"Squid Game" é um fenómeno. Desde que se estreou na Netflix, em setembro deste ano, a série sul-coreana tem sido um sucesso e não arreda pé do top das produções mais vistas da plataforma de streaming, mesmo estando recheada de violência explícita e personagens moralmente (muito) questionáveis. E apesar de ter a recomendação de maiores de 16 anos, é inegável que crianças e adolescentes estão viciados na série — o que até já levou as autoridades a pronunciarem-se.

Mas numa altura em que a grande maioria dos jovens tem um smartphone na mão, acesso à internet e à Netflix (ou pelo menos ao YouTube, onde estão disponíveis trechos e imagens gráficas da produção), como podemos proteger os nossos filhos da série? Mais: faz sentido proibir ou devemos deixá-los ver?

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"Não acho que seja uma série recomendável para crianças, de todo, mas a verdade é que contra mim falo, que a minha filha de 12 anos viu sem eu ter dado conta. Aliás, foi ela que me recomendou a série e passei dias a adiar por achar que era uma coisa de adolescentes. Quando finalmente vi, fiquei estarrecida", conta Sónia Morais Santos, influenciadora digital (também conhecida como "Cocó na Fralda") e mãe de quatro filhos com idades compreendidas entre os 6 e os 19 anos, à MAGG.

"A responsabilidade da exposição é sempre dos pais"

A série, que retrata um grupo de pessoas em graves dificuldades financeiras que acaba por concordar entrar num seguimento de jogos mortíferos para ganhar uma avultada soma de dinheiro, mostra como o ser humano, desesperado, deixa de lado todos os valores e regras da sociedade para se autopreservar, não hesitando em acabar com a vida da pessoa do lado se isso significar a sua sobrevivência.

O problema, para quem tem filhos, mas provavelmente também uma das grandes razões do sucesso da série — ou pelo menos um dos ganchos mais curiosos — é que todos estes banhos de sangue e fuzilamentos acontecem num ambiente muito familiar às crianças, com cenários fofinhos, coloridos, com diversões e bonecos aparentemente inocentes. Numa das primeiras cenas da série e também uma das mais gráficas, os participantes lutam pela vida num jogo do macaquinho do chinês, com a diferença de que, na nossa infância, se nos mexêssemos éramos eliminados do jogo, só e apenas. Em "Squid Game", os participantes são fuzilados à queima-roupa por uma boneca com o potencial de nos assombrar dias a fio.

Devo deixar os meus filhos ver a série? Não há uma resposta fácil à pergunta, até porque é preciso avaliar cada caso e, em última instância, a responsabilidade cabe sempre à família.

"É algo que leva a que muitos pais, educadores, famílias e adultos que lidam com crianças e adolescentes se questionem, pensam se devem proibir, convencer a não ver, explicar. Sempre que existem fenómenos como este, seja 'Squid Game', o TikTok, os jogos da baleia azul, naturalmente os educadores ficam com dúvidas sobre como proceder", salienta Marta Calado, psicóloga infantil na Clínica da Mente.

Marta Calado
Marta Calado é psicóloga infantil na Clínica da Mente.

A especialista explica que estes fenómenos são frequentes, normais de acontecer e que não é preciso entrar em alarmismos. "Não vamos a correr para o psicólogo por a terem visto, a não ser que existam situações drásticas", refere Marta Calado. que assume que no caso específico de "Squid Game", o conteúdo da série, por mexer com o imaginário de crianças e adultos, causa "extrema curiosidade" nos mais jovens.

"A responsabilidade da exposição é sempre dos pais. Acredito que é uma série que as crianças mais novas não devem ver, sendo possível fazer uso dos controlos parentais das plataformas. Falando de crianças do terceiro ciclo em diante, ali entre os 12 e os 13 anos, os pais devem tentar perceber se os filhos têm ou não maturidade e gestão psicológica para serem expostos a estes conteúdos, se já existe uma maturação do sistema nervoso, sob o risco de não conseguirem regular comportamentos e começarem a reagir de forma desadequada em ocasiões sociais, como responder com raiva a colegas, por exemplo."

Proibir? Pode ser mais útil ajudar os miúdos a perceber o que veem no ecrã

No caso de Sónia Morais Santos, já tendo a filha visto a série, a alternativa passou por rever os episódios. "Acabámos por ver outra vez com ela, já que o mal estava feito. Vimos novamente, dando o devido briefing, alertando, explicando os efeitos nocivos, que aquilo era ficção, falámos muito sobre isso em família. No caso da Madalena, não fiquei extremamente preocupada quando percebi que viu sozinha porque ela tem uma enorme maturidade, aguenta o impacto. Mas claro que há miúdos que não têm maturidade para aguentar aquilo."

