Depois de muitas dietas falhadas, em que todo o peso que conseguia perder era recuperado depois, aos 46 anos, Nuno Azinheira, decidiu que queria mesmo mudar. Escolher Viver é o projeto que criou com o objetivo de se ajudar (assumindo publicamente um compromisso de luta pela perda de peso) e ajudar todos os que, como ele, querem passar a ter um estilo de vida mais saudável.

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Apesar de alguns conteúdos estarem relacionados com obesidade e diabetes (doença com a qual foi diagnosticado em 2016), este é, segundo o profissional de comunicação, que deixou de ser oficialmente jornalista em 2019, um projeto para todos os que têm interesse em ser mais saudáveis (e não apenas para obesos ou diabéticos).

"Sempre fui gordo. Comecei a engordar muito com 6 anos e na adolescência comecei a ser obeso. Faço amanhã 47 anos e, ao longo deste tempo todo, o meu caminho foi o caminho de todos os obesos. Fiz várias dietas, as chamadas dieta ioiô: 'perco agora para ganhar depois'", conta em entrevista à MAGG.

Chegou a perder dez ou mais quilos (sempre com a ajuda de nutricionistas), mas nos meses seguintes acabava por os recuperar e nunca conseguia atingir o objetivo pretendido — cumprir uma dieta constante. De acordo com Nuno Azinheira, são vários os fatores que foram contribuindo para chegar ao estado de "obesidade mórbida".

"Há, por um lado, as características hereditárias que seguramente estão presentes visto que tenho na minha família antecedentes de obesidade. Depois há também um conjunto de erros alimentares muito óbvios que, em rigor, ao longo das minhas fases de crescimento, sabia que eram erros, mas estava pouco preocupado com isso: erros esses que contribuíram de forma muito evidente para esta situação", explica, referindo que a "inconstância" e  a "intensidade e stresse" da vida profissional como jornalista não ajudaram. "Com 20 e poucos anos já era editor executivo e os cargos de direção que assumi foram por volta dos 31/32 anos. Além de que sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo."

Ainda assim, Nuno não procura justificar o excesso de peso com essas questões. Apesar de considerar que a agitação do dia contribuiu para o excesso de peso, refere que não quer atribuir a culpa apenas a isso. "Acho que também neste projeto [Escolher Viver] o objetivo é não enterrarmos a cabeça na areia. Esse lado do stresse contou, o lado dos excessos cometidos e assumidos também, mas foi tudo um conjunto de questões."

"Foi a partir dos 40 que comecei a encarar com maior preocupação e determinação a minha saúde"

Ao contrário do que muitos possam pensar, não lhe faltava a informação (mas e a vontade?). "Sou filho de médico e, por isso, tenho o conhecimento todo. Em rigor, também não se pode dizer que foi por não ter vontade. Acho que quando temos 20 ou 30 anos as questões da vida, da morte, da saúde, da velhice, são tão distantes que acabamos por achar que vamos ter tempo para pensar nisso. Diria que foi a partir dos 40 que comecei a encarar com maior preocupação e determinação a minha saúde."

Aos 40 anos percebeu, também depois de ser diagnosticado com diabetes tipo 2, que tinha de tratar da saúde, mas, ainda assim, refere que "não foi automático". "O diagnóstico de diabetes foi há cinco anos. Nessa altura, fiz uma dieta, perdi cerca de 20 quilos, mas depois fui lentamente recuperando esse peso."

Passados cerca de cinco anos desde a última grande mudança de peso, Nuno Azinheira considera que agora é diferente e explica o que mudou para o fazer acreditar que agora será um processo constante. "Estou num ponto de maturidade diferente e de consciencialização disto diferente também", assume.

À MAGG, explica que se "muniu de estratégias" como o conhecimento científico (ligado ao facto de estar a ser acompanhado por vários profissionais de saúde e do exercício físico), passou a fazer muitas caminhadas (por dia, caminha, em média, seis a sete quilómetros), passou a alimentar-se com a ajuda da My Fit Meals (que todas as semanas lhe prepara uma alimentação saudável e variada) e assumiu um compromisso publicamente.

Para Nuno Azinheira, o simples facto de o público saber que se encontra nesta 'batalha' dá-lhe motivação. "Não sou daquelas pessoas que faz as coisas e depois divulga que conseguiu. Eu sou alguém que precisa de assumir publicamente um compromisso e gosta da validação pública", diz.

Escolher Viver nasce da necessidade de assumir um compromisso público e da vontade de ajudar os outros

É através da rede social Instagram que sempre foi partilhando com os mais de 13 mil seguidores as caminhadas, a alimentação, as alegrias e também a desilusão de emagrecer e engordar. "Esse diálogo é decisivo. Preciso de me comprometer publicamente com as pessoas que gostam de mim. É como quem diz: 'sim, eu estou aqui e estou a expor-me para que não me deixem sair dos eixos'".

