Que não restem dúvidas: o racismo existe. Isto é tão factual como eu me chamar Marta, o planeta ter quase oito mil milhões de pessoas e a temperatura estar a subir na sequência das alterações climáticas. Não há dúvidas sobre este assunto, e basta abrir um jornal para o perceber. Caramba, basta sair à rua. O racismo e a discriminação existem, são terríveis e exigem que lutemos todos os dias para as combater.

Isto são tudo factos. No entanto, isso não invalida que hoje se atire para cima da mesa a carta do racismo como tanta leviandade como se mete a mão na buzina à mínima infração do vizinho do lado. De repente, são apitos por todos os cantos, que abafam as vozes daqueles que de facto são vítimas de racismo, xenofobia ou discriminação de qualquer forma.

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Isabel dos Santos é alvo de uma investigação histórica e defende-se dizendo que está a ser vítima de racismo e preconceito da SIC e do jornal "Expresso", argumentando que esta situação a faz "recordar a era das 'colónias'", quando "nenhum africano podia valer o mesmo do que um 'europeu'." Na mesma altura em que rebenta o escândalo, temos uma mulher que é agredida por um agente da PSP e levanta a mesma bandeira do racismo.

Recuemos uns dias. Luís Giovani, um estudante cabo-verdiano, foi agredido por cinco homens em Bragança e acabou por morrer. Toda a gente falou em racismo, apesar de o próprio diretor nacional da PJ ter dito que não se tratou de um crime racial, mas sim de "motivos fúteis que provocaram uma desavença". Num caso bem menos mediático, uma mãe alegadamente agrediu uma professora e o marido salta em sua defesa garantido que não houve violência nenhuma e que se trata tudo de racismo.

Calma, há mais. Saindo de Portugal, na própria família real fala-se de racismo contra Meghan Markle, motivo pelo qual a ex-duquesa de Sussex terá decidido mudar-se para o Canadá. E não esquecer que, em 2018, na final do US Open, Serena Williams acusou um árbitro português de racismo e sexismo após um desentendimento.

Não faço ideia de quem é que tem razão em todas estas histórias. Mas parece-me que começámos a banalizar o racismo como se pudesse justificar-se tudo desta forma. E isso é mais do que apenas errado, é preocupante: quando passamos a recorrer à palavra levianamente, é quando deixamos de ouvi-la. Tal como a história do Pedro e do lobo.

O Pedro era um miúdo com uma imaginação muito fértil, que se aborrecia de ficar sozinho a tomar conta do rebanho. Um dia achou que seria engraçado chamar a atenção da aldeia, por isso gritou a plenos pulmões que estava um lobo a atacá-la. Fez isto duas vezes. À terceira, quando chegou mesmo o lobo, ninguém o foi ajudar. E lá se foram as ovelhas — na versão mais soft; na mais hardcore e não adequada para crianças, foi-se o Pedro também.

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Tornou-se tão fácil gritar "lobo". Vemos isso quando alguém comete um ato ilícito ou criminoso, mas também quando não atinge os objetivos pretendidos. E banalizou-se tanto o racismo como o sexismo, duas bandeiras que hoje levantamos gratuitamente como se elas pudessem resolver todos os problemas. Se não consegui o emprego e contrataram um homem, é sexismo. Se não consegui o emprego e contrataram um chinês, é racismo.

E de repente somos todos racistas e sexistas. Enraizada esta ideia, corremos sérios riscos de começar a temer tomar decisões imparciais, sempre com receio de levar com uma dessas bandeiras na testa. Se eu não o contratar, vou ser acusado de racismo. Se eu marcar fora de jogo, vou ser acusado de racismo. Se eu disser que fui vítima de um crime, vou ser acusado de racismo.

Já chega. Por todos nós que queremos uma sociedade mais justa, parem. Ao gritarem "lobo" gratuitamente, estão a desvalorizar a luta de quem todos os dias quer construir um mundo melhor. E, mais grave ainda, deixam de ser melhores do que o racista, o preconceituoso ou o misógino.

Sejamos justos. Antes de qualquer coisa, somos seres humanos. E quanto menos nos preocuparmos em olhar para as diferenças, menos elas vão ser visíveis a olho nu.

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Esta semana, a jornalista Ana Luísa Bernardino foi tentar perceber se existe de facto racismo na polícia. A questão, porém, é bastante mais complexa do que à partida poderíamos imaginar. "Se fosse esse o problema [existir racismo na polícia], nem estávamos a ter esta conversa. Dessa forma, seria necessária apenas uma solução cirúrgica, para retirar esses elementos das suas funções.” Infelizmente não é assim tão simples. A ler.

Vale a pena ler também a entrevista da jornalista Marta Cerqueira a Cláudia Raia, a bailarina, cantora, atriz e agora também porta-voz das mulheres de 50 anos que não querem ficar arrumadas na gaveta. Uma conversa bem-disposta e cheia de mensagens importantes que valem a pena reter.

Meghan e Harry decidiram cortar laços com a família real. Este é um caso mediático, mas a verdade é que há outras histórias de pessoas que decidem afastar-se da família. Contamos-lhe o caso de Cândida e de Alexandra neste artigo. E vale a pena também espreitar dois movimentos que se tornaram virais na internet esta semana: o "afia o lápis", com o objetivo de incentivar os casais a terem mais sexo, e o desafio Dolly Parton, para mostrar como são diferentes as fotos no Tinder, Facebook, Linkedin e Instagram.

No universo dos filmes e séries, estamos cheios de boas sugestões para lhe dar: "Don´t F**k with Cats", macabro mas importante de ver, "Ana com A", a "Casa na Pradaria" feminista que conquistou o nosso coração, e "1917", o filme claustrofóbico" e "desolador" que chega esta semana aos cinemas. Tudo boas sugestões para um fim de semana que se avizinha frio e chuvoso.

Até para a semana.

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