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No entanto, a influenciadora digital assume que, nos dias de hoje, em que os miúdos têm acesso a uma série de coisas com a internet, fica impossível controlar todos os seus passos. "Há muita coisa, muitas ferramentas. Pode-se tentar controlar, mas é difícil. Acho mais útil ver com eles — se calhar, tapando os olhos nas cenas mais gráficas —até porque, invariavelmente, isso vai ser falado na escola e depois vão sentir-se excluídos. Aliás, até revela uma certa falta de confiança dos pais neles."

Para Sónia Morais Santos, apesar de tudo o que sucede na série, a influenciadora e antiga jornalista acredita que esta pode ser também uma oportunidade de aprendizagem. "Cá em casa, vimos todos e adorámos. Acho que a produção explora muitas das qualidades, defeitos e misérias humanas, e tem uma temática que potencia a discussão do comportamento humano — e caso algumas daquelas premissas acontecessem na vida real, se seria assim tão diferente. Conversámos muito sobre isso em família e acabou por ser muito interessante. Acho que acaba por ser uma estratégia melhor do que os proibir e eles verem às escondidas."

Sónia Morais Santos
Sónia Morais Santos é mãe de quatro filhos, com idades compreendias entre os 6 e os 19 anos

"Mais do que proibir, há que ajudar os miúdos a lidar com a extrema violência e monitorizar, supervisionar", acrescenta a psicóloga infantil Marta Calado, que também acredita que, analisando os pais a maturidade dos filhos (e não estando a falar de crianças abaixo do terceiro ciclo), ver a série com eles pode ser uma alternativa.

"Temos aqui uma oportunidade para ajudar a construir uma ideia do comportamento humano, explicar o que é e não é correto, transmitir o que a personagem quer dizer, sempre ajudando a criar os limites entre o eu e o eu ficcionado", refere a especialista.

Marta Calado também explica que, com a facilidade a que os jovens acedem à internet, esta pode ser uma boa alternativa. "As crianças precisam de contexto, de saber o quando, como, porquê. E também não queremos que vivam numa realidade paralela. Acho que os pais devem ver primeiro, também acredito que seja proveitoso para professores estarem a par, e depois então decidirem se permitem ou não que os miúdos vejam. Mas, mais importante que restringir acessos, é explicar, conversar e prepará-los."

As consequências de "Squid Game" nas crianças e jovens

Apesar de também concordar que cada caso é um caso e que são os pais que devem decidir se os filhos podem ou não ter acesso à série, Berta Pinto Ferreira, pedopsiquiatra na Clínica de Santo António, acredita que esta é uma produção que não é benéfica para crianças e adolescentes.

"Se a recomendação é a partir dos 16 anos, deve ser vista a partir dessa idade. É claro que é algo que vai gerar curiosidade nos mais novos, e acho que deve ser visto primeiro pelos pais, que podem então explicar o porquê de não considerem o conteúdo apropriado para os filhos. Até porque, quando os miúdos são esclarecidos do porquê e da razão pela qual os pais não querem que estes vejam a série, aquela curiosidade é amenizada. Os adultos até podem mostrar o trailer para lhes explicar porque é que não é adequado", salienta a especialista.

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Berta Pinto Ferreira deixa a ressalva que, caso estejamos a falar de jovens mais perto dos 16, os pais podem realmente perceber se estes estarão preparados para ver algo sem serem afetados por medos ou propensão à violência, e que os adultos verem a série com eles pode ser uma alternativa. Mas não descarta as consequências negativas que podem existir. Até porque, nos últimos dias, foram públicas várias notícias sobre episódios de violência nas escolas, enquanto os miúdos tentavam imitar o que viam na série.

Berta Pinto Ferreira
Berta Pinto Ferreira é psicoterapeuta na Clínica da Mente.

"Não me parece que as crianças se comecem a matar umas às outras ou que levem armas para a escola — não é uma realidade portuguesa —, mas podem ficar com medos que alguém morra, que sejam levados. Algumas crianças podem ficar desorganizadas, perturbadas ou mais agressivas", refere a pedopsiquiatra.

Já Marta Calado, psicóloga infantil, salienta que, caso os filhos vejam a série, para além de os pais terem o cuidado de lhes perguntar, após o visionamento, o que os preocupou mais, é preciso permanecerem atentos ao que se passa. "Há que observar a reação da criança e perceber se ficou emocionalmente instável. Se está tensa, se sonhou com aquilo, se a preocupa."

Apesar de a especialista fazer a ressalva de que é normal, "de um ponto de vista clínico", que o assunto fique na cabeça dos jovens alguns dias, o que é verdadeiramente importante é entender como a série pode impactar os miúdos à posteriori.

"Se perturba o sono, a concentração, se deixam de estar motivados e até deixam de fazer trabalhos de casa, se lidam de forma desadequada com os outros ou se ficam mais agressivos, viciados na série ao ponto de reproduzirem as cenas, e se isto se prolonga no tempo, pode ser necessário procurar ajuda clínica", alerta Marta Calado.

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