Quando comecei esta crónica temática, intitulada "O Segundo Grande Confinamento", não estava à espera que a vida acontecesse de forma tão brutal. Passaram-se 11 dias, 10 dos quais em isolamento com o meu pai, que saiu do hospital ainda com covid-19, depois de um internamento de quase 3 semanas. Estive afastada do trabalho, a cumprir as minhas funções de cuidadora. Continuo a fazê-lo, agora já com o resto da família em casa.

E, nestes dias, entre refeições, banhos, máquinas que ajudam a respirar e o sono sempre leve, sempre em alerta, as notícias. O fluxo permanente e cruel de notícias. As imagens dos caixões, os números que não param de crescer. E, lá fora, o céu sempre triste e cinzento. Esta chuva que não para, que teima em não nos abandonar. Esta noite de 24 horas na qual estamos mergulhados e cuja madrugada ainda não conseguimos vislumbrar.

Mas não volto para vos maçar com os meus problemas. Hoje apetece-me falar de outros problemas. De problemas de primeiro mundo. Dos problemas de Diogo Faro.

Diogo Faro, para quem vive fora do eixo Twitter-Instagram-Influencing-Social Media Warrior Activism, é um humorista / cronista / ativista. Ora esta segunda-feira (ou terá sido no domingo à noite? Não sei) veio a público uma imagem onde Diogo Faro surge numa festa de passagem de ano com o que para os padrões pandémicos se pode considerar "uma porrada de gente". Ninguém usa máscara, ninguém está distanciado.

Como em tudo o que mete redes sociais, Diogo Faro foi criticado, arrasado, enxovalhado, cancelado, etc e tal. O costume. A violência verbal e a cultura do cancelamento nunca são justificáveis e atingem tantas vezes proporções absurdas. Só que, neste caso específico, há um fedor a hipocrisia que não sai nem com Sonasol. É que Diogo Faro, muito público com todas as causas que defende, escreveu uma crónica intitulada "Roubar Vacinas e Dançar em Festas", na qual critica a alienação das celebrações ilegais em tempo de pandemia.

 "Vemos imagens de festas com dezenas de pessoas. Quase todos os dias aparecem imagens de festas, algures em Portugal, de 20, 30 ou mais pessoas a cantar e dançar tão embebidos em alegria como egoisticamente alienados da realidade. Não é só o perigo de contágio que pode haver em grupos deste tamanho, é a emoção que provoca a quem vê estas imagens de pessoas que não só festejam, como fazem questão de o mostrar nas redes sociais", escreveu o humorista.

Quem ler este parágrafo quase tem a sensação que está a ser descrita a imagem da festa na qual o humorista participou, descontando a parte da dança (e da alienação porque, se Faro lá esteve, de certeza que era uma festa woke).

Depois de umas horas de silêncio, Diogo Faro lá faz um pedido de desculpas que é, no mínimo, pífio. Admite o erro ao ter participado num "ajuntamento de pessoas arriscado e desnecessário". Admite "falhas e incongruências". Tudo certo.  Mas, depois, há algo que falha. Há algo que mata, de forma irremediável, este pedido de desculpas. E não, não é a utilização snobe do termo "adereçar" (que, embora correto, deveria ter sido substituído pelo mais comummente usado "endereçar" mas - claro - nos comunicados internacionais as very-woke-celebrities usam a expressão "to address". Em português, "adereçar" é a que se aproxima mais. Cenas da globalização).

Adiante.

O que me incomoda, o que me faz comichão, é a soberba moralista e auto-vitimizante, a tresandar a whataboutism, da seguinte parte do texto.

"Noutra ocasião, poderei adereçar o ódio que me é adereçado constantemente, diariamente, e de forma tão violenta, tanto de anónimos como de colegas, mas não é altura", escreve Diogo Faro.

Percebem o que é que ele está aqui a fazer? Não? Eu traduzo. "Para a próxima vou fazer queixinhas de vocês que me estão a atacar!". E, onde se lê "colegas", pode ler-se "e vou dizer nomes!". E, na imagem do pedido de desculpas, ainda escreve "um agradecimento pelo amor". Como se estivesse a dizer a quem o critica: "veem, há muita gente que gosta de mim, seus ressabiados!".

Com este parágrafo, Diogo Faro borra a pintura toda, promete uma qualquer vendeta para as calendas, colocando num plano secundário a questão que está aqui em causa. Houve um ajuntamento. Ele esteve lá. Criticou publicamente quem fez algo semelhante, achando que estava salvaguardado pelo facto de não haver provas do mesmo (como se isso apagasse os acontecimentos).

No panorama geral das coisas, o que é que o Diogo Faro importa? Nada. Há centenas de pessoas a morrer todos os dias e outras tantas a sofrer nos hospitais. Há gente sem trabalho, há pais a servirem de professores e educadores de infância, há mil e um problemas para resolver. Na realidade, o País tem mais do que se preocupar do que com os dramas dos Jantares do Privilégio de uma grupeta que achou que estava acima das regras mas à qual, desgraçadamente, faltou o mais comum e básico bom senso. Decididamente, a falta de noção é democrática e não conhece classes, raças, credos, género ou orientação sexual.

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