O meu pai é adepto do Benfica, a minha mãe diz que é do Futebol Clube do Porto, embora não seja grande adepta de futebol. E, segundo contam os dois, nos primeiros anos da minha vida eu dizia que era do Sporting, provavelmente fruto da paixoneta que tinha pelo vizinho de cima.

Não me recordo absolutamente nada desta época e desde que me lembro que sou benfiquista. Com muita calma, acho que o meu pai foi plantando discretamente a semente do glorioso na minha vida. Recordo-me, por exemplo, de me comprar uma camisola oficial ainda com o patrocínio da Parmalat e de um urso vermelho com o emblema do SLB que me trouxe de uma final da Taça de Portugal — e penso que ter sido colega de turma da filha do Rui Águas, neta do grande José Águas, também deve ter ajudado.

Mas mais importante do que ser do Benfica, é a minha paixão pelo desporto-rei. Sou completamente louca por futebol e é mesmo em estado de loucura e nervosimo atroz que fico durante os jogos do meu clube ou da Seleção Nacional — aliás, a poucas horas do Portugal - Marrocos, este coração já está a bater mais depressa.

Para além de gostar de futebol, interesso-me pelo jogo, gosto de documentários sobre o desporto, das contas malucas que fazemos em fases finais de competições para perceber quem passa em primeiro do grupo e a RTP Memória costuma ser a minha melhor amiga quando repete jogos da década de 80 e 90.

O futebol já não é só coisa de homens
O futebol já não é só coisa de homens
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Lembro-me dos inúmeros Bragas-Benfica que vi no velhinho Estádio Primeiro de Maio (Braga), do Sérgio Conceição levar tudo à frente, incluindo Oliver Kahn, nos três golos que marcou frente à Alemanha no Euro 2000 com a camisola de Portugal, de ter chorado um dia inteiro quando Portugal não passou da fase de grupos em 2002 na Coreia do Sul e nem vamos falar da felicidade que me acompanha desde o dia 10 de julho de 2016, quando nos sagrámos Campeões Europeus.

Para além das afirmações machistas, há mais declarações e momentos duvidosos do agora técnico do Sporting Clube de Portugal:

Num jogo contra o Arsenal, Siniša Mihajlović terá insultado Patrick Vieira. Uma investigação após o jogo deu conta que este terá chamado ao francês “fucking black monkey” – “macaco preto de m….” em português – repetidamente durante o jogo. Siniša pediu desculpas publicamente após o sucedido;

Em 2003, o sérvio foi suspenso pela UEFA por cuspir em Adrian Mutu, jogador romeno que jogava no Chelsea durante uma partida da Liga dos Campeões;

Em 2017, adeptos da Lazio exibiram uma imagem de Anne Frank com a camisola da Roma, numa provocação anti-semita que tinha como alvos os rivais, num acontecimento que revoltou o futebol italiano. Quando os jornalistas perguntaram a Mihajlović a sua opinião sobre o sucedido, este garantiu não saber nada sobre a polémica e perguntou “Anne Frank? Não sei quem era.”

Mas, segundo Siniša Mihajlović, o novo treinador do Sporting Clube de Portugal apresentado no dia 18 de junho, eu não devia perceber nada disto, muito menos vibrar. O treinador sérvio, que enquanto jogador integrou equipas como a Roma ou a Lazio, chega a Portugal para suceder a Jorge Jesus e o seu temperamento quase que é mais conhecido que as suas competências como técnico.

A ligação entre o futebol e o sexo feminino é uma que, alegadamente, Mihajlović desaprova. Quando deixou o seu cargo como treinador no Milan, em 2016, Melissa Satta, a namorada de Kevin Prince Boateng, afirmou em declarações à comunicação social que o balneário iria ficar mais calmo com a saída do técnico sérvio. A resposta de Mihajlović não podia ter sido mais fraturante, afirmando que  "as mulheres não deviam falar sobre futebol", dado que não estavam "preparadas para falar sobre isso".

É um facto que há muitas mulheres que não gostam de futebol, tal como homens. O que me leva à frase-feita de que os elementos do sexo feminino não sabem o que é um fora-de-jogo e isso é logo sinal do quanto não estamos aptas para falar sobre o assunto. Sim, podem existir muitas mulheres que não sabem, assim como homens , mas isso não é significativo de nada — basta não se interessarem pelo jogo (já agora, um fora-de-jogo acontece quando um jogador, no momento em que lhe é passada a bola, tem apenas um ou nenhum jogador da equipa contrária entre ele e a baliza).

Dizer que uma mulher não está preparada para falar sobre futebol apenas e só devido a ser mulher não podia ser uma ideia mais machista, datada e sinal de ignorância. E a par com outros momentos na carreira de Mihajlović, que o marcaram como racista, por exemplo, não antevejo uma bonança depois da tempestade para os lados de Alvalade com a chegada do técnico sérvio. Mas, lá está, eu não devia perceber nada disto.

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