Uma história de violência e vingança. Basta apenas uma frase para descrever "The Last of Us 2", aquele que será um dos jogos mais esperados da PlayStation 4 depois do fenómeno de vendas do primeiro capítulo lançado em 2013 para a PlayStation 3 e atualizado, um ano mais tarde, para que pudesse ser jogado na atual geração da consola. E ainda que a história se passe num universo alternativo, em que os EUA foram dizimados por uma pandemia que transformou grande parte da população em mortos-vivos, são os vivos que assustam e que cometem as piores atrocidades para sobreviver.

E se no primeiro jogo a história se focava na aventura de Joel e Ellie, que partiram pelo desconhecido em busca de uma possível vacina contra o vírus, no segundo capítulo a história passa-se cinco anos mais tarde. Ellie, que no primeiro jogo era uma adolescente, cresceu e tem agora 19 anos.

A sua personalidade extrovertida desapareceu, bem como os seus comentários irónicos sobre um mundo em declínio que serviam, também, como alívio cómico de um ambiente denso e perturbador. Neste segundo jogo, há um acontecimento trágico que muda a vida de Ellie e que a obriga a partir uma vez mais sem rumo e, desta vez, em busca de vingança.

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Aquando do lançamento dos primeiros trailers da nova aposta da Sony, saltavam pelo menos duas diferenças à vista: o ambiente do jogo parecia ser mais denso e a violência tinha sido redobrada para estar mais presente e de variadíssimas formas — muitas vezes questionáveis.

As críticas feitas pela imprensa especializada reforçam isso mesmo. A sequela parece, então, ser "mais uma história sobre a natureza humana", recomeçando com o "paternalismo e a capacidade de amar incondicionalmente, mas virando a moeda do avesso para esmiuçar também o nosso potencial para odiar, justificar ações sem a justa ponderação e realçando que são os sentimentos, mais do que a razão, que nos move", escreve a "IGN Portugal" na sua análise ao "The Last of Us 2".

Embora não seja possível falar de forma mais específica sobre os detalhes que compõem a história deste jogo — por questões de embargo que só é levantado a 19 de junho, altura do lançamento —, a ação obriga a que o jogador controle Ellie que se vê a braços com três grupos de inimigos que se vão atravessando no seu caminho: os zombies, um grupo paramilitar com traços de uma ideologia xenófoba que os move e uma seita religiosa.

Mas afinal, é adequado para crianças?

Neste universo, os conflitos são resolvidos à machadada e à lei da bala e os responsáveis pelo jogo quiseram que cada morte tivesse impacto não só nas personagens, mas também no jogador. Para isso, sempre que este tira a vida a alguém em "The Last of Us 2", as personagens gritam o nome do companheiro. Porque, agora, estes inimigos têm nome e identidade. E isso, esperam os argumentistas da narrativa, talvez seja o suficiente para que o jogador questione as suas ações — mesmo que num meio virtual.

Por ser um dos jogos mais  violentos desta geração da PlayStation, na medida em que alia uma violência explícita a uma história que lhe procura dar um contexto, isso fez com que o jogo seja posto à venda com a classificação PEG-18. Ou seja, significa que só é considerado para adultos com mais de 18 anos e que, por isso, não está direcionado para jovens ou crianças.

No entanto, e devido à popularidade do jogo, principalmente entre os mais jovens, é possível que os miúdos aí de casa já lho tenham pedido como presente. E ainda que a indicação na capa do jogo seja clara que este não está indicado para crianças, pode sentir-se tentado a oferecer.

Na capa do jogo, a indicação PEG-18 mostra, de forma clara e explícita, que este não é indicado para crianças ou jovens. Mas sim para adultos

Joana Maltez, entusiasta de videojogos e mãe de um filho de 11 meses, diz à MAGG que há uns anos, talvez pela sua experiência enquanto jogadora e com outra mentalidade, provavelmente teria sido mais permissiva no que toca à disponibilização deste tipo de jogos a crianças.

Agora que foi mãe e que sabe exatamente de que forma é que a história de "The Last of Us 2" se vai desenrolar, não tem dúvidas: "Se um filho meu mo pedisse, fazer-me-ia muita confusão dar-lho. Até aos dez anos seria impensável. A partir dos 12 anos teria de ser numa ótica de analisar criança a criança, porque podia ter um filho mais infantil nessa idade, e não haveria nada de errado nisso, ou um filho com mais maturidade capaz de entender o que iria ver", explica.

