Gosto muito de viver e a ideia de que esta festa um dia vai acabar deixa-me particularmente nervosa, tal como quando sei que as portas do Lux estão prestes a abrir e deixar os raios de sol entrar. Que excelente metáfora para a vida. Por causa disto, odeio ir ao médico e não há nada pior do que ir buscar resultados de análises. É, sofro de ligeiro hipocondrismo evitante, que é como quem diz, no hospital é que não me apanhas que eu cá prefiro findar-me pela ansiedade de não saber.

A coisa flui mais ou menos assim: aparece-me um sinal novo e eu penso "cancro de pele, quem te mandou gostar tanto de praia", tenho dores de estômago e penso "quem te mandou comer tantas batatas fritas, já estás de úlcera montada", tenho dores nos intestinos e penso "cancro nos intestinos, quem te mandou ter uma tripa tão tímida", sinto uma pontada no peito e penso "é durante esta noite que te vais, que estás de certeza a enfartar, é assim que isto acaba?".

Portanto, meus amigos, com tempo em barda para existir em casa e na total ausência de estímulos externos (a que dou o nome de escapes de alienação), imaginem como é que esta cabecinha agora anda. Só para terem noção, desde que a pandemia foi declarada, eu já covidei e descovidei umas 200 vezes. Nos dias que correm, qualquer palpitação, qualquer mal estar, qualquer reflexo mais anómalo do corpo só pode ser uma coisa, porque atualmente ou é COVID ou não é nada — pensamento perigoso, que desenvolvo mais abaixo. Se noutra altura ignorávamos a dita irregularidade, hoje ficamos a matutar sobre ela, a ver outros sintomas misteriosos a aparecerem e, de repente, já se dá o vislumbre da distante luz no fundo do túnel. E, não se enganem, não é o túnel da esperança. É mesmo o da morte.

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É o caso das doenças de coração. Uma amiga médica do Curry Cabral contava-me ontem que antes da pandemia havia casos de enfarte a darem entrada no hospital todos dias e que agora não há nenhum. Não é que estes episódios tenham, misteriosamente, deixado de ocorrer. "Há malta a enfartar em casa sozinha, de certeza", comentava.

Ou seja, apesar de termos de ter discernimento para distinguir o que é que são sintomas da nossa mente e o que é que são sinais reais de que podemos estar infetados pelo novo coronavírus, também temos de nos esforçar para perceber que as outras doenças existem, continuam a acontecer e a matar. Não se deixem ficar. O COVID-19 apareceu, mas os cancros, doenças de coração, de rins e por aí fora não se extinguiram. Se se sentirem mal, vão ao médico.

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