bruno Leça "é o pior estafeta dos cinco".

Por "pior estafeta", Amorim refere-se a alguém que tem "a pior avaliação" e uma dificuldade extrema em estabelecer relações interpessoais com o mundo que o rodeia.

Do YouTube para a representação, nada na vida de Bruno Leça (ou Nurb) foi planeado

Bruno Leça, o youtuber e agora ator, ajuda a concretizar. "Quando a minha personagem aparece, diz que este trabalho é perfeito para ela porque não tem de interagir muito com as pessoas. Basta-lhe entregar o saco, dizer obrigado e ir embora.  E isso é ótimo porque ela não é muito boa a relacionar-se com os outros e odeia intimidade. Encontrou, nesta profissão, uma zona de conforto que lhe permite ganhar algum dinheiro para sobreviver sem que, com isso, tenha de lidar com o problema que tem", explica.

Miguel Nunes é o protagonista de "Glória", a série portuguesa da Netflix com espiões à mistura
Miguel Nunes é o protagonista de "Glória", a série portuguesa da Netflix com espiões à mistura
Ver artigo

Ainda que o trailer possa dar a entender "5Starz" como uma série de comédia, há momentos dramáticos que pontuam a ação e, em especial, a personagem de Bruno Leça, que se estreia como ator depois de vários anos a apostar no YouTube e de fazer parte, aliás, da primeira geração de produtores de conteúdo para a plataforma.

A transição, diz-nos, aconteceu de forma natural. "Nada na minha vida é muito planeado e a minha personagem é igual. Identifico-me com ela nesse aspeto. Fui desafiado a fazer o casting [para este projeto] e achei que podia ser fixe experimentar" um desafio novo.

É que, embora Bruno Leça já tivesse participado em dois filmes — "O Discípulo" e "Ruas Rivais", em 2013 e 2014 —, fazia de si próprio em cada um deles. "Era a mesma personagem [o Nurb, a persona que criou para o YouTube], o que fazia com que não tivesse de sair da minha pessoa. Neste projeto, foi um desafio completamente diferente. Este é o meu primeiro trabalho na representação".

"É uma série completamente diferente daquela que era no início e não acredito que alguma coisa tenha ficado pelo caminho. Só cresceu"

A exposição e o estar em frente a uma câmara não lhe é estranho. Afinal, o primeiro vídeo no YouTube foi publicado em 2010, quando tinha 16 anos, e a esse seguiram-se tantos outros até 2018. Mas há diferenças. "A única semelhança [com a representação] é que há câmaras e estou a ser filmado. De resto, não há qualquer paralelismo", até porque, numa série ou num filme, e ao contrário do que acontece no YouTube, é um trabalho a várias mãos — e em que, quem está a ser filmado não detém o controlo total como Leça estava habituado a deter nos seus vídeos, que realizada, escrevia, gravava e editava.

Apesar disso, Leça não tem dúvidas de que, nesta fase, o que lhe faz sentido é apostar na representação e não voltar onde foi feliz. "Não estou a pensar em voltar ao YouTube tão cedo", assegura.

Sobre se o poderemos ver em novas séries ou filmes, deixa em aberto. "Sim, talvez. Espero que sim".

O processo de construção de "5Starz", desde o início até ao resultado final que pode ser acompanhado a partir desta segunda-feira, foi gradual, levando a que a série, hoje, seja muito diferente daquela que foi entregue à RTP no primeiro guião.

"Na altura em que apresentámos o episódio piloto, as outras cinco personagens não existiam, por exemplo. O Diego, interpretado pelo Gonçalo Cabral, era a única que existia. A partir desse primeiro guião, mudou tudo. O Nuno Markl, que foi consultor, esteve envolvido e estimulou-me para fazer crescer o projeto, o que me levou a introduzir estas personagens. É uma série completamente diferente daquela que era no início e não acredito que alguma coisa tenha ficado pelo caminho. Só cresceu."

Composta por seis episódios, a série que, nas palavras do realizador, "faz um retrato de uma geração com um toque visual muito apelativo", conta com um elenco composto por nomes como Gonçalo Cabral, Bruna Magalhães, Bruno Leça, Mia Fernandes e India Branquinho.

As coisas MAGGníficas da vida!

Siga a MAGG nas redes sociais.

Não é o MAGG, é a MAGG.

Siga a MAGG nas redes sociais.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.