Acabou tão rápido, não foi? Nós compreendemos. Estamos há um ano a aguardar a quarta temporada da série "The Crown" e, em poucos dias, termina um dos maiores binge watching, frente à plataforma de streaming Netflix, para se iniciar um novo ciclo de espera. Triste.

Resta esmiuçar — até porque foram dez episódios emocionantes. Acompanhámos, finalmente, o início da história de Diana, antiga princesa de Gales, uma das mais controversas e adoradas figuras da monarquia inglesa. Observámos os momentos históricos e as consequências das políticas da primeira-ministra Margaret Tatcher. Assistimos ao episódio em que um homem invade o quarto de Isabel II. E ainda ficamos a saber que duas primas da rainha-mãe são institucionalizadas e deixadas ao abandono, por serem portadoras de deficiências.

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Mas será que a narrativa criada por Peter Morgan corresponde exatamente à realidade? Depende. É que há pormenores que não são revelados ou que são alterados em vários episódios. Conheça as histórias na íntegra.

1. O namoro de príncipe Carlos com a irmã de Diana

sarah spencer

É verdade: o príncipe de Gales conheceu Lady Sarah Spencer em 1977, a propósito do evento anual de corridas de cavalos Royal Ascot, celebrado em Windsor. Por esta altura, contavam-se cinco anos desde que Camilla Parker Bowles, o grande amor de Carlos, tinha casado.

Carlos tinha 28 anos, Sarah tinha 22. Como escreveu Tina Brown, autora do livro "The Diana Chronicles", não se tratando de um "amor apaixonado", a relação lisonjeava a irmã de Diana, que várias vezes terá recebido convites para ir aos castelos de Windsor e Balmoral. Havia rumores de que seria uma potencial candidata ao casamento com o membro da família real.

Foi em novembro desse ano que Carlos viu a Spencer mais nova pela primeira vez. Tal como relata a série, o encontro ter-se-á dado a propósito de um convite, que levou o príncipe a visitar a propriedade da família em Althorp, para caçar. Por esta altura, o herdeiro da coroa britânica terá encarado a futura mulher apenas como a irmã mais nova "alegre" e "saltitante" de Sarah.

Mas, segundo a autora, para Diana foi diferente: "Depois de ela ter visto o solteiro real número um a caminhar com seu labrador por um campo com armas, batedores e cães, não houve outro rival para seu coração."

O que a série não relata é o motivo que levou ao término da relação de Sarah com Carlos. Tudo aconteceu em fevereiro de 1978, quando ela o acompanhou a uma viagem de esqui em Klosters, na Suíça.

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A imprensa descobriu e segui-os até lá e Sarah fez amizade com alguns jornalistas. D regresso a Londres, num almoço, terá cometido o erro de fazer confidências impróprias: da sua experiência, como menor, com o álcool, da sua expulsão da escola e da sua luta contra a anorexia.

Ao perceber o erro que havia cometido, tentou culpar o jornalista James Whitaker, sugerindo que este havia obtido a informação por "meios sujos", como escreveu a mesma autora. Não correu bem.

Em resposta à acusação, e usando um pseudónimo, Whitaker publicou um artigo com declarações ainda mais polémicas: “Não há hipótese de me casar com o príncipe Carlos. Ele é uma pessoa fabulosa, mas não estou apaixonada por ele e não me casaria com ninguém que não amasse, fosse ele o homem do lixo ou o rei de Inglaterra. Se ele me perguntasse, eu recusaria. O príncipe Carlos é um romântico que se apaixona facilmente. Mas posso garantir que, se houvesse algum noivado entre o príncipe Carlos e eu, já teria acontecido. Eu sou o tipo de senhora turbilhão, não sou uma pessoa que vai para um namoro longo e lento. O nosso relacionamento é totalmente platónico."

2. A dança de Diana

danca

O episódio foi parcialmente verdadeiro: a princesa Diana surpreendeu o príncipe Carlos ao apresentar uma coreografia especial ao som da música "Uptown Girl" ao lado do bailarino Wayne Sleep, apesar de haver dúvidas quanto ao facto de o acontecimento ter sido mesmo um presente de aniversário para o marido.

