A sequela de "O Sexo e a Cidade", "And Just Like That", faz tanta falta a 2021 (ou 2022, ou lá quando é que estreia a temporada) como jeans de cintura baixa com o fio dental a ver-se. Há modas que chegaram, sim senhor, tiveram o seu impacto, toda a gente adorou mas que deviam ter permanecido no baú de memórias coletivo.

O franchise cujo rosto principal é Sarah Jessica Parker é dos últimos a apanhar o comboio do revivalismo (supomos pelo demorado período de negociações entre as protagonistas, que redundou na exclusão de Kim Catrall, que deu vida a Samantha Jones, da nova série) mas já cá está.

As imagens das gravações têm inundado as redes sociais. Já sabemos que Mr. Big (Chris Noth) está de volta, bem como Steve (Dave Eigenberg), marido de Miranda (Cynthia Nixon) e Harry (Evan Handler), o homem que conseguiu conquistar Charlotte (Kristin Davis). Sabemos também que as crianças estão crescidas e que há um elenco secundário recheado de algo que "O Sexo e a Cidade" não teve ao longo de seis temporadas: diversidade.

Pouco ou nada sabemos sobre a narrativa de "And Just Like That" mas já sabemos, a avaliar pelas imagens disponíveis, que vamos ter muito trapo de marca, muito sapato que 90% das mulheres nunca conseguiria comprar, muito menos calçar, muito passeio pelas ruas de Manhattan e três personagens cujos rostos simbolizam aquilo que de pior teve o final do século XX, início do século XXI para as mulheres: o culto obsessivo da juventude, o recurso desregrado ao botox (safa-se Cynthia Nixon), essa luta contra as rugas que, em 2021, já percebemos que não conseguimos ganhar e com a qual começamos lentamente a fazer as pazes.

Se vou ver o novo "O Sexo e a Cidade"? Claro que sim. Quando a primeira temporada estreou, eu tinha 15 anos. Espreitava os episódios que, se a memória não me falha, eram emitidos ao final da noite na SIC (com direito a bolinha vermelha e tudo). Revi dezenas de vezes todas as temporadas, fui às estreias dos filmes ("O Sexo e a Cidade 2", provavelmente o pior filme da década de 2000), já fui uma Samantha mas agora sou mais Miranda.

Mas, ao longo destas duas décadas, e das inúmeras vezes em que revi os 94 episódios da série, mantive sempre a mesma opinião: Carrie Bradshaw é a menos interessante das quatro amigas. Mais. Tem características altamente problemáticas que, à luz de 2021, a tornam não só ainda mais desinteressante como um modelo a não seguir.

Sem mais delongas (e já prontinha para levar hate), eis as razões pelas quais Carrie Bradshaw é a pior personagem de "O Sexo e a Cidade".

1. A relação tóxica com Mr. Big

Ainda me hão-de explicar porque é que esperar uma década por um homem que um dia acorda a dizer que te ama e no outro se apaixona e casa com uma pós-adolescente é considerado romântico. Mas é isso que a ficção nos ensina e é isso que Carrie faz ao longo de 10 anos.

Apesar de a química entre Sarah Jessica Parker e Chris Noth ser tão intensa como a de um cubo de gelo a roçar-se num pinguim, a relação lá se arrasta ao longo de seis temporadas (com 5373 separações pelo meio) até que, finalmente, o homem a pede em casamento. Tecnicamente não é um pedido, é mais um "tipo, queres casar, só naquela?". Um empenho daqueles. Spoiler alert para quem vive em Marte: Big não aparece no casamento e a moça é deixada no altar.

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Seria o suficiente para meter juízo na cabeça e perceber finalmente que o gajo não presta, não é? Não senhora. Ele depois escreve-lhe cartas de amor (ou melhor, emails, que o senhor já tem uma idade e artrite nos pulsos) e isso é o suficiente para a milionésima segunda reconciliação. E viveram felizes para sempre num modesto apartamentozito numa das zonas mais caras do mundo.

Percebem porque é as millennials têm a cabeça toda lixada em relação ao que se deve esperar de um homem ou de uma relação? Por causa de exemplos como este.

2. Carrie é ligeiramente homofóbica

Melhor. Toda a série é ligeiramente homofóbica. Os fãs atirarão as mãos à cabeça, falarão sobre Stanford Blatch e Anthony Marantino (respetivamente amigos de Carrie e Charlotte) e como a série foi progressista ao introduzir na narrativa personagens LGBT. Sim mas... mais ou menos. Tanto Stanford como Anthony são, ao longo de seis temporadas, "os amigos gay" de Carrie e Charlotte. História, contexto, traços de personalidade? Nunca lhes conhecemos. E, apesar de se odiarem, acabam por ficar juntos e se casarem. Aquele pensamento heteronormativo básico: "São gays, estão solteiros, então ficam um com o outro".

