Somos capazes de conhecer o País de norte a sul, e até várias cidades lá fora, mas esquecemo-nos sempre de ir à descoberta do que está praticamente à porta de casa. Faço mea culpa, mas redimi-me ao pegar no carro e fazer tão-só vinte e poucos quilómetros, de Oliveira de Azeméis, a minha terra natal, até à aldeia de Trebilhadouro, no concelho de Vale de Cambra.

A pouco menos de uma hora de viagem quer do Porto quer de Aveiro, esta patusca aldeia, outrora abandonada, recebe agora a visita de turistas, quer portugueses, quer de vários países europeus, que vêm em busca de sossego, de aventura na natureza, das praias fluviais e, claro, das atrações-estrela do concelho vizinho, Arouca: a Ponte 516 e os Passadiços do Paiva.

Ficámos alojados na Casa da Matilde (60€ por noite), um T1 amoroso com a cozinha e sala de estar no piso térreo e o quarto e WC no primeiro andar, para onde se sobe através de uma escada de madeira digna de filme romântico.

Casa da Matilde
Casa da Matilde créditos: MAGG

A casa está decorada de forma simples, rústica, mas com tudo o que é preciso para passar uns dias de descanso (não stresse com os temperos, sais, azeites e afins, porque há de tudo na cozinha). Os electrodomésticos são modernos, e há até uma liquificadora para os fãs de batidos e máquina de café expresso (cápsulas incluídas) para os que não conseguem começar o dia sem aquela dose de cafeína.

Casa da Matilde
créditos: MAGG

A estrela deste turismo rural é Casa da Rosalina (a partir de 200€ por noite), onde cabem até oito pessoas e é ideal para famílias numerosas ou para aquele fim de semana de descanso (e patuscadas) com os amigos. É a única com uma pequena piscina (e uma vista brutal que, em dias de céu limpo, dá para ver a ria de Aveiro e o Atlântico), um jardim extenso e churrasqueira para as refeições ao ar livre.

Tivemos pena de não poder dar um mergulho (as temperaturas durante a nossa visita estavam particularmente altas), mas pudemos refrescar-nos a menos de cinco quilómetros, na praia fluvial de Paço de Mato. É pequena, com muito menos pessoas do que a praia fluvial de Burgães (mais perto do centro de Vale de Cambra), mas tem tudo o que é preciso para uma tarde de mergulhos, piquenique e a indispensável sesta à sombra das árvores: estacionamento, mesas, uma churrasqueira e casas de banho. Quer melhor? É difícil.

Ao final da tarde, já com o sol a por-se, ainda demos uma caminhada na barragem Engenheiro Duarte Pacheco, que fica a cerca de cinco quilómetros da aldeia de Trebilhadouro. E só não relatamos como foi o resto da noite porque, francamente, não nos lembramos. O silêncio que reina na aldeia é tão poderoso que, mal caímos na cama, adormecemos de imediato.

Como uma aldeia abandonada se tornou uma estrela do turismo sustentável

A aldeia de Trebilhadouro estava abandonada há 20 anos quando, em 2003, foi o local escolhido para a realização do Festival Internacional de Artes e Culturas e voltou a chamar a atenção para o local. O festival acabou em 2011, mas foi o ponto de partida para a requalificação de Trebilhadouro, processo levado a cabo pela autarquia de Vale de Cambra.

Isabel Fonseca e o marido, Horácio Pereira, foram os pioneiros. Compraram a Casa da Rosalina, que fica no ponto mais alto da aldeia, em 2007. "Fomos lá, gostámos imenso da aldeia e surgiu a oportunidade de a requalificar. Quando soubemos que a câmara se tinha candidato aos fundos comunitários, comprámos as outras três casinhas", explica Isabel.

Até parecer como está hoje, o caminho foi longo — literalmente —, com silvas pelo meio porque não havia estradas transitáveis. Isabel e Horácio não sabiam que, mais tarde, iriam ser os responsáveis por transformar uma aldeia abandonada num ponto de atração turística. Queriam fazê-lo "pelo prazer de recuperar uma casa antiga", uma paixão partilhada. "As vezes, saímos ao fim de semana, os nossos filhos perguntavam onde é que íamos e o meu marido dizia 'vamos ver se encontramos por aí um monte de pedras para recuperar (risos)'", recorda.

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Apesar de não estarem ligados à área do turismo, agarraram a oportunidade e o empreendimento Traços D'Outrora abre portas em 2014. "Começaram a chegar reservas imediatamente pelo Booking. Oficialmente, a aldeia arrancou para o turismo a 23 de março de 2015", relembra a coproprietária do empreendimento.

Ao contrário do que aconteceu com grande parte do setor hoteleiro, a pandemia não afetou o negócio de Isabel Fonseca e Horácio Pereira. "Este último ano vai ser o nosso melhor de sempre. As famílias e os casais, que estavam saturados de estar em casa, precisavam de fazer uma escapadinha com segurança. As nossas casas não têm espaços em comum e, por isso, fui tendo bastantes reservas. Neste momento, já atingir o volume de negócios de todo o ano passado e, pelos agendamentos que tenho até ao final do ano, vai ser o melhor de sempre", revela.

Vocacionado para o turismo de Natureza, o Traços D'Outrora beneficia da estar entre dois municípios ricos em paisagens naturais: Vale de Cambra e Arouca, onde o Geopark tem alguns das atrações mais visitadas de Portugal: a ponte 516 e os passadiços do Paiva.

"Para nós tem sido uma mais valia muito grande, porque não há oferta suficiente nas proximidades e acabamos sempre por ter as casas com reservas de pessoas que querem visitar essas atrações", conta Isabel.

A requalificação dos empreendimentos pioneiros de Trebilhadouro, Traços d'Outrora e Casa dos Avós (levada a cabo pelo arquiteto André Eduardo Tavares) já foi premiada pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU). E o empreendimento também já foi distinguido pelo programa Green Key, galardão internacional que promove o Turismo Sustentável em Portugal.

Traços D'Outrora

Lugar de Trebilhadouro
Rôge - Trebilhadouro 3730-704 Vale de Cambra

(+351) 918 795 674 e (+351) 919 304 299

reservas@tracosdoutrora.com

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*A MAGG ficou instalada a convite do Traços d'Outrora

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