Na quarta-feira, 23 de setembro, André Filipe foi expulso do "Big Brother - A Revolução" por não cumprir as regras do programa. A expulsão foi o culminar de vários comportamentos erráticos do concorrente, que pintou paredes, estragou e partiu objetos, e chegou mesmo a pôr em risco a sua integridade física ao arrancar os fios de uma das luzes da piscina, enquanto se encontrava dentro de água.

Porém, estas últimas atitudes foram apenas algumas num rol de comportamentos mais estranhos tidos por André Filipe desde o início do programa, incluíndo a relação conflituosa que manteve com Luís, um dos outros participantes. O concorrente do Barreiro chegou a inventar mentiras sobre uma alegada reação violenta do colega — o episódio que levou Teresa Guilherme a confrontá-lo em direto na gala —, que acabou com Luís a desistir do programa por razões médicas.

Mas apesar das atitudes estranhas, erráticas e mesmo preocupantes de André Filipe, com muitos colegas a questionar o bem-estar psicológico do participante, este saiu sem qualquer indicação que existisse uma razão médica para tal — foi apenas sancionado por não ter cumprido as regras.

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No entanto, esta quinta-feira, 24 de setembro, o site "Holofote" avança que o concorrente está internado com um surto psicótico no Hospital de São José, em Lisboa.  "Não parava de falar e ainda achava que estava dentro da casa do ‘Big Brother'”, disse Hélia Monteiro, a mãe do participante, à mesma publicação.

"Não podemos afirmar com toda a certeza se estamos, ou não, a assistir a um surto psicótico"

Esta quarta-feira, o dia da expulsão de André Filipe, tanto Quintino Aires como Susana Dias Ramos, psicólogos de profissão, afirmaram em direto nos espaços de comentário do "Big Brother - A Revolução" que o concorrente não tinha qualquer problema psicológico. Para os especialistas, não havia dúvidas: as imagens não eram reveladoras de um surto psicótico, e insistiram na teoria de que tudo não passava de uma chamada de atenção. Desvalorizaram os comportamentos e atribuíram-nos a questões de imaturidade e falta de educação por parte dos pais.

Mas será que um psicólogo, ou qualquer outro especialista do foro mental, pode fazer tal afirmação baseada apenas em imagens editadas, com o distanciamento de um ecrã e em frente a milhares de pessoas?  "Para mim, não é possível. Não podemos afirmar com toda a certeza se estamos, ou não, a assistir a um surto psicótico a partir de uma coisa que estamos a ver", diz a psicóloga clínica Sílvia Botelho à MAGG.

Para esta especialista, para analisar se a pessoa está ou não a descompensar, é necessário observar "como é a pessoa na normalidade, e o que é que mudou". De acordo com Sílvia Botelho, tirar conclusões a partir de imagens não passam de "deduções, que valem o que valem".

"É verdade que há a possibilidade de tudo isto, de facto, não ser um surto psicótico. Há realmente pessoas que conseguem simular comportamentos, que podem estar a jogar um jogo para ter mais protagonismo. Mas sem conhecer o historial, apenas com imagens, não se pode afirmar se é ou não é determinada coisa com certeza", esclarece a psicóloga.

Também Maria Veiga, psicóloga clínica, concorda com a ideia de que não se devem tirar conclusões sem conhecer a pessoa que está a ser avaliada. "É preciso conhecer o sujeito, saber a sua história e o contexto da sua vida, bem como o momento em que entrou para a casa", salientou a especialista.

Concorrentes como Luís e André Filipe estariam preparados para o "Big Brother"?

Os reality-shows garantem o acompanhamento psicológico aos concorrentes, e salientam que este acontece nas fase de castings, mas também durante a estadia na casa. E mesmo antes de entrarem, os candidatos são alvo de um forte escrutínio para que se perceba se têm as condições emocionais e psicológicas suficientes para enfrentar uma prova dura como são este tipo de formatos.

No entanto, em menos de duas semanas de programa, assistimos à desistência de Luís por razões médicas, não é do conhecimento público o que terá levado Bruno a desistir e agora, apesar de se tratar oficialmente de uma expulsão, André Filipe abandona a casa depois de uma série de comportamentos erráticos — e estará mesmo internado por motivos do foro mental.

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Estariam estas pessoas preparadas para este programa? Falhou alguma coisa na fase dos castings ou, por outro lado, foi tomada uma decisão consciente de colocar no jogo participantes com este tipo de fragilidades ou questões, tudo em nome das audiências?

