Novamente, a altura do ano que pede retrospetivas. No que toca a eleger as melhores séries de 2021, houve muito por onde escolher. Neste ano, e ao contrário de 2020, não houve "The Crown" nem "Better Call Saul", mas isso contrapõe-se facilmente com a estreia da terceira temporada de "Succession", talvez a melhor da série até agora.

Os ricos e odiosos da série da HBO voltaram mais violentos do que nunca, é certo, mas também mais miseráveis no seu íntimo.

"Succession". Do ritmo à vida dos ricos que deslumbra, o que explica o sucesso da série?
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É esse contraste, nada subtil, que marca a nova temporada que eleva a qualidade de uma série já de si formidável. Qualquer que seja a personagem que a câmara acompanha, nunca nos aborrecemos, porque a escrita e a realização não deixam. Tudo é absoluto, interessante e urgente — como em qualquer série de excelência.

"WandaVision", na Disney+, é outra das escolhidas pela forma arrojada, e original, como homenageia as sitcom que marcaram a história da televisão enquanto mostra super-heróis a sentir a dor da perda física de um ente querido. Afinal, percebemos à medida que o desfecho se aproxima, o luto é transversal.

No que toca às grandes desilusões, "The Morning Show" é talvez a mais notável, uma vez que passou de série com coisas interessantes a dizer para uma paródia completa e sem qualquer sentido. Mas há mais.

De "Succession" a "The White Lotus", mostramos-lhe as melhores séries do ano e as grandes desilusões.

As melhores séries do ano

"Only Murders in the Building" (Disney+)

Um homicídio no prédio em que vivem e zero suspeitos. É isto que faz com que três vizinhos, que até àquela tragédia nunca tinham trocado uma única palavra entre si, se juntem para tentar resolver um caso que a polícia fechou por falta de provas.

Pelo meio, estas três figuras criam, e protagonizam, um podcast de true crime. É tosco, sem meios e quase sempre ridicularizado. No entanto, a verdade é que são eles quem chegam à verdade por detrás do crime.

A série é divertida, bem escrita e tem o melhor papel de Selena Gomez até à data. A ela juntam-se Steve Martin e Martin Short. Das melhores produções deste ano.

"Mr. Inbetween" (HBO)

Um assassino contratado lida, diariamente, com os dramas da sua profissão e do risco de ser descoberto a qualquer altura pelas pessoas com quem se vai relacionando na sua vida íntima.

O mais interessante é que Ray Shoesmith, a personagem interpretada e escrita por Scott Ryan, é um homem que camufla a sua masculinidade tóxica por detrás da imagem de durão que projeta para os outros.

Incapaz de se mostrar tal como é, as suas relações começaram a desmoronar-se aos poucos. A última temporada estreou-se em maio e terminou em julho deste ano.

"Line of Duty"

Ainda não se sabe se a sexta temporada, exibida entre março e maio na BBC One, terá sido a última. Mas foi, sem dúvida, uma das mais intensas. "Line of Duty" põe a polícia a investigar a polícia quando, percebemos logo no primeiro episódio, é descoberto todo um historial de corrupção estrutural que contamina as forças de autoridade há vários anos.

A história acompanha os esforços de vários agentes anti-corrupção à medida que se veem a braços com os dilemas de investigar os colegas e, muitas das vezes, descobrir segredos obscuros sobre aqueles que lhes eram mais próximos. A última temporada dá um desfecho à enorme conspiração que começou a ser criada na primeira e bateu recordes de audiências no Reino Unido.

Na Netflix estão apenas cinco temporadas disponíveis. Ainda não se sabe quando é que a sexta será incluída no catálogo.

"WandaVision" (Disney+)

Elizabeth Olsen e Paul Bettany são os protagonistas daquela que será, até à data, a série mais ambiciosa de sempre da Marvel.

Não só porque não é uma história apenas sobre super-heróis, mas sobre o luto. E o luto vivido por super-heróis é em tudo semelhante ao dos cidadãos comuns. A forma como aborda a dor da perda enquanto presta homenagem às inúmeras sitcoms que marcaram a história da televisão fazem desta "WandaVision" uma das produções mais arrojadas e interessantes do ano que deve ser vista por todos.

Mesmo por aqueles que, à partida, torcem o nariz a personagens enfiadas em fatos de licra justa.

"Mare of Easttown" (HBO)

Com Kate Winslet no papel principal, é só mais uma série policial em que um homicídio faz desvendar segredos obscuros e põe em cheque a vida de todos os intervenientes — inclusive a da detetive, com um passado duríssimo e um processo de luto deixado em suspenso.

A série ganha pontos em diferenciar-se dos restantes policiais negros disponíveis em streaming. É que aqui, e ao contrário do que é habitual, "Mare of Easttown" não faz por retardar a história. Estas personagens falam, mesmo numa comunidade fechada como a que é retratada nos sete episódios, revelam-se, dizem o que pensam umas das outras e fazem coisas. Mesmo que isso gere novos problemas, dilemas e becos, à partida, sem saída.

Tudo isto, claro, sempre às claras. É das melhores séries deste ano e um dos melhores papeis de Kate Winslet de sempre.

"It's a Sin" (HBO)

Estreou-se logo no início do ano na HBO e é uma das mais interessantes de 2021, ainda que tenha passado ao lado da generalidade dos espectadores, dos críticos e dos prémios.

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Aqui o foco está num grupo de amigos que, cada um à sua maneira, começa por libertar-se das famílias castradoras que os impedem de ser quem verdadeiramente são. É do berço comum da intolerância que estes amigos acabam por ver uns nos outros a família que nunca tiveram. Passam a viver juntos, e juntos abraçam os excessos da noite londrina à medida que, do outro lado do mundo, começam a chegar notícias sobre uma doença devastadora.

As interpretações são formidáveis, a realização dá corpo à claustrofobia e ao pânico de viver com VIH/SIDA e a escrita de Russell T. Davies, sempre crua, serve de alerta.

"Ted Lasso" (Apple TV+)

A série prodígio da Apple TV+ continua a ser uma das mais interessantes da atualidade. À primeira vista, parece ser apenas sobre um treinador de futebol americano que, sabe-se lá como, é contratado para treinador uma equipa de futebol no Reino Unido. Não percebendo absolutamente nada do desporto, mantém, apesar disso, uma atitude positiva mesmo que tudo à sua volta esteja a desmoronar.

A escrita é subtil e mostra-nos que, a espaços, este homem com uma visão positiva sobre tudo vive, afinal, assoberbado pela sua própria ansiedade que reprime.

É uma série que fala, acima de tudo, de saúde mental. E nós só temos de estar disponíveis para ouvir o que ela nos quer contar.

"The Underground Railroad" (Prime Video)

Esta talvez seja a série mais dura deste ano, mas também a mais importante. A história passa-se em meados de 1800 nos EUA da escravatura em que homens e mulheres estão à mercê das vontades e caprichos doentios de quem os mantém presos.

A série destaca-se pela qualidade das interpretações, mas também pela crueldade necessária que atribui aos crimes raciais cometidos contra estas pessoas que, cansadas da opressão, decidem dar início à revolta recorrendo a uma vasta rede de estradas subterrâneas para fugir.

A série foi vastamente ignorada nos prémios, mas é das melhores deste ano.

"Succession" (HBO)

Os ricos, poderosos e odiosos de "Succession" estão de volta. E a terceira temporada é a melhor da série até agora que contrabalança a vida luxuosa em que estes ricos vivem com a miséria espiritual que pauta as suas ações, gestos e palavras.

Não há que ter receio de o dizer: é a série mais bem escrita dos últimos anos e isso nota-se. Independentemente de qualquer que seja a personagem que a câmara acompanha de forma quase voyeur, nunca, em momento algum, estamos aborrecidos.

Num mercado cada vez mais saturado de mais do mesmo, "Succession" é um oásis.

"Maid" (Netflix)

Outra das séries do ano com Margaret Qualley num dos melhores papéis da sua carreira até agora. Em "Maid" (ou "Criada", como foi traduzida para o mercado português), é-nos dado a conhecer a vida de uma mulher que, depois de fugir de uma relação abusiva, é obrigada a uma vida precária enquanto doméstica.

A história, que se desenrola ao longo de dez episódios, avança lentamente porque os dilemas com que a protagonista se enfrenta são vários e morosos. Os problemas legais em que se vê metida custam-lhe mais dinheiro do que aquele que ganha a esfregar escadas ou casas de banho, muitas vezes em condições desastrosas.

É esta a nova vida de quem, em tempos, tinha sonhos. Uma das mais emocionantes do ano, com interpretações exímias, planos de câmara duros, mas estranhamento belos e uma história que nos aproxima. E talvez nos faça pensar.

"Mythic Quest" (Apple TV+)

Passou despercebida e o nome não terá ajudado porque, de facto, engana. Aqui não há dragões, rainhas ou princesas, mas programadores, gestores de produto e criativos que, juntos, unem esforços para criar o melhor videojogo online alguma vez feito.

Mas a série é, apesar disso, muito interessante até para quem não está familiarizado com o universo dos videojogos online, já que o foco está nas dinâmicas interpessoais entre funcionários e os dramas pessoais que cada um vive entre portas.

Aparentemente descontraída e leve, mas profunda e com camadas assim que a começamos a descobrir episódio a episódio. "Mythic Quest" é das séries mais subvalorizadas do catálogo da Apple TV+.

"The White Lotus" (HBO)

A série sabe bem o que quer dizer e sobre quem, mesmo que a mensagem possa parecer difusa entre o caos e desnorte. Não há uma forma certa de a interpretar e isso é elogio que baste à escrita, sempre subtil e mordaz, de "The White Lotus".

A história passa, talvez, por acompanhar o desenvolvimento das personagens — tal como nós, contraditórias, com camadas e experiências passadas que nos moldaram no que somos hoje — e na forma como vivem escondidas por detrás de uma máscara que vai pesando.

"The White Lotus" tem privilégio, pseudo-ativismo, cinismo e caos numas férias que se queriam calmas, mas que se revelam trágicas.

A par de "Succession", esta é a segunda e melhor série mais bem escrita do ano. É uma aula de escrita criativa e de desenvolvimento de personagem, mas em formato episódico.

"For All Mankind" (Apple TV+)

Depois de uma primeira temporada anémica, a segunda elevou "For All Mankind" a estatuto de uma das séries do ano. Foca-se naquilo que teria acontecido se, na verdade, tivessem sido os soviéticos a pôr o primeiro Homem na Lua e nas consequências que isso teria nos EUA e no mundo. Está repleta de tensão política, personagens complexas, bem escritas e bem construídas.

A realização está divinal e é, sem sombra de dúvida, uma das séries mais subvalorizadas deste ano. Talvez por pertencer ao serviço da Apple. Seja como for, já está renovada para uma terceira temporada.

As desilusões do ano

"Glória" (Netflix)

A primeira série portuguesa da Netflix terá sempre a sua importância. Não só pelo que poderá significar para o audiovisual português, mas também porque nunca se viu uma série com esta qualidade de produção em Portugal.

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"Glória" é, de facto, bem interpretada, realizada e montada. Mas a escrita é o ponto fraco. Chegamos ao final da série a achar que, ao longo dos dez episódios, não aconteceu absolutamente nada. Os enredos secundários que se entrelaçam com o principal, percebemos depois, têm pouca ou nenhuma relevância para um desfecho que nunca o chega a ser.

É um problema de ângulo, acima de tudo: chegar ao final sem perceber o que se quis contar. Apesar disso, que venham mais séries como "Glória". O caminho deve ser por aqui.

"The Morning Show" (Apple TV+)

A primeira temporada começou torta, mas foi-se recompondo a mais de meio. A segunda? Que desastre total. Quando "The Morning Show" se estreou, em novembro de 2019, parecia ter coisas interessantes a dizer sobre o movimento #MeToo e o abuso de poder em contexto laboral — mostrando o que acontece às vítimas de um agressor que é protegido pelo corporativismo.

Nesta segunda temporada, no entanto, tudo isso foi deitado ao lixo.

A série deixou de fazer qualquer sentido e está mais espalhafatosa do que nunca sem importar-se sobre se as escolhas que fez para estes episódios fazem ou não sentido. "The Morning Show" tornou-se numa paródia dela própria e é pena. Tinha potencial.

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