Estava deitada no sofá com migalhas de bolo-rei no pijama — não me julguem, por estes dias estamos todos a fazer o mesmo — quando me deparei com a seguinte notícia do jornal ECO: “Fertagus vai reduzir lugares sentados em todos os comboios”.

Podia dizer que me engasguei com uma passa, ou que atirei o telefone para cima da mesa num ato de revolta. Não foi o que aconteceu. Na realidade, o meu primeiro impulso foi abrir a notícia para ter a certeza de que o algoritmo do Facebook não estava maluco. Seria possível estar a ver conteúdos do dia 1 de abril a 27 de dezembro? Não, a data está correta. Espera, só pode ser um título enganador. Não, parece estar tudo bem. Ah, já percebi, é uma piada. Não, também parece que não.

Estamos tão preocupados com a Porta dos Fundos ter criado um Jesus Cristo gay que nos esquecemos que as piadas mais importantes — e graves — são aqueles que têm tanto de seco como de verdadeiro. E apesar de saber que a Fertagus não tinha nenhum intuito jocoso quando divulgou esta informação, convenhamos que mais valia ter tido.

Os transportes públicos em Lisboa não funcionam. Atirem-me pedras, enviem-me emails a debitar todas as medidas que implementaram nos últimos anos, a minha opinião mantém-se a mesma. Vou desconstruir a oração, devagarinho para que não restem dúvidas: transportes públicos. O quê? Não funcionam.

Ora vejamos: ver um autocarro chegar a horas é um mito que a Carris inventou para nos deixar a todos felizes. Inspirados na Coca-Cola, que criou o Pai Natal para vender a ideia de felicidade num refrigerante, na Fada dos Dentes ou no pote de ouro ao fundo do arco-íris, tentaram um dia iludir-nos de que eram rápidos e eficientes. Ah ah. Não.

O metro consegue ser mais pontual, apesar de nos presentear todos os dias com meia dúzia de avarias que condicionam as linhas. É um jogo engraçado este, têm que experimentar: sempre que entrarem numa estação, tentem adivinhar se há impedimentos na linha azul, verde, amarela ou vermelha. O que é que ganham se acertarem? Absolutamente nada. Mas o jogo está sempre lá para vocês.

Igualmente divertido vai ser espremerem-se dentro do sovaco de um estranho em qualquer um destes transportes públicos, enquanto riem da ironia de cartazes que pedem às pessoas que tenham cuidado com os seus bens. Meus senhores, tenho a perna direita numa ponta da carruagem e a esquerda na outra, a minha carteira está enfiada na cabeça de uma criança e julgo que o que tenho entre as pernas é um cidadão aflito para chegar ao trabalho. Neste momento podiam fazer-me uma cirurgia para me roubarem um rim — eu não me conseguiria mexer de qualquer maneira.

Editorial. A sustentável leveza da burla
Editorial. A sustentável leveza da burla
Ver artigo

O cenário é desolador, mas calma — há um sítio onde ainda consegue ser pior. Sabem onde é que os transportes públicos são uma verdadeira catástrofe? Na Grande Lisboa. Aqui junta-se tudo — constrangimentos, atrasos, sovacos —, e ainda se somam greves e horários anedóticos.

Mas nem tudo é mau, temos o sentido de humor da Fertagus. Passo a citar o jornal ECO: "'Tiram-se 116 bancos e cria-se um espaço total para 172 pessoas', indicou a presidente executiva da Fertagus, Cristina Dourado, referindo que este foi o modelo de teste implementado num dos 18 comboios da empresa, que circula desde agosto com esta alteração."

Resumo: investem-se 200 mil euros para reduzir o número de lugares sentados em 18 comboios, tudo com o intuito de levar mais pessoas na travessia ferroviária na Ponte 25 de Abril... de pé.

Não sei se ria ou se chore. Numa altura em que se cobra uma média de 800€ por um T0 em Lisboa, em que as pessoas são obrigadas a fugir para cada vez mais longe da cidade e já nem as zonas periféricas se salvam, damos mais um passo em direção a um país de terceiro mundo.

Dizem-nos que não usemos o carro para poupar o ambiente e diminuir o trânsito, e não usamos de facto — a EMEL não deixa. Pedem-nos que abracemos as alternativas de um país evoluído, e peguemos numa bicicleta ou numa trotinete — interessante, mas um bocadinho difícil para quem vive longe do centro da cidade.

Exigem-nos que esbocemos um sorriso com o preço mais baixo dos passes e aceitemos aquilo que nos dão. Ah, e que não cheguemos atrasados ao trabalho — faltas não justificadas dão direito a despedimento, e a Fertagus não passa atestados a ninguém.

Não gozem com as pessoas que só querem trabalhar, meus caros. Se o vosso intuito é fazer humor, deixem isso para a Porta dos Fundos ou para o Herman José. Deem-nos sim condições para ir trabalhar — afinal, é para isso que vos pagamos.

Antes de passarmos para os temas da semana, deixamos-lhe uma nota importante: a MAGG vai mudar de newsletter. Se quiser continuar a seguir-nos, por favor inscreva-se aqui. Só precisa de introduzir o seu email.

Agora sim, vamos ver o que andámos a fazer esta semana. Com o Natal a marcar a atualidade, a jornalista Ana Luísa Bernardino decidiu fazer a traquinice de nos mostrar quanto teríamos que correr ou caminhar depois de comer vários doces típicos desta época. Pois, nós também não ficámos contentes. Vá lá foi simpática e também nos deixou 6 dicas para aliviar a sensação de enfartamento e mostrou-nos as receitas ideais para fazer um reboot ao organismo. Algumas são deliciosas, não se preocupe.

Ainda no que diz respeito a comida, Filipa Novais andou por Lisboa a comer carbonaras para mais um ranking MAGG. O resultado está neste artigo. E porque há mais além de comida, Manuel Luís Goucha fez 65 anos e a jornalista Mariana Leão Costa reuniu 65 fotografias desde a sua infância até à atualidade. Vale a pena ver.

Até para a semana.

Newsletter

A MAGG é uma revista digital pensada para mulheres e focada nas preocupações centrais da vida de cada uma. Falamos de tudo o que está a acontecer de forma descontraída mas rigorosa.
Subscrever

Notificações

A MAGG é uma revista digital pensada para mulheres e focada nas preocupações centrais da vida de cada uma. Falamos de tudo o que está a acontecer de forma descontraída mas rigorosa.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.