Alguma vez lhe explicaram que a o cordão umbilical é o canal que liga a placenta ao bebé "tipo autoestrada com via verde"? Ou que a respiração tipo cachorrinho, como vê nos filmes, não é a mais indicada para controlar as contrações que aumentam no trabalho de parto?

Ninguém explica a maternidade como Carmen Ferreira. Numa linguagem próxima, descontraída e com algum humor, a enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica acaba de lançar o livro "Estamos grávidos! E agora?", que já é considerado por muitas grávidas como uma Bíblia para quem vive a maternidade pela primeira vez.

Bíblia ou enciclopédia, o próprio livro assume-se como um guia completo, divido por capítulos, que vão acompanhar a nova fase da vida de vários pais: começa na gravidez, passa pelo nascimento, o pós-parto, o bebé recém-nascido, os desafios após o primeiro mês de vida, e termina com a prevenção ou planeamento de uma nova gravidez.

Em 384 páginas, a enfermeira dos bebés descomplica aquela que pode ser uma das fases mais bonitas, mas também a que leva muitos pais a sentirem-se tal como o bebé dentro da bolsa amniótica — relaxados numa espécie de jacuzzi, como Carmen define, mas imersos em dúvidas. 

E a prova de que não nascemos ensinados está naquilo que levou a enfermeira a escrever o livro. Por um lado, nas consultas de preparação para o nascimento, onde dava imensos apontamentos e partilhava artigos, apercebeu-se de que as informações acabavam por ser esquecidas dado que esta é uma fase muito complexa para os pais. A solução seria então ter um suporte com tudo o que estes precisassem de saber sempre que Carmen não estivesse presente.

Por outro lado, nas redes sociais, como o Instagram onde soma já mais de 61 mil seguidores, foi também somando dúvidas dos seguidores: "'Estou grávida e preciso de um livro que me oriente neste processo'. E eu pensei: 'Realmente é preciso dar uma reviravolta aos livros que existem e fazer uma coisa mais simples, leve, divertida e muito prática, que acompanhe desde o início da gravidez até aos primeiros meses após o bebé nascer. E que fale também da mulher, do casal e destas coisas que muitas vezes temos vergonha de perguntar", explica a enfermeira Carmen Ferreira à MAGG.

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O resultado foi um livro que responde não só àquilo que muitas mulheres têm vergonha de perguntar, como "e se eu fizer cocó enquanto fizer força?", como também às dúvidas dos pais, a quem Carmen responde de forma direta: "Vocês, companheiros, são a ocitocina, são advogados, são os treinadores desta equipa fantástica que acaba de ter mais um membro em jogo! Este momento também é vosso", escreve a enfermeira no livro quando fala sobre a presença do pai na sala de partos.

“Estamos grávidos! E agora?” (PVP 19,90€), editado pela Manuscrito, foi lançado a 5 de fevereiro e nós fomos tentar desvendar algumas das respostas para a pergunta a que a autora se propõe: "E agora?"

bebés
créditos: divulgação

Considera que está na altura de parar de olhar para a blogger, o Dr. Google e para a perfeição que não existe, como fala no livro?
Sem dúvida. Cada vez mais temos de adaptar a informação ao nosso caso. Porque já percebemos que cada mãe é uma mãe, cada bebé é um bebé, e as escolhas e opções são diferentes mediante cada situação. Portanto, o standard que vemos na internet não assenta a todas da mesma forma e às vezes pode ser um bocadinho perigoso guiarmo-nos por coisas standard.

E com toda essa informação a que temos acesso hoje em dia, os pais deixaram de conseguir ler os bebés?
Eu acredito que sim. Acho que focamos-nos muito em quantificar coisas e esquecemo-nos de olhar para o nosso bebé e para aquilo que ele é capaz de fazer, porque estamos habituados a um padrão quase como se fosse um robô e que, mais uma vez, por mais que existam traços e reflexos gerais e inatos na nossa espécie, há sempre particularidades e gostos em cada bebé e cada um terá as suas necessidades. Mama às suas horas, por exemplo, e há quem demore mais tempo a fazê-lo e quem seja mais rápido. Acho que como os pais meteram essas orientações standard na cabeça, às vezes não têm a capacidade de flexibilizar os cuidados do bebé e torná-los um pouco mais práticos. Porque, na verdade, quando temos uma rotina muito rígida, depois nem vivemos este momento de forma tranquila, nem aproveitamos o bebé.

Como inverter então essa tendência?
Para inverter isso temos de dar informação às pessoas e dar-lhes confiança, espaço e tempo para aprenderem coisas sobre o seu corpo e sobre o seu bebé. E não condicionar, criticar ou julgar, porque cada mulher pode querer fazer as coisas de uma determinada forma, porque o que resulta com um bebé, com outros nem tanto.

Foi isso que tentou fazer no livro através de uma linguagem descontraída?
Sim. E com exemplos da vida real para os pais perceberem. Porque às vezes os termos técnicos bloqueiam-nos um bocadinho e há exemplos práticos do dia a dia que podemos aplicar no nosso corpo. Acho que assim as pessoas percebem melhor e está ao nível de toda a gente. Quer seja uma mãe enfermeira ou um pai engenheiro, conseguimos dar mais informação e as pessoas conseguem chegar lá mais rápido.

No livro refere vários desconfortos de que ninguém fala. Porque é que isto acontece, tendo em conta que são gerais a todas as mulheres?
Acho que, mais uma vez, ainda temos a ideia da perfeição, de que isto a nós não nos acontece, e que não é normal, por exemplo, ter pelos estranhos. Mas é normal e faz parte das alterações hormonais. E às vezes por vergonha, por não querer explorar o corpo — que é uma coisa muito característica das mulheres e que vê-se claramente na gravidez, quando perguntamos algumas coisas, ou até mesmo no pós-parto. As mulheres não tocam nas mamas, não veem a sua vagina, portanto a maternidade traz-nos um contacto direto com o nosso corpo a que nós não estávamos atentas. Considero que por um lado, isto ainda vem da visão da mulher de não se explorar, e por outro da imagem de que a grávida tem de ser perfeita, imaculada e de que nós não devemos ser diferentes do normal.

Da sua experiência, quem costuma ter mais dúvidas? As grávidas ou os pais?
Acho que hoje em dia está no mesmo patamar. O que sinto é que as mulheres, como não fazem a tal exploração do corpo e reflexão sobre o que é que vai mudar ou o que é que vão ter de adaptar, têm mais dúvidas nesse sentido. Mas os homens estão ao mesmo nível. Hoje em dia querem participar muito mais no processo da gravidez e do pós-parto. Eles próprios também têm muitas dúvidas mais operacionalizantes, por assim dizer. “Como é que agora vou fazer isto?”, “quais é que são os próximos passos?”, “qual é que é orientação do berço?”. São dúvidas mais práticas e nós mulheres temos dúvidas mais relacionadas com o corpo, a vigilância e por aí.

Falta então um guia para os pais?
Na verdade eu tentei meter neste livro um guia quer para a mulher, quer para o homem. Ainda que haja muita coisa a passar-se no corpo da mulher, há capítulos específicos para o homem para ele também entender algumas alterações na gravidez, no parto, no pós-parto, e saber como é que deve posicionar-se em cada etapa. Eles sentem-se um bocadinho perdidos no meio disto tudo porque, lá está, não é no corpo deles. E eu pensei incluir algumas coisas também para eles. O livro está feito para os dois neste sentido.

Em situações como regressar a casa sem bebé, que acompanhamento é que deve ser feito?
Depende. Regressar a casa sem bebé é algo de que nós pouco falamos porque não estamos à espera dessa realidade. Mas ela existe. E dependendo de cada caso vamos ter de adaptar algumas estratégias. Normalmente acontece porque o bebé ficou internado na neonatologia e uma parte do dia será a visitar o bebé no hospital, a prestar-lhe cuidados com o apoio das enfermeiras e depois, para uma nova rotina em casa, é preciso adaptações do casal e do próprio bebé. Depois, mediante algumas situações clínicas, estes pais vão ter de estar alertas a outros sinais que os pais de um bebé saudável não precisam de ter. Por exemplo, cuidados extra por ser prematuro, por ter tido alguma intervenção clínica ou alguma coisa deste género. Portanto, tentamos [enfermeiros] sempre acompanhar nesta fase de transição da maternidade para o regresso a casa.

A nível psicológico também é essencial ter acompanhamento?
Sim, sem dúvida. Porque os pais não estão à espera de regressar a casa sem o seu bebé. E, de repente, está lá o quarto do bebé, estão lá eles e falta o bebé. É uma dinâmica um bocadinho intensa para o casal porque chega a casa, a mãe tem de extrair leite, depois levá-lo para o bebé, e regressar novamente a casa sem ele. É um vazio que tem uma componente psicológica muito forte.

Quando efetivamente o bebé volta para casa, como refere no livro, os pais “são atirados aos lobos”. Como é que podem preparar-se para que a mudança não seja tão radical?
Essa preparação é feita ao longo da gravidez, especialmente no curso de preparação para o nascimento. O ideal seria termos um apoio a posteriori com o casal, com visitas domiciliárias, por exemplo. Como não existem ainda cá, ou pelo menos a maioria dos serviços de saúde não tem, o ideal é mesmo preparar o casal na gravidez com informação para que eles consigam ser autónomos e tomem decisões até à próxima consulta e consigam ter ferramentas sobre a amamentação, como cuidar do bebé ou sobre o próprio corpo da mulher. Assim têm um suporte e uma linha de ação.