A dança de Diana decorreu num evento anual no Royal Opera House, em dezembro de 1985, para um grupo seleto de personalidades conhecidas, os Amigos de Covent Garden. Neste espéculo, era comum haver uma atuação surpresa de um convidado. Só ninguém — nem mesmo o princípe — suspeitava de que fosse Diana a dançar com Sleep, depois de ter sido a própria a abordar o bailarino, com quem ensaiou às escondidas.

Anos mais tarde, Wayne Sleep, em entrevista ao jornal inglês "The Guardian", dando mais pormenores sobre o episódio: “Carlos estava na plateia e ela queria surpreendê-lo; era tudo ultrassecreto. Nós conhecemo-nos num estúdio de ensaio no oeste de Londres", disse. "O primeiro pensamento foi, 'ela é muito alta para dançar comigo, eu vou ser motivo de chacota: tenho 1,52 metros e ela tem 1,80'. Mas percebi logo que ela tinha um bom sentido de humor e que podíamos divertir-nos um pouco com nossa diferença de altura. Ela já se havia decidido sobre a música: o 'Uptown Girl', de Billy Joel."

Nessa noite, como se vê em "The Crown", Lady Di pediu licença e saiu do camarote. Breves instantes depois, apareceu com uma roupa diferente, no palco: “O público ficou boquiaberto quando Diana apareceu", escreveu Sleep. "A coreografia tinha de tudo um pouco: jazz, ballet, até kickline. A certa altura, dei uma pirueta e ela empurrou-me para baixo; então eu carreguei-a pelo palco. Lembro-me de pensar: ‘Não deixes cair a futura rainha da Inglaterra’. Ela adorou, mas ficou muito feliz por termos mantido tudo em segredo de Carlos e os nossos ensaios longe dos paparazzi."

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No mesmo livro, a Tina Brown lembra que Diana recebeu uma enorme ovação de pé. Mas é verdade que Carlos não ficou feliz. A reacção foi descrita como sendo uma "desaprovação frigida do lapso de etiqueta real de Diana", mas a autora diz que pode ter sido mais do que isso: o príncipe sentiu-se posto de parte, tendo em conta que no evento anterior marido e mulher haviam atuado em conjunto.

Outro pormenor relevante, que falha na série: só em 1995 é que foram divulgadas imagens do acontecimento pela primeira vez na imprensa. O bailarino crê que a publicação das fotografias pode ter posto um ponto final à amizade entre os dois: ela terá ficado desconfiada de que havia sido ele a dar as fotografias aos media.

3. A invasão do quarto da rainha

the crown

Aconteceu mesmo. Michael Fagan, decorador e pintor desempregado, recém-divorciado, então com 32 anos, saltou duas vezes os portões do Palácio de Buckingham, em 1982: uma vez em junho, em que entrou no quarto do príncipe Carlos, e descansou no trono da rainha; outra em julho, a mais polémica, em que foi apanhado. Rastejou por uma janela e invadiu mesmo o quarto da rainha. Foi uma das muitas vítimas dos efeitos económicos provocados pela política neoliberal de Margaret Tatcher, primeira-ministra britânica desta altura.

Michael fagan

Segundo relatório da polícia metropolitana de Londres, Fagan terá saltado os portões pelas 6h45, tendo entrado, primeiro, numa sala do piso térreo, cuja janela estava destrancada. O alarme soou duas vezes, mas as autoridades, acreditando tratar-se de um erro, ignoraram. O homem subiu depois por um cano até ao telhado, descalçou-se, conseguindo ter acesso a outra janela destrancada, que deu depois acesso ao interior do edifício principal do palácio. Andou pelos corredores e, como se mostra na série, foi mesmo visto por um membro do staff, que, novamente, ignorou a sua presença.

Mas nem tudo correu como demonstrado na série. O homem não queria simplesmente conversar com ela, dando-lhe conta do estado do país. “Fagan entrou no quarto de Sua Majestade por volta das 7h15 da manhã. carregando um pedaço do cinzeiro partido [que ele havia tirado de outra sala], com o qual ele disse que pretendia cortar os pulsos na presença da rainha. Ele alegou que não havia entrado no palácio com essa intenção, mas que isso se formou na sua mente pela primeira vez quando viu o cinzeiro", relatou, pela altura, o americano "New York Times."

Como na série, a monarca acionou duas vezes o alarme, mas ninguém a ouviu. Mas a conversa que vemos decorrer em "The Crown" é 100% ficção. A rainha e Fagan mal conversaram, relatou o próprio ao inglês "The Telegraph". "Eu abri a cortina e ela disse: 'O que é que está a fazer aqui?' (...) [Ela depois disse] Eu volto num minuto [e saiu do quarto]. Ela saiu pelas suas próprias pequenas pernas. Depois um lacaio entrou e disse: 'Estás com ar de quem precisa de um copo, amigo'. Dá-me um whiskey e sai. Depois entrou a polícia."

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Fagan foi detido e enviado para um hospital psiquiátrico, sem nunca cumprir pena de prisão — apesar de ter comparecido em tribunal, por ter bebido o vinho do príncipe Carlos. Até hoje, não sabe explicar bem o porquê de ter invadido o palácio. Mais recentemente, ao "The Independent" disse que o episódio pode ter estado relacionado com a ingestão de álcool e de drogas — nomeadamente, de cogumelos alucinogénios  que teria colocado na sopa cinco meses antes: "Esqueci-me que só é suposto ingerirmos uma pequena quantidade [de cogumelos alucinogénicos] (...) Estive sob o efeito de cogumelos durante muito, muito tempo." Além disso, mulher tinha-o deixado semanas antes, conjuntura que terá contribuído para o colapso mental, que o levou a acreditar que a rainha poderia ajudá-lo.

4. As familiares escondidas

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A quarta temporada de "The Crown" aborda um dos mais chocantes segredos da coroa britânica: a institucionalização e abandono de Katherine e Nerissa Bowes-Lyon, duas primas da rainha, com problemas mentais e que foram declaradas legalmente mortas, apesar de continuarem vivas. Eram a terceira e a quinta filhas de John Herbert-Bowes Lyon, irmão da rainha-mãe, em conjunto com Fenella Bowes-Lyon. Eram primas de Isabel II.

Quando uma tinha 15 anos e a outra 22, foram enviadas para o hospital Royal Earlswood, em Redhill, Surrey, na Escócia, onde viveram até ao final das suas vidas. O local estava longe de se assemelhar aos castelos em que a família real vive: o espaço teve problemas de saneamento, estava sobrelotado — chegando mesmo ao ponto de haver duas enfermeiras para tratar 40 pacientes. No mesmo hospital, foram institucionalizadas Rosemary, Etheldreda e Ideona, três primas da rainha mãe.

Como mostra a série, apesar do abandono, as duas irmãs nunca esqueceram de quem era a sua família. Tanto que, num documentário de 2011, o "The Queen's Hidden Cousins", enfermeiras relatam que sempre que a monarquia aparecia na televisão, que ambas se levantavam e faziam o gesto de reverência.

Na vida real, o escândalo vem a público através de um artigo do "Daily Express", em 1987. Na série, e sem evidência de que de facto tenha acontecido assim, o caso vem ao de cima depois de a princesa Margaret, numa crise depressiva, consultar uma terapeuta, que lhe fala acerca destas familiares. É verdade que a rainha mãe sabia da institucionalização das primas e sobrinhas. No entanto, é impossível saber se, de facto, usou a expressão "profissionalmente diagnosticadas com idiotice e imbecilidade."

O motivo que levou ao internamento e abandono das familiares nunca foi revelado, com o Palácio de Buckingham a recusar comentar o assunto que, alegou, dizia respeito à família Bowes-Lyon. Na série, é diferente: a rainha mãe culpa a abdicação de Eduardo VIII, em 1936, que fez com que se tornasse rainha. "A minha família, os Bowes-Lyon, deixaram de ser aristocratas escoceses menores para terem uma linhagem direta com a Coroa", diz. E foi isso que fez com que os filhos do irmão pagassem este "preço terrível."

Tem que ver com a pureza do sangue e a legitimidade para ocupar aquele lugar: "O princípio hereditário já está pendurado por um fio muito precário", diz a atriz. “A ideia de que uma única família tem o direito automático à Coroa já é tão difícil de justificar. É bom que o mapa genético dessa família tenha 100% de pureza."

Nerissa morreu em 1986 e Katherine apenas em 2014.

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