Faltam-me estudos para compreender tudo o que se passa no Afeganistão — mas podem perceber tudo aqui —, não tenho capacidade para entender todas as vertentes de geopolítica ou como é que um dia andávamos a discutir os chalupas dos movimentos antivacinas e no outro acordamos para uma realidade absurda nos nossos telejornais, com pessoas tão desesperadas por abandonar um país que se enfiam seis centenas num avião de carga ou enfrentam a própria morte ao achar que se podem agarrar do lado de fora da aeronave.

Faltam-me estudos para muita coisa, mas não para perceber que com a tomada do Afeganistão pelos talibãs em 20 anos, estamos prestes a lidar com uma violação atroz dos direitos humanos. E as mulheres, as meninas, estão sempre do lado mais frágil da corda. Hoje o mundo acordou para uma lista das proibições relativas às mulheres aplicadas no último regime talibã, algo a ser amplamente partilhado nas plataformas digitais, desde anónimos a figuras públicas como Nuno Markl, que divulgou dados da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão e da ABC International.

Com o regresso dos talibã, as mulheres afegãs temem perder a liberdade. O que aconteceu e o que vem aí?
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Apesar de esta lista de proibições ser referente ao período de governo do regime talibã do Afeganistão entre 1996 e 2001, ano em que o país foi invadido pelos Estados Unidos, muitas mulheres temem o regresso ao conservadorismo. Há rumores de que o novo governo vai permitir que as meninas continuem os estudos para além dos 8 anos ou que as mulheres vão poder trabalhar e ser ativas na sociedade — desde que "dentro da lei islâmica".

E o que é isso significa exatamente? Pois. E o medo continua.

E se alguma vez precisámos de um murro no estômago do tamanho de um oceano para perceber o privilégio e a pura sorte de nascermos num país como Portugal, esta lista não deixa margem para dúvidas.

Ora, vejamos:

  • Proibição do trabalho feminino fora de casa, à exceção de poucas médicas e enfermeiras;
  • Proibição de qualquer tipo de atividade fora de casa, a não ser que acompanhadas pelo pai, irmão ou marido;
  • Proibição de fazer negócio com comerciