Existem dois tipos de pessoas: as que quando vão jantar fora com amigos ou colegas de trabalho querem pagar exclusivamente aquilo que consumiram e os que defendem que a conta deve ser dividida por todos. Quem está certo? Foi o que tentámos perceber junto de quem está habituado a mesas fartas para partilhar bons momentos (até chegar o da conta), a poupar ou a gerir restaurantes.

O momento mais tenso num jantar de amigos, aqueles com q.b. de proximidade, é aquele em que sabemos o que nos espera após o rabisco no ar para indicar ao funcionário do restaurante que queremos a conta. Mas não é tenso apenas para nós. Quando o funcionário volta à mesa já com a fatura, quase reza para que o processo lhe seja facilitado — algo que nem sempre acontece.

"Já tivemos grupos de 50 pessoas a vir um a um à caixa. Imagine o tempo que isso leva. O que pedimos sempre é que o titular da reserva faça as contas. Até por isto: imagine 50 pessoas. Uma vai dizer 'eu comi este prato e mais isto' e chegamos ao fim e há uma série de artigos que não são pagos porque ninguém se acusa", refere à MAGG José Gouveia, diretor de operações do grupo Fullest, que detém restaurantes como o CRU, em Lisboa, o Mundo, no Porto, e o MöTAO, no Algarve.

Depois há outra questão controversa: o couvert. "É dividido por todos, não é cobrado um couvert por pessoa. Portanto, essa divisão tem de ser feita e se toda a gente disser que não comeu pão ou manteiga, temos de facto um problema", sublinha o também presidente da Associação de Discotecas Nacional.

José Gouveia, cujos restaurantes de que é responsável recebem vários grupos, reconhece que dentro de um mesmo grupo há pessoas mais à vontade, como "o que manda vir o melhor vinho e o prato mais caro" e outras mais contidas. "Realmente é injusto para quem está a racionar um bocadinho mais e que tem o cuidado de beber só água ou de não comer entrada", refere.

Eis que estão reunidas as questões: dividir toda a conta e deixar as bebidas de fora? Pagar mesmo assim o vinho de outrem porque ao aceitar ir jantar é assumir que a conta vai ser dividida por todos? Cada um paga o seu, mas só uma pessoa paga a conta para facilitar? —algumas delas levantadas por Carlos Coutinho Vilhena.

Fomos à descoberta de regras de etiqueta que acabem com o momento mais tenso dos jantares: o da conta.

A favor da divisão

Está neste grupo? Bem vindo à perspetiva em que a vida é facilitada a todos: aos empregados dos restaurantes, aos participantes do jantar e, entre estes, aos que preferem as letras à matemática e não se entendem com o esquema do cada um paga o seu.

Neste campo está Vasco Ribeiro, especialista em etiqueta e autor do livro "Etiqueta Moderna".

Vasco Ribeiro
Vasco Ribeiro créditos: divulgação

"É de bom tom dividir a conta pelos amigos convidados", diz à MAGG. Esta é a regra geral, e se está previamente estabelecido que a conta é para dividir, então depois do bom tom, diz o bom senso que "nestas ocasiões, devemos ter o bom senso de escolher uma bebida/comida de valor médio, tanto quando somos convidados e não pagamos, tanto quando a conta é por todos divida", defende.

No entanto, se não se quer prescindir do prazer por causa da conta final, então a solução é suportar os custos. "Nas situações em que algum dos amigos convidados peça iguarias/bebidas sobejamente mais caras, deve essa pessoa custear esses valores extra", refere Vasco Ribeiro.

Também da opinião de que se deve dividir a conta por todos é Leila Gato, profissional de comunicação corporativa, fã das torradas com manteiga que não divide com ninguém, guardando a partilha para quando marca presença em jantares de amigos.

"Não dividirmos a conta vai dar azo a 'o que é que consome o quê', 'o que é que gasta o que'. Não. Toda a gente come, toda a gente bebe e no final entrega-se a conta a Deus e paga-se o que se tiver que pagar", brinca. Leila usa este método mesmo em jantares que incluem pessoas que não bebem álcool ou crianças.

"Eu agora tenho uma filha e ela come bastante e realmente é mais um gasto. Portanto, da minha parte, nem olho. É ver quantas pessoas são e dividir pelo número de pessoas. Nunca senti do outro lado, pelo menos das pessoas com quem saio normalmente, família, amigos, que têm uma visão diferente da minha", explica.

Contra a divisão

Dividir? Nem pensar. Se se sentarem na mesma mesa que Janine Medeira, autora do blogue "Poupadinhos e Com Vales", é bom que tenham uma calculadora perto para fazer as contas no final porque cada um paga aquilo que consumiu — não fosse já conhecida como a poupadinha.

"Entre os meus grupos fazemos mesmo a conta do que cada um consumiu. Temos uma pessoa, com muita facilidade em matemática, que tem essa função no grupo e assim que as contas chegam, ele agarra no talão e vê 'esta comeu isto, aquilo', 'Janine tu pagas x', 'tu pagas y'", conta.

Mas será que compensa assim tanto relativamente à divisão da conta por igual? "Acho que, sem dúvida, o cada um pagar o seu vai sair mais vantajoso para quem consome menos. Para quem consome mais, é a dividir por todos. Uma pessoa que bebeu álcool a noite e toda e no final os pobrezinhos que só beberam uma Coca-Cola pagam por isso, é incrível para essa pessoa, que está a poupar", refere.

