João Nabais tinha 12 anos quando foi diagnosticado com diabetes tipo 1. Apesar da idade, confessa que o choque maior foi para os pais e, na altura, revolta não foi o um sentimento que marcasse a sua vida, uma vez que sempre foi "uma criança com muita força de vontade".

"Na minha família, a minha avó paterna tinha diabetes tipo 2 e nem sequer fazia terapia oral nem insulina. Que eu soubesse, não havia mais ninguém com diabetes. Na altura, os sintomas que tive foram uma sede intensa, um volume urinário muito grande e falta de força. Com esses sintomas tão marcantes, os meus pais levaram-me de imediato ao médico", conta à MAGG, referindo que foi logo neste dia que recebeu o diagnóstico.

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Ao contrário do que muitas vezes a maioria das pessoas pensa, a diabetes é uma doença que nem sempre está a associado ao estilo de vida ou excesso de peso,  já que esse fator se identifica mais nas pessoas diagnosticadas com o tipo 2. Este não é o caso do João, que, até hoje, não consegue encontrar uma justificação para que a doença lhe tenha aparecido. Sempre teve uma alimentação saudável e praticou exercício físico — fazia uma vida igual à da maioria das crianças de 12 anos.

Esta quinta-feira, 13 de maio,  a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), a mais antiga associação de diabéticos do mundo, completa 95 anos e a MAGG quis saber mais sobre a doença, como é viver com diabetes e que acompanhamento é dado a estes doentes em Portugal.

João Raposo, endocrinologista, diretor clínico da APDP e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, explica que esta é uma das doenças crónicas mais prevalentes do mundo e que afeta cerca de 800 mil pessoas só em Portugal.

"Destas 800 mil que estão diagnosticadas, sabemos que muitas têm risco de evoluir para cegueira, insuficiência renal,  amputação dos membro inferiores, insuficiência cárdica ou trombose", explica, referindo que estas são as complicações mais vulgares da diabetes — a doença que, segundo o especialista, gasta mais de 10% do orçamento em saúde.

"Estamos claramente numa curva de crescimento."

Para João Raposo, "combater a diabetes é um desafio da sociedade" e o problema está exatamente no facto de se continuar a desvalorizar o impacto que a doença tem na população portuguesa (a segunda com maior taxa de diabetes na Europa).

"Estamos claramente numa curva de crescimento. Antes de falarmos da pandemia da COVID-19, falávamos exatamente da pandemia da diabetes. Em Portugal, são diagnosticados todos os anos entre 60 a 70 mil novos casos de diabetes. Não estamos de todo numa fase de controlo, porque ainda não fazemos uma prevenção estruturada da doença", afirma, referindo que a prevenção passa pelo País assumir, tal como fez com a pandemia do novo coronavírus, que a diabetes precisa de ser tratada de forma estratégica.

O papel da sociedade na prevenção da doença

Deixar de culpabilizar as pessoas e transferir a responsabilidade da prevenção apenas para o indivíduo ou para a família está errado e, para João Raposo, o segredo é assumir este problema como um problema do nosso modelo de sociedade. "Percebermos que só conseguimos prevenir a diabetes se tivermos melhores condições de trabalho e melhores horários de trabalho, se tivermos espaços onde vivemos melhor para caminhar e que sejam promotores da atividade física. Que as crianças e os jovens possam praticar mais atividades em ambiente escolar ou fora dele", explica o endocrinologista.

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Durante os últimos 95 anos, a APDP tem sido então a associação responsável por acompanhar não só as pessoas com diabetes, como também os familiares e todos os que lidam diariamente com a doença (direta ou indiretamente). Além da área associativa, que se dedica a promover e a dar a conhecer os direitos e os deveres das pessoas com diabetes, existe ainda uma área de investigação, dedicada a estudar melhor os tratamentos, e uma área de formação para vários profissionais de saúde.

Para João Raposo, a educação tem ainda um papel fundamental, e cabe às escolas educar de uma forma estratégica. "Não queremos que isto seja mais uma matéria que é transmitida aos miúdos, mas que se criem modelos inovadores como, por exemplo, os que criamos na associação para ensinar os mais novos a cozinhar. Não é falar da alimentação, é ensinar a cozinhar e a fazer as escolhas certas", afirma. "A única maneira de tentar inverter esta situação, é haver retoma de algum gosto por cozinhar e que os mais novos voltem a ter essas capacidades que foram perdendo nas transmissões familiares", continua.

"A diabetes, quando adequadamente tratada, não é uma barreira para a pessoa"

Apesar desta ser uma doença cada vez mais falada, João Nabais — que vive com diabetes há 40 anos, e que faz também parte da direção da APDP e é vice-presidente da Federação Internacional da Diabetes — considera que o desconhecimento e o preconceito da sociedade ainda existe. Mitos associados à impossibilidade da prática de exercício físico ou problemas com os quais se deparam, nomeadamente na área dos seguros, fazem-no acreditar que deveria haver uma maior educação da sociedade. "A diabetes, quando adequadamente tratada, não é uma barreira para a pessoa", salienta, referindo que não se sente uma pessoa doente por ter diabetes.