Nesta fase em que os pais começam a ter um maior contacto com o recém-nascido. Quais é que são normalmente os maiores medos?
O top é a amamentação. Levanta sempre muitas questões. Depois eventualmente o banho, o coto umbilical, se o bebé deve arrotar ou não, por aí. E curiosamente esquecemo-nos muito da recuperação da mulher e do casal. Também deve ser algo que nós profissionais, juntamente com o casal, devemos analisar e perceber se é preciso fazer algum ajuste.

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Os pais costumam ter receio de não saber o porquê de o bebé estar a chorar?
Esse é um receio que todos temos, mas é uma confirmação. Nos primeiros tempos não vamos saber identificar bem o choro do bebé. É uma coisa que vai-se adquirindo ao longo do tempo e muitas vezes por tentativa erro. É algo que quero sempre passar aos pais: não há problema se não acertarmos logo à primeira na necessidade. Temos que ir testando até conhecermos este bebé, porque ele não fala a mesma língua do que nós. Portanto, até percebermos estas rotinas e necessidades vai demorar um bocadinho. Não é imediato. E depois há bebés mais precisos nas necessidades, outros um bocadinho mais difíceis de ler. É essencial dizer isso aos pais para que eles não fiquem frustrados. Normalmente acham que desde o primeiro dia devem conhecer o seu bebé, mas isto é um processo.

E como é que os pais recuperam a vida que tinham antes, como por exemplo a vida sexual?
Vai depender muito do tipo de caso, de como é que a mulher se sente. Claro que do ponto de vista hormonal há muitas alterações com o pós parto e a amamentação. A questão da privação de sono também faz com que esta mulher não esteja logo disponível para a relação sexual e o próprio homem também. A dinâmica do casal também influencia. E se até estão a ter um pós-parto tranquilo é algo que vai fluir naturalmente. Se estão a ter um pós-parto com muitos desafios, será posto para segundo plano, mas eventualmente nós, profissionais, vamos ter de falar sobre isto. Relembrar que quem amamenta tem uma diminuição da lubrificação e referir que estratégias podem utilizar. Explicar que a dor durante a relação sexual é normal no pós-parto e pode acontecer ao início. Contudo, se persistir tem de ser falado e encaminhado para um profissional de saúde. E dizer aos pais que é normal que a libido esteja mais baixa neste período porque há outras tarefas e cansaço, o que é perfeitamente normal. Não devem sentir-se frustrados e devem ir comunicando. A comunicação é fundamental, até pela questão da depressão pós-parto. As mulheres com as hormonas ficam um bocadinho mais sensíveis e não entendem algumas atitudes do marido ou das sogras e temos que pôr as coisas em perspetiva para que elas percebam.

Fala também sobre as visitas. Como é que devem ser geridas, tendo em conta que nesta altura são recorrentes e em alguns casos podem ser um incómodo?
Às vezes, precisamente por essas alterações hormonais, basta um comentário e a mulher fica um bocadinho mais sensível. Isto mais uma vez tem de ser trabalhado na gravidez. Perceber e dizer aos familiares o que é que o casal espera deles. Se eu pretendo que a minha sogra me ajude com a alimentação, é ela que fica encarregue de levar comida caso eu não consiga orientar. Pedir, por exemplo, ao meu pai ou mãe que passear o cão, para dar algum suporte. Relembrar a algumas visitas, de forma indireta, que um recém-nascido é diferente de um bebé e que têm de ter algum cuidado, nomeadamente com a higiene das mãos e se estão doentes então não convém visitá-lo. O objetivo das visitas no pós-parto é apoiar o casal e não cuidar do bebé. Isso terão de ser os pais a fazer para o conhecerem.

E quanto às visitas que não são familiares?
Há sempre uma estratégia que eu dou: combinar com o marido um sinal e assim que emitido serem eles a dizer ‘olhem, não levem a mal, mas nós estamos um bocadinho cansados’. Porque nós mulheres às vezes inibimo-nos um bocadinho de impôr estes limites e pode ser mais fácil ser o pai dizer. Por causa dessa questão também, assim em tom de brincadeira, criei no próprio livro um destacável no final que pode recortar-se e colocar na porta do quarto ou da maternidade. Tem as regras da visitas para elas perceberem, assim de forma indireta e divertida, até onde é que podem ir, o que deverão fazer e qual a postura. Porque as pessoas estão pouco habituadas a lidar com bebés recém-nascidos. Há muitas dúvidas, comentários e até mesmo pessoas que consideram que visitar um recém-nascido é como ver um espetáculo, então têm de estar ali uma tarde inteira a ver o bebé quase como se fossem os Reis Magos.

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