Todos os dias, recebe feedback dos seguidores (e gosta). "Quer em comentários públicos, quer em mensagens privadas, as pessoas vão-me dizendo: 'Nuno, estás muito bem' ou 'atenção que já estiveste mais magrinho'. Não só para elogiar, que, claro, também gosto, mas também para quando preciso de ouvir que já estive em melhor caminho."

Foi também esta necessidade de assumir um compromisso público, aliada à vontade de ajudar outras pessoas que, tal como ele, precisam de algum tipo de ajuda, que o levou a lançar o site Escolher Viver. Esta plataforma, lançada na passada segunda-feira, 20 de setembro, baseia-se, de acordo com Nuno Azinheira, em três áreas fundamentais: saúde, alimentação e exercício.

"O Escolher Viver não é um site só para obesos e diabéticos. É verdade que se foca também na perda de peso, obesidade e diabetes (maleitas de que eu sofro) mas o Escolher Viver é para todos os que se interessam por uma vida mais saudável", frisa.

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As notícias, reportagens e entrevistas são asseguradas por Nuno que conta com a ajuda de profissionais (como médicos, nutricionistas, psicólogos, personal trainers) "para dotar o Escolher Viver de conteúdos credíveis e relevantes", diz. O projeto nasceu sem qualquer tipo de parceria comercial, mas têm sido vários os que se têm, voluntariamente, juntado a Nuno — como é o caso do Hospital da Cruz Vermelha (que passará a assegurar todos os conteúdos de cardiologia) ou a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, que Nuno Azinheira descreve como "o paraíso para os diabéticos".

"A vontade é a de contribuir para a literacia em saúde. Nós na vida temos de fazer escolhas e só podemos fazer as melhores escolhas se tivermos informação para isso. Eu só sei que comer batatas fritas e hambúrgueres me faz mal, se estiver consciente das consequências."

O site foi lançado apenas há três dias, mas, de acordo com o profissional de comunicação, o feedback tem sido "inacreditável". "Sabia que ia ser bom e que ganharia tráfego, mas não esperava que fosse assim. É notório que muitas pessoas se reveem nisto, mas o que mais me tem impressionado é o feedback da classe médica e a disponibilidade que encontrei para apoiarem o projeto."

"As minha dietas sempre foram por uma questão de saúde"

Em oito meses, Nuno Azinheira já perdeu 18 quilos e 23 centímetros de barriga. Baixou dois números no tamanho das camisas e quatro nas calças, mas confessa que este é um processo que o vai acompanhar durante toda a vida.

"Uma coisa é alguém que precisa de perder cinco ou seis quilos para ficar bem no biquíni, outra coisa é alguém que tem de perder 30, 40 ou 50 quilos. Um obeso mórbido tem de perceber que a sua batalha é uma batalha para a vida. Mesmo as pessoas que fazem uma cirurgia bariátrica [cirurgia na qual o sistema digestivo é alterado com o objetivo de diminuir a quantidade de comida tolerada pelo estômago], o principal erro é achar que faz a cirurgia e a partir daí pode comer tudo o que quiser. Não pode. Tem de continuar a fazer exercício e muito mais."

No caso de Nuno a obesidade nunca fez com que se tornasse sedentário ou tivesse grandes problemas de mobilidade, mas confessa que agora com a prática exercício se sente muito melhor. Todos os dias passeia os cães, mais do que uma vez, as idas ao ginásio (onde é acompanhado pelo personal trainer Luís Gonçalo Martins) acontecem todas as segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras e às terças e quintas faz caminhadas.

A semana passou a ser planeada aos domingos e todos os dias, antes de se deitar, aponta também o que terá de fazer no dia seguinte. Além de já ter perdido quase vinte quilos, também a diabetes e a tensão passaram a estar controladas. "A diabetes tipo 2, que resulta de comportamentos alimentares, é muitas vezes revertível em casos de emagrecimento sustentável. Se continuar a perder peso e, mais à frente, decidir fazer uma cirurgia bariátrica pode ser reversível. O controlo e diminuição da obesidade pode ser fundamental para fazer desaparecer outros problemas."

Ao longo de toda a vida, principalmente na infância, foram muitos os que se referiram a Nuno como "baleia fora de água", "piranha", "badocha" ou "pote de banhas". Apesar de dizer que "não se falava de bullying", admite que as crianças conseguiam ser cruéis, tal como agora. Contudo, o facto de ter "uma estrutura psicológica forte" fez com que não se sentisse extremamente afetado com esses comentários.  "Senti-me melindrado, claro, mas isso nunca fez de mim uma pessoa amarga. Não deixei que isso me consumisse e sempre fui um gordo que se despia na praia, por exemplo."

Apesar de admitir que se sente melhor a nível visual quando emagrece, frisa que a vontade de mudar deriva muito mais das questões de saúde. "As minha dietas sempre foram por uma questão de saúde, é isso que me move. Eu estou tão habituado a ser gordo que já estou habituado a essa imagem", diz.

De acordo com Nuno, o Escolher Viver nasceu para o ajudar a ele, mas também para, através da visibilidade que foi ganhando, conseguir ajudar os outros.

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