"Mesmo para aqueles que aceitam bem a doença, como é o meu caso, há sempre alturas de maior revolta."

João nunca deixou de sair à noite, acampar ou estar com amigos por causa da diabetes mas, apesar da revolta ser um sentimento que não o define, confessa que há sempre momentos mais difíceis. "Há alturas da vida em que a pessoa se sente revoltada porque tem de haver rotinas diferentes e um conjunto de cuidados que as pessoas sem diabetes não têm. Mesmo para aqueles que aceitam bem a doença, como é o meu caso, há sempre alturas de maior revolta." Revolta essa que, segundo João, leva muitas pessoas a descorar os tratamentos.

Qual a diferença entre diabetes tipo 1 e tipo 2? E os tratamentos são iguais? 

A resposta é não. João Raposo explica que a diabetes tipo 1 é aquela que aparece mais frequentemente nas crianças e jovens, não está associada aos estilos de vida e tem normalmente um crescimento lento. Além de afetar muito menos pessoas, o diagnóstico apresenta-se mais fácil uma vez que sintomas como muita sede, muita vontade de urinar e cansaço são evidentes e difíceis de ignorar.

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"A diabetes tipo 2 é a mais prevalente, representa cerca de 95% dos casos, e, essa sim, está associado aos estilos de vida e ao modelo de sociedade", explica, referindo que o diagnóstico era, há uns tempos, feito maioritariamente na idade da reforma. "Hoje já se diagnostica cada vez mais cedo e, em alguns países, já começa a surgir também em crianças e jovens, coisa que há umas décadas era impossível."

Nestes casos, a doença é mais silenciosa, o que faz com que muitas vezes as pessoas não deem importância aos sintomas e só procurem ajuda em fases já avançadas, ou quando já existem outras complicações. De acordo com o especialistas, a única forma de evitar esse diagnóstico tardio é, por um lado, "cada um de nós conhecer o risco que tem de vir a ter diabetes" e, por outro, fazer análises ao sangue regularmente. Para saber o risco de vir a desenvolver a doença, o especialista explica ainda que a APDP tem um questionário  online que qualquer pessoa pode fazer e que, com base em perguntas e respostas, avalia a situação.

Uma vez que falar de diabetes tipo 1 não é o mesmo que falar de diabetes tipo 2, o endocrinologista esclarece também que os tratamentos são diferentes. "Enquanto que na pessoa com diabetes tipo 1 o tratamento é sempre feito com utilização de insulina, a pessoa com diabetes tipo 2 tipicamente tem de fazer alterações na alimentação, para perder peso, e ser medicada", explica, referindo que na última também a medicação é já mais variada.

Ao contrário de João Nabais, Ana Sequeira, 65 anos, é o exemplo de quem já esperava que a doença lhe batesse à porta. À MAGG, conta que o pai, o avô, tios, primos e irmão já tinham sido diagnosticados, todos por volta dos 40 anos, e o mesmo aconteceu com ela.

"Comer qualquer coisa de duas em duas horas quando se tem aulas de três e quatro horas em anfiteatro é impossível"

Em 2007, Ana perdeu os sentidos e foi aí que percebeu que estava a passar por uma hipoglicemia (queda dos níveis de açúcar no sangue). Apesar de saber que tinha probabilidade de vir a desenvolver a doença, confessa que o estilo de vida nunca foi aletrado para tentar prevenir a situação. "Para ser franca, poucos cuidados tinha. Tenho uma vida muito sedentária, não faço exercício físico e agora que estou a dar aulas através do zoom, ainda mais sedentária estou", assume. A professora universitária já quis várias vezes mudar de estilo de vida, mas a pouco força de vontade levou a que a ação não se concretizasse.

"Sou perfeitamente avisada em relação a isso pelo meu médico que me segue na APDP", diz, salientando o excelente acompanhamento que é feito. Para Ana, a falta de outro tipo de estruturas e apoios é apontado como o grande problema. Tal como João Raposo, considera que a forma como a sociedade se organiza não colabora nesse sentido. "Comer qualquer coisa de duas em duas horas quando se tem aulas de três e quatro horas em anfiteatro é impossível", afirma. "Quando se come em cantinas de escolas também é difícil", continua.

Além do sedentarismo ao qual a pandemia veio ajudar, João Raposo considera que durante o último ano tornou-se mais difícil prestar todo o apoio às pessoas com diabetes, mas garante que a APDP se soube adaptar e esteve sempre disponível para atendimento presencial aos casos mais urgentes. O facto da diabetes ter sido, desde o início da pandemia, considerada uma doença de risco para formas graves da COVID-19 fez com que, de acordo com o endocrinologista, a maioria das pessoas tivesse até mais cuidados do que noutras situações.

Ainda assim, assume que se tenham atrasado os diagnósticos em um ano. "Uma parte significativa não fez análises e houve provavelmente também atraso de diagnóstico de algumas complicações da diabetes, como, por exemplo, a retinopatia diabética", remata.

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