"Todas as pessoas selecionadas devem ser submetidas a uma avaliação psicológica particular, é preciso avaliar se existe realmente estrutura ou não para o formato. Também temos de perceber que este rapaz pode ter sido avaliado, verem ali que tinha coisas engraçadas e acharem que ia resultar nas audiências. Porque as aparências enganam. Não sei que tipo de avaliação é feita, não estou a pôr em causa isso, mas acho que tem de existir um despiste de avaliação de personalidade, que não sei ou não se é realizado, mas temos de ter atenção que estamos a lidar com vidas humanas", esclarece Sílvia Botelho.

A especialista também deixa claro que a mais simples avaliação psicológica é suficiente para perceber se existe algum problema do foro da psicologia ou não num indivíduo. "Para um psicólogo, é relativamente fácil perceber se se passa alguma coisa e detetar um distúrbio."

Catarina Graça, psicóloga clínica na Clínica da Mente, também falou com a MAGG sobre a falta de preparação dos concorrentes. "Numa semana e meia, é o terceiro que sai. Como espectadora, tive a sensação que as pessoas não estavam muito preparadas para aquela realidade. Falando do caso do André Filipe especificamente, e se fosse só jogo, como foi apontado, teria de existir algum benefício. E não me parece que tenha existido qualquer benefício com este desfecho."

Para a especialista, a parte da preparação psicológica ainda antes da entrada na casa é vital. "Toda a gente percebeu que o André podia ser muito diferente. Já o Luís, também era fácil perceber que estava fora dele. E mesmo que exista um alerta para a pressão do jogo, não se pode saber exatamente como é que as pessoas vão reagir, tem que existir uma grande capacidade de adaptação", esclarece Catarina Graça, que consegue perceber algumas diferenças em relação à edição anterior do programa.

"No 'Big Brother 2020', as questões do foro mental foram muito abordadas, e principalmente com o concorrente Diogo, era transmitido por este que existia um forte acompanhamento psicológico dentro da casa. Aliás, na minha opinião, existiam participantes com muita inteligência emocional. Já nesta edição, não estou a perceber o que se está a passar, e é possível que esteja a falhar algo [a nível do acompanhamento psicológico]. É verdade que essas imagens não são mostradas, mas acho que algo se passa. Talvez estes participantes sejam mais difíceis de controlar", conclui Catarina Graça.

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Já a psicóloga Sílvia Botelho não concorda com a forma como os comportamentos levados a cabo por André Filipe foram tratados do ponto de vista do apoio psicológico. "Quando alguém começa a destruir coisas, os especialistas têm de tentar que se construa, que se faça algo construtivo. Partiu um espelho? Então tem de o arranjar. Tem de existir um psicólogo a prontificar-se e a arranjar estratégias para lidar com a situação", dado que a falta de ação pode ter consequências mais graves. "Se descompensar, pode representar um perigo para si e para os outros."

A MAGG entrou em contacto com a Endemol, a produtora do "Big Brother - A Revolução", para esclarecer questões relacionadas com as avaliações psicológicas na fase de castings e acompanhamento dentro da casa. Até à hora da publicação deste artigo, a produtora não se pronunciou.

As consequências para os participantes

Há 20 anos, Zé Maria sagrava-se vencedor da primeira edição do "Big Brother" e foi visto como herói nacional. Anos depois, foi público que o ex-concorrente sofria de problemas do foro mental, e foi manchete da imprensa nacional o episódio em que foi impedido pela polícia de correr em direção à ponte 25 de Abril, depois de andar despido pelas ruas de Lisboa.

Assim, este tipo de formatos podem deixar marcas na vida dos concorrentes, e estes podem mesmo precisar de ajuda para lidar com a crítica e exposição mediática, muitas vezes negativa. E se alguém está a ser alvo de muitos ataques nas redes sociais, esse alguém é André Filipe.

"Não me parece que tenha uma estrutura psicológica forte para lidar com o tipo de críticas de que está a ser alvo. Aliás, esse deveria ser outro requisito para se tornarem concorrentes, avaliar se são pessoas que conseguem lidar com as críticas", refere Sílvia Botelho.

Para a psicóloga, é urgente que o concorrente procure ajuda para ter "estratégias para lidar com tudo o que está a passar, o mais rapidamente possível", dado que estas situações podem potenciar questões como "ansiedade, ataques de pânico e depressões, entre outras".

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