No entanto, Janine Medeira reconhece que hoje em dia há um maior bom senso e, por exemplo, a quem não bebe álcool é retirado esse valor da conta, mesmo que o resto se divida por todos.

Janine reconhece que a etiqueta mais praticada é a de dividir a conta por todos, mas na sua opinião a que se deve aplicar é efetivamente a de cada um pagar o seu, de modo a não prejudicar quem pode ter maiores dificuldade económicas. Nestes casos, considera que o grupo deve alinhar-se também na escolha do restaurante e não apenas no sistema de pagamento.

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"Já me aconteceu 'então vamos a tal sítio?' e dizerem 'esse sítio para mim não dá, é um bocado puxado. Vamos antes a uma pizzaria ou uma coisa de hambúrgueres'. Então acho que hoje em dia há essa liberdade com os amigos para definir um sítio com antecedência. Acho que não vai prejudicar amizades ou vínculos", refere.

Leila Gato, a favor da divisão, e que simplesmente nunca pensou muito sobre o assunto de cada um pagar o seu, admite nem saber o que pode sair mais económico. "Nunca fiz as contas. Porque o meu racional é muito na lógica de: se vou jantar ou almoçar fora com estas pessoas, é porque quero muito estar com elas. Nunca penso muito nesse tema, sou sincera. Obviamente que se já sabemos o valor à cabeça, temos uma noção do valor e às vezes até podemos olhar para o menu e perceber que não faz sentido e mais vale pagar à carta", diz.

Poderão dizer os que, como Leila, são contra cada um pagar o que consumiu que depois há quem ande a pedinchar um bocadinho de vinho aqui, uma fatia do pão de alho da entrada ali ou uma colher da sobremesa, sem querer pagar nada disso, mas eis um exemplo vivo de como, também nestes casos, a etiqueta é importante.

"Às vezes gosto de beber uma sangriazinha, que seja boa. Consumi e ai é claro que pago sem problema nenhum. Até posso beber só um copo e terem bebido não sei quantos litros. Eu não me importo, porque eu bebi aquele copo, vou dividir e está tudo certo. Agora a partir do momento em que consumo um refrigerante e a maioria das pessoas não...", afirma.

Duelo final: cada um paga o seu Vs. dividir por igual

Leila Gato é assumidamente a favor de se dividir a conta por todos, mas nada disto tem que ver com uma questão de regras de etiqueta que lhe foram passadas durante a educação (a não ser a da gorjeta). "Havia uma regra que era dar gorjeta, ou seja, 10% do valor gasto", refere, assumindo que "é uma regra que vem do passado" e que ainda usa.

O mesmo não aconteceu a Janine Medeira, autora do blogue "Poupadinhos e Com Vales", cujos pais lhe passaram outros ensinamentos quanto aos jantares de amigos.

"Pela minha experiência, e já faço jantares de grupo há mais de 30 anos, consigo perceber que tem muito que ver com a mudança dos tempos e gerações. Na minha adolescência era completamente diferente, dividíamos mesmo por todos e pronto. Os meus pais passaram-me isso: 'Se vais, tens de dividir por todos. Se não queres dividir por todos, então não vás' ou 'então consome o mesmo que eles estão a consumir para não poderes reclamar'. Acho que depois a geração mais à frente já entende que 'não sou obrigada a consumir o que não quero só para no final pagar igual e não reclamar ou o que for", refere.

Atualmente, a etiqueta não é tanto o que define o que fazer num jantar, é antes a forma como o custo de vida cada vez mais inflacionado afeta a disponibilidade monetária.

"Financeiramente estamos a ultrapassar um período complicado e os ordenados não subiram proporcionalmente à inflação. Portanto, é normal que esse tema surja porque as pessoas podem ajustar aqui os seus hábitos", diz Leila Gato, que apesar de tudo não olha a custos quando é para conviver.

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"Não penso muito na parte financeira, porque também não saio todos os dias, ou seja, quando saio já sei que tenho de estar na disponibilidade de gastar um bocadinho mais. Então prefiro dividir. E porque acho que depois é menos constrangedor no final em vez de estar ali a fazer contas, é por aí. Não sei se vou poupar assim tanto para estar com esse sistema [cada um pagar o seu]", continua.

Contudo, a mestre em poupança, Janine, refere que "em termos económicos, há muita coisa que as pessoas podem fazer sem ser constrangedor para estar com os amigos na mesma", como juntar-se no fim do jantar para tomar café.

Quando se tratar de um jantar de aniversário, o especialista em etiqueta defende que o aniversariante deve no convite informar o sistema, se cada um paga o seu ou o que tem intenção de pagar, e levanta outra questão: "É aceitável que os amigos convidados paguem o jantar do aniversariante", refere.

Quanto aos mais tradicionais, que ainda têm a ideia pré-concebida de que quem convida tem de pagar na totalidade, Vasco Ribeiro deixa uma recomendação. "Quando não temos posses para custear na totalidade o jantar, devemos dizer que embora tivéssemos todo o gosto em oferecer, apenas conseguimos assegurar as bebidas", por exemplo.

Em suma, o bom senso é a regra que se impõe sobre os jantares em grupo.

"Tem de haver o bom senso de quem organiza o jantar. Se a pessoa pede uma garrafa de vinho mais cara, tem de ter noção que não pode entrar na conta. Porque não vai estar a ser paga por uma pessoa que está a beber água", remata José Gouveia.

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