Respirava-se um lindo dia de verão. O ano de estágios tinha terminado e a minha carreira profissional tinha oficialmente começado. Pronta para um passeio de final de tarde, descia a rua de casa dos meus pais, onde ainda vivia. Fica colada ao colégio que frequentei até aos 15 anos. Mesmo junto ao portão daquela instituição, cruzo-me com uma das freiras que me acompanhou durante todos estes anos.

— "Olá, irmã! Há quanto tempo!"

— "Minha querida, como é que estás? Como está a mãe? E os manos?"

— "Está tudo a andar, irmã. Estamos todos bem!"

—  "E o que fazes tu agora?"

— "Sou jornalista!"

— "Que bom! Então e filhotes?"

Para tudo. Como assim, "filhotes"? "Filhotes" meus?

Foi a primeira vez que alguém me perguntou se já tinha filhos. Só que, nesta fase da vida, ainda a lógica do sou muito nova era aceite e compreendida. A minha carreira estava no início, ainda vivia em casa dos meus pais e estava a estrear o quotidiano feito de ordenado fixo. Ainda as imagens de pessoas de anel de noivado ou de barriga saliente nas redes sociais eram inexistentes — ou muito exóticas. Nesta altura, a pergunta era só cómica. Entrei em casa a rir: "Ó mãe, tu acreditas que a irmã me perguntou se já tinha filhos?". Que doideira.

Corta para: tenho 30 anos e sou vítima de stalking. A pergunta está em todo o lado. Pessoas que acabo de conhecer perguntam-me se tenho filhos (e, caso não os tenha, se quero e quando), colegas de trabalho perguntam-me "não queres ser mãe?", o meu ginecologista (que é o melhor do mundo, acreditem, foi uma busca longa) insiste na questão.  Melhor: a minha mãe liga-me preocupada com o destino do serviço Vista Alegre, porque ainda não há pequenos rebentos na família a garantirem a continuidade Bernardino. E, ao que parece, eu era a maior esperança. Palavra de honra, isto agonia-me.

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Não me agonia porque sinto que quero filhos agora e não tenho meio de os ter. Não me agonia porque sinto que estou a falhar no meu papel de mulher. Não me agonia porque sou infeliz por não ter bebés. Eu gosto da minha vida e acho que a estou a aproveitar exatamente como quero.

Mas estas abordagens têm um efeito, obviamente. Passa-se a ideia do agora ou nunca, de que o tempo está a voar e que a janela de oportunidade está na iminência de se fechar. Mas, caramba, o mundo evoluiu e ter filhos até aos 40 — ou até depois — é cada vez mais frequente. Que a norma social se atualize e pare de se fazer stalking. Que se deixe cair a austeridade das expectativas. O "seize the day", essa expressão muito "Clube dos Poetas Mortos" a que agora dou outro valor, na medida certa, é muito fundamental para que se vejam mais mundos.

E que se tenha consciência: conforme o contexto, insistir na questão filhos não é como perguntar por animais de estimação. É um assunto absolutamente privado: há quem não os possa ter, há quem não os queira. E isto é legítimo e não torna nenhuma mulher menos completa.

Por mais que o mundo tenha progredido e que a gravidez tenha um número de anos mais alargado para acontecer, a expectativa está exatamente no mesmo sítio, a fazer exatamente a mesma pressão. E, não vou mentir, essa pressão tem os seus efeitos — tipo, começar a fazer contas à menopausa, sei lá, nunca me aconteceu, juro.

Malta, eu acho que quero muito ter um bebé. Mas antes disso, preciso de fazer várias coisas. E também preciso que este Portugal me dê condições para educar alguém, mas isso já são outros quinhentos.

Além do mais, agora o que eu quero mesmo é ter um gato. Acho que já estou pronta para isso.

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