Aso 24 anos, a vida de Ana Loureiro mudou. Casada e a trabalhar no Infarmed, não esperava que dali a uns meses, a única coisa que tinha para oferecer aos filhos seria uma mistura de água e pão. "E eu só bebia a água, para enganar a fome", conta, numa entrevista dada no programa "A tarde é sua", na TVI.

Sem uma base familiar que a apoiasse e depois de um divórcio difícil, Ana vê-se sozinha com os dois filhos: Diogo, na altura com quatro anos, e Beatriz, ainda bebé. A juntar a este cenário, o diagnóstico de um cancro no colo do útero e um despedimento.

De repente, estava sozinha, doente e sem trabalho. "Um dia cheguei a casa e não tinha luz, gás, nem eletricidade", refere na entrevista".

Não demorou muito até perceber que as contas nunca davam saldo positivo. "Se eu fosse arranjar um emprego, o ordenado mínimo seria, na altura, 475€ e eu, só de prestação da casa, pagava 500€. Podia arranjar dois empregos mas, nesse caso, com quem ficavam os meus filhos?".

Percebeu que o dinheiro rápido só poderia vir da prostituição e começou a trabalhar numa casa de alterne chamada Michelle. "Tudo o que aprendi foi lá", garante.

Apanhou de tudo em 12 anos de trabalho. Homens de todas as idades, profissões e fetiches. Esteve com um enfermeiro que tinha tara com mulheres algaliadas e com um homem que a mandava ir à rua sujar os sapatos para que depois ficasse horas a lamber-lhe as solas.

Mas não esquece a sua primeira vez enquanto prostituta. "Foi com um padre que me pediu para que me vestisse de criança", conta, em entrevista à Fátima Lopes.

Por conhecer os contornos menos positivos da profissão, não quer ver mais menores a prostituirem-se, nem mulheres a trabalhar sem condições de higiene. E, por isso, criou uma petição que pretende legalizar a profissão ou, pelo menos despenalizar o lenocídio.

É que, ainda que queira trabalhar de forma legal, não pode. Agora é dona de uma casa de alterne num País cuja lei diz que "quem, profissionalmente ou com intenção lucrativa, fomentar, favorecer ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição é punido com pena de prisão de seis meses a cinco anos".

De maneira a mudar as regras, criou uma petição que recolheu já mais de 4500 assinaturas e que, por isso, será debatida na Assembleia da República esta quinta-feira, dia 4 de junho (uma petição tem que ter mais de 4 mil assinaturas para ir ao Parlamento).

No texto, Ana pede que a prostituição tenha como idade limite de iniciação os 21 anos, e que exista uma punição para as casas que aceitem menores. Exige também que as mulheres façam exames médicos de seis em seis meses e que a prostituição seja considerada "uma profissão com descontos e regalias sociais como qualquer outro trabalho".

Atualmente, 95% das mulheres que trabalham com Ana são mães solteiras, e Ana dá-lhes o apoio financeiro, mas também aquele que não encontram em mais lado nenhum. "É como uma mãe para mim", garante uma das mulheres que trabalha na casa de luxo de Ana.

Mas Ana é transparente nas contas. Em mais do que um programa de televisão, conta que uma sessão de meia hora com uma das suas funcionárias custa 60€ e uma hora são 100€. Desse valor, 50% fica para a casa.

Ao "Público", fala dos gastos: a renda da casa são 2150 euros, um anúncio num jornal são 1200€ por mês e um banner na internet 3600€.

No texto, pede para que haja a possibilidade de ter contratos de trabalho com respectivos descontos, "sendo que poderia ter uma categoria profissional estipulada de entretenimento adulto, sendo aberta actividade nas Finanças e passado recibos verdes ao dia".

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Antes de chegar ao plenário, onde será debatida e votada pelos deputados, a petição tem, contudo, de passar pelas comissões, explica a revista "Sábado" que, citando a deputada socialista Elza Pais, refere que a comissão "pode ainda entender fazer outras audições por se tratar de uma matéria sensível".

Na véspera da ida ao Parlamento, Ana falou com o "Jornal i". Mostra-se nervosa por saber que vai ser protagonista de “um dia histórico”, já que tem hoje a possibilidade de, em representação de “milhares de pessoas”, ser ouvida.

Tal como diz no texto a ser debatido, a profissão que escolheu, ainda que seja a mais antiga, é a mais mal vista. "Esquecem-se que também somos seres humanos, temos sentimentos [...] O nosso trabalho impede-nos de termos uma vida social, só mesmo no nosso meio o que conseguimos ter, vivemos constantemente uma vida que não nos pertence, somos actrizes a maior parte do nosso dia-a-dia, somos mães e não perdemos o nosso carácter nem a nossa honra".

Os filhos de Ana sabem o que faz e é por isso que dá a cara sem medo. Em entrevista à "TVI", na qual foi acompanhada do filho, agora com 17 anos, conta que preferiu ser ela a contar toda a história a que viessem a saber mais tarde. "Expliquei-lhes que há pessoas que têm um namorado, mas que a mãe tinha uns namoradinhos e que eles lhes davam dinheiro". Com o tempo, pôde explicar melhor e não tem medo que cresçam com os valores trocados. "Eles sabem quem o faz não é por amor, é por necessidade."

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