Carrie tem uma relação completamente utilitária e descartável com Stanford, usando-o como companhia quando está mal com Big, sem Mr. Big, entre namorados ou como "plus one" nos mais variados eventos sociais. "O Sexo e a Cidade" contribuiu em muito para a glamourização da "fag hag" (termo que designa mulheres que preferem a companhia de homens homossexuais), ao ponto de um amigo gay se tornar quase como um acessório de moda. À luz de 2021, nada disto faz sentido... só que, para muita gente, ainda faz.

3. O pudor e o sexo como moeda de troca

Se Samantha foi um ponto de viragem na forma como a cultura mainstream passou a aceitar as mulheres como seres sexuais e não apenas românticos e prontos a acasalar, Carrie contribuiu exatamente para o oposto. Sabe-se que, desde o início da série, Sarah Jessica Parker negociou um contrato à prova de bala, onde estavam proibidas quaisquer cenas de nudez.

Mas não é preciso haver nudez para haver sensualidade, entrega e, perdoem-me o termo cru, tesão, e Carrie Bradshaw não tem nada disso. A única vez em que a ouvimos falar sobre desejo sexual de forma honesta acontece numa das 5938 ruturas com Big, quando diz: "Preciso de sentir o peso de um homem em cima de mim".

carrie sexo e a cidade

Carrie não é romântica como Charlotte mas romantiza o sexo para propósitos que não os do próprio prazer. É calculista no momento em que decide ter relações sexuais com um homem e isso talvez seja a razão pela qual a vida com Mr. Big entre os lençóis pareça, apesar de os encontros em hotéis chiques, um gigantesco bocejo. As lingeries sexy disfarçam, o facto de ter uma coluna num jornal sobre o tema também mas mil vezes Samantha do que Carrie: essa fala mas também faz.

4. Preguicite aguda

Como é que Carrie ganha a vida? Nunca entendemos bem. Sabemos que escreve uma mísera coluna de opinião para um tablóide e, como por artes mágicas, consegue pagar um apartamento no centro de Nova Iorque. E, para efeitos de suspensão de realidade até podia ser, não fosse o facto de Miranda e Samantha terem empregos a sério e de Charlotte ter dinheiro de família.

Mesmo que não entendamos de onde vêm os milhares de dólares para andar sempre nos restaurantes e bares da moda, para comprar sapatos e roupa à tonelada, de uma coisa temos a certeza: Carrie não faz a ponta de um chavelho. Escreve uma linha, fuma dez cigarros. Escreve outra linha, discute ao telefone com Mr. Big, de cuecas e soutien em cima da cama. E consegue sempre entregar o raio do texto ou em cima ou fora do prazo.

Neste mundo de faz-de-conta, Carrie Bradshaw, uma celebridade lista Z em Nova Iorque, parece ter todas as condições para construir uma carreira de sucesso. No entanto, nunca sai verdadeiramente da cepa torta, a não ser quando consegue fazer meia dúzia de artigozitos para a "Vogue". Sol de pouca dura porque, mal se atraca ao russo rico (já lá vamos) ou a Mr. Big (que, embora não saibamos bem o que faz, sabemos que está cheio dele), trabalhar que é bom, nada. Mais um ótimo exemplo.

5. A pior gestora do mundo

Fazendo a ponte com o ponto anterior, o episódio que mais urticária me dá (os motivos foram mudando ao longo dos anos) é aquele em que Carrie, em vias de perder o seu apartamento, pede dinheiro a Charlotte. O argumento de Carrie, que não tem qualquer tipo de poupança e gasta tudo o que tem em sapatos e roupa, é que Charlotte, por ser rica e não precisar do dinheiro, tem algum tipo de obrigação moral de o fazer.

Mesmo depois de explicar a Carrie que não é sua responsabilidade gerir-lhe as finanças, Charlotte acaba por lhe emprestar o dinheiro. E tudo fica aparentemente bem, só que não fica. Carrie simboliza a relação altamente problemática que muitas mulheres desta geração têm com o dinheiro, ou não sabendo gerir o que é seu ou criando uma relação de dependência com o de familiares, amigos ou cônjuges. "O Sexo e a Cidade" até pode ser uma série sobre empoderamento feminino, mas Carrie é tudo menos empoderada.

6. 'Aquela' relação com o russo

Aleksandr Petrovsky (maravilhosamente interpretado pela lenda do bailado Mikhail Baryshnikov) é a última (e quiçá a pior) relação de Carrie antes de assentar (finalmente!) com Mr. Big. Embora pouco ou nada saiba sobre este homem, a personagem (que, na altura, já está mais perto dos 40 do que dos 30, ou seja, não é nenhuma tolinha), deixa tudo para trás para ir viver enclausurada em Paris.

E Carrie, que parece dever muito pouco à inteligência emocional e, que raios, à inteligência em si (ver ponto seguinte), deixa-se encantar por um mundo de vestidos mille feuille da Versace, vernissages, cafés e restaurantes onde se pode fumar e partilhar duchesses com cães. No fim de contas, o russo revela ser aquilo que parecia ser desde o início: um egomaníaco que usa as mulheres como musas / acessórios e que as adora até ao momento em que elas começam a falar. O que vale é que, como sempre, Mr. Big aparece montado na sua limusina para a salvar (bué realista. Só que não).

7. A glorificação da falta de cultura como forma de flirt

Não é que Carrie seja inculta. Afinal, ela lê a "Vogue" de uma ponta a outra e, de vez em quando, passa os olhos por um livro. Raios, ela até escreveu vários. Mas se há coisa que Carrie tenta não ser é demasiado inteligente. Algo muito comum a uma filosofia de engate late 90's é a estratégia ultrapassadíssima de se fingir de burra para não afrontar o homem. Carrie usa e abusa da coqueteria tonta, da cabecinha encostada para um lado, da palhinha do cocktail na boca, do 'ai por favor salva-me que eu não sei fazer isto!'.

Carrie é tão inábil para resolver coisas do dia a dia e promove tanto essa incapacidade de autossuficiência que chega a ser constrangedor. Tinha piada há 20 anos. Agora é só triste.

8. Não saber cozinhar não é fixe

Carrie guarda roupa no forno da cozinha. As poucas tentativas que lhe vemos de preparar uma refeição são desastrosas. E não há mal nenhum em não gostar de cozinhar. O que "O Sexo e a Cidade" faz é glorificar isso, transformar uma incapacidade de autossuficiência em algo glamouroso. Ora, em 2021, ainda para mais com dois confinamentos em cima, temos prova mais do que provada de que, seja homem ou mulher, saber fazer meia dúzia de pratos não só é sexy como é uma questão de sobrevivência.

Será que vamos ver em "And Just Like That" Carrie agarrada ao fogão, a fazer pão? Duvido. Mas era engraçado.

9. Consumismo desenfreado é tãoooooo 2003

Não imagino sequer que, em pleno 2021, quando se fala cada vez mais de sustentabilidade, de slow fashion, de reciclagem de guarda-roupa, de consumo consciente, que "And Just Like That" seja (como a série e os filmes foram) uma orgia consumista, um desfile incessante de griffes e trapos.

Foi giro ver, ao longo de episódios a fio, Carrie a ter dilemas profundos sobre a compra de um par de sapatos de 1000 dólares. Foi engraçado ver o drama ético quando, após a visita a casa de uma amiga e subsequente roubo de um par de sapatos, se sentiu excluída e menorizada por gastar dinheiro em acessórios e não ter filhos. Fez sentido na altura. Agora? Nem tanto.

Mas temo bem que tal vá acontecer, a avaliar pelas primeiras imagens da nova série. Claro que isso poderá agradar aos fãs hardcore de "O Sexo e a Cidade", ansiosos de ver uma quase sexagenária empoleirada nuns Manolos ou nuns Louboutin. Eu, por mim, gramava era vê-las de fato de treino no Central Park. Acho que vou esperar sentada ali num banquinho, enquanto faço as palavras cruzadas do "The New York Times".

10. Carrie é péssima amiga

Miranda, Samantha e Charlotte são muito diferentes entre si mas têm algo em comum: quando algo se passa na vida de Carrie, tudo tem de ficar em suspenso. Samantha passa por um cancro, Miranda tem de lidar com uma gravidez surpresa, Charlotte vê um casamento desfazer-se, tem problemas de fertilidade mas, de alguma forma, os mini-dramas de Carrie parecem ser sempre mais importantes.

Carrie é a única personagem que não tem, ao longo da história, nenhum problema digno de nota, excetuando todos os dramas amorosos nos quais, voluntariamente se mete. E mesmo quando finalmente encontra um gajo decente (#TeamAidanForever) consegue arranjar maneira não só de lixar essa relação como também de arrastar as amigas com ela.

É preciso ser um fã atento de "O Sexo e a Cidade" para perceber a forma desagradável e, muitas vezes, preconceituosa, com que Carrie trata Samanta, ora julgando o seu apetite sexual, ora condenando o facto de esta não parecer muito importada com o facto de o mundo saber que tem vários amantes (solteiros, casados, novos ou velhos). Talvez porque, no fundo, Carrie queria ser menos Carrie e mais Samantha.

Agora é tarde demais.

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