No entanto, reconhece que, muitas vezes, estes pedidos dos filhos para que os pais lhes comprem estes tipos de jogos acaba também por ser potenciado pela pressão dos colegas, numa altura em que os jovens têm, desde muito cedo, acesso a todo o tipo de conteúdos impróprios para as suas faixas etárias. "Vai haver sempre peer pressure até dos colegas da escola para que incentivem os miúdos a pedir o jogo aos pais. A título pessoal, e até aos 15 anos, provavelmente não daria um jogo destes ao meu filho e tentaria explicar da melhor forma possível a razão."

E continua: "Talvez há uns anos fosse mais permissiva, mas com o passar dos anos vamos crescendo e vamos tendo consciência do mundo em que vivemos. E a verdade é que o mundo, por si só, já está demasiado violento. Até que ponto é que um jogo destes foi pensado como entretenimento para crianças e jovens com menos de 18 anos?" E de facto, este "The Last of Us 2" não foi nem pretende ser jogado por miúdos pequenos.

Segundo João Reis, psiquiatra do Hospital dos Lusíadas, não é fácil concluir de que forma é que uma criança poderia ser impactada por um jogo como o "The Last of Us 2" e remete a conversa para as classificações etárias atribuídas a cada jogo aquando do seu lançamento. Estas indicações, explica, "têm como base opiniões de especialistas, o bom senso e a proteção legal das produtoras, depositando nos pais e consumidores a responsabilidade da eventual exposição a cada produto."

Para o especialista, e com base nos trailers que viu, a classificação PEG-18 que foi atribuída a "The Last of Us 2" deveria, por uma questão de bom senso, ser respeitada. Uma vez que o jogo não foi feito, comercializado e comunicado para crianças, tal como é explícito na comunicação da marca em Portugal e no mundo.

É por isso que, continua, o "racional de proteger os jovens relativamente à exposição a conteúdos violentos tem como suporte, além de uma intuição pedagógica dos pais, a evidência de que a exposição a uma violência real durante a infância, como por exemplo, em que pessoas que sofreram maus tratos, vai gerar, mais tarde, adultos violentos."

Ainda assim, alerta de que apesar das centenas de investigações feitas nesta área, ainda não há certezas que a exposição a este tipo de conteúdo de entretenimento gere comportamentos violentos — uma vez que os resultados têm sido contraditórios.

"Estudos de imagiologia funcional, que nos permitem avaliar as zonas do cérebro que estão ativadas durante uma determinada atividade, mostram que quando exercemos violência real, ativamos zonas cerebrais diferentes do que quando exercemos violência nos videojogos. Portanto, uma pessoa madura e sem perturbação psíquica, consegue distinguir os dois tipos de violência", refere.

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E continua: "Há no entanto, estudos que mostram que quem utiliza frequentemente videojogos violentos poderá desenvolver uma tolerância à violência fora dos videojogos, como que diminuindo a empatia nessas situações, sem que isso queira dizer que depois seja mais violento."

Especificamente sobre "The Last of Us 2", João Reis reforça que "se espera que este jogo não seja jogado por crianças fora das recomendações" ainda que considere que os videojogos são "muito populares entre os mais jovens e considerados por eles próprios como inócuos".

"Os jovens estão sujeitos a pressão dos pares e pressões comerciais para a o consumo desde a idade mais precoce possível. A realidade é que as crianças e jovens nas sociedades modernas têm contacto ainda quando muito imaturas a conteúdos explícitos como apostas a dinheiro, pornografia e violência havendo apenas os pais e educadores a fazer frente a uma facilidade de acesso muito grande e quase imediata", explica.

O especialista recomenda é que os pais sigam as indicações etárias de cada produto e que, no caso deste videjogo em específico, é indicado explicitamente que é direcionado para adultos.

E adianta que o estilo parental que lhe parece mais benéfico, e que é transversal ao uso da tecnologia, é que não seja excessivamente rigoroso nem demasiado brando. "O jovem deve sentir-se entendido nos seus problemas e motivações e as regras devem ser transmitidas de forma firme, clara e coerente", conclui.

"The Last of Us 2" é lançado a 19 de junho para a PlayStation 4 e já está à venda, em regime de pré-reserva, nas grandes superfícies comerciais.

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