Podemos não estar familiarizados com o símbolo Ø, letra usada em algumas línguas escandinavas ou em matemática para representar um conjunto vazio, mas fez todo o sentido para a mensagem que uma jovem de 22 anos, formada em Media Production pela Universidade de Coventry, Reino Unido, queria passar na revista que acaba de lançar a segunda edição.

"A letra entre o D e o T é um O com tracinho e uma letra que não existe na língua portuguesa. Mas eu descobri que se usa em linguística como substituto do zero e eu pensei: 'Já estou farta de fazer zero pelo meu planeta e queria pôr um ponto final'. Usei a palavra dot [palavra inglesa que significa ponto] e quis que esse 'o' tivesse um traço para pôr fim a certos paradigmas, estigmas, mentes retrógadas, coisas que já não deviam acontecer no século XXI, e fazer com que cada edição seja um novo parágrafo!", explica à MAGG Joana César, fotógrafa e fundadora da DØT MAGAZINE.

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Joana César, fundadora da DØT MAGAZINE créditos: Catarina Pereira

A primeira edição foi lançada a 21 de abril do ano passado e surgiu na sequência de um projeto para a faculdade, a tese final de curso, que na altura deu origem a uma edição mais pequena "basicamente para passar de ano", diz Joana, e que se focava em dar a conhecer jovens artistas emergentes na música. "Em Portugal eu não vejo entrevistas em que os artistas deem a sua opinião ativista e como é que a ligam à música que fazem", acrescenta.

O primeiro lançamento já mostrava um bocadinho de quem é Joana César — o gosto pela música, fotografia, e os valores que defende, como a sustentabilidade e o feminismo —, enquanto a segunda revista DØT, concluída em plena pandemia e lançada esta quarta-feira, 16 de setembro, foca-se num só tema: a liberdade.

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DØT MAGAZINE: 2ª edição créditos: Joana César

"Hoje em dia, com o que se passa à nossa volta em termos políticos e ambientais, se formos ver é tudo malta jovem a dar voz e a trazer estes assuntos para o digital. E mesmo que, como no meu caso, não tenhamos possibilidades financeiras para ter um maior alcance, acho que não devemos prender-nos por isso", refere. "O projeto surgiu porque somos pessoas na casa dos 20 anos que querem também ter uma palavra através da nossa arte".

É que a revista, inteiramente escrita e desenhada à mão, produzida por 27 jovens — desde fotógrafos, filmmakers, jornalistas, make-up artists, stylists, ilustradores, marketeers, a técnicos de som — e com participação de cinco artistas, não teve qualquer financiamento. Joana César fez um orçamento inicial, que sabia que não ia ter retorno, embora espere que as vendas consigam abater algum do investimento feito.

O valor acresce pelo facto de esta ser uma revista assente num valor principal: a sustentabilidade. Enquanto jovens, os membros da DØT não querem só mostrar "novos talentos, novas mentes", mas também que é preciso proteger o planeta. Esta é por isso a primeira revista de música em Portugal a ser impressa de forma sustentável, através da empresa The Sustainable Print CompanyOs leitores têm assim a garantia de ter nas mãos uma revista produzida com energia responsável, usando lâmpadas com baixo consumo, papel 100% reciclado, biodegradável, e impressa em tinta vegetal.

"Além de vegan, sou feminista e não faz qualquer sentido ser feminista e não ser sustentável. Seria estar a apoiar uma indústria que não é sustentável e que implica exploração de pessoas. Nós não só somos sustentáveis em termos ecológicos, como também apoiamos pequenas empresas", diz Joana César.

Mas os custos em nada se comparam com o impacto da mensagem que Joana quer passar. "A minha motivação é fazer com que as pessoas consigam ter um outro ponto de vista em relação a diversos temas e se calhar vão querer ler porque tem artistas que ouvem ou gostam do lema da revista. Se há muitas pessoas que compram merchandising porque é do artista, então porque não ler alguma coisa sobre o artista que não tenha só que ver com a sua música?", explica.

De Tomás Adrião a Fado Bicha, onde se insere Lena D'Água numa revista de jovens?

Apesar de Lena D'Água ter 44 anos de carreira, começada em 1976, e de muitos dos jovens que fazem parte da revista, incluindo Joana César, que nasceu em 1998, não terem acompanhado desde inicio o repertório da cantora, a fundadora da revista achou que a artista podia ter um papel fundamental na missão da DØT.

"A Lena D'Água já escrevia e cantava sobre sustentabilidade, por exemplo, há muito tempo e, na altura, foram completamente postos de lado porque ela era uma mulher. E hoje em dia, se formos revisitar esses temas, estão muito atuais ainda", refere Joana César.

Em entrevista, a artista, de 64 anos, fala de um Portugal antes e pós 25 de Abril que os jovens não vivenciaram. No entanto, "mesmo no meio de jovens ela está sempre pronta para a 'Grande Festa'", brinca Joana, referindo-se ao single lançado por Lena D'Água em 2019.

Tomás Adrião, jovem que venceu o "The Voice Portugal", da RTP, em 2017, e a banda Zanibar Aliens adotaram uma abordagem mais filosófica sobre o livre-arbítrio, ao passo que os Fado Bicha falam sobre a comunidade LGBTI e as Golden Slumbers debatem o papel e liberdade da mulher no mundo da música.

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Além de poder ler tudo o que os artistas têm para dizer, nesta nova edição é também possível ouvi-los através da tecnologia QR Code, alocada nas páginas de papel reciclado, através da qual pode ouvir as músicas de cada artista entrevistado.

Quanto a próximas edições, a fundadora da revista, Joana César, não revela muito. "Veremos", brinca, deixando a ideia em suspenso. Para já a revista pode ser comprada na Chasing Rabbits — Record Store, em Campo de Ourique, Lisboa, ou online no site da revista. Custa 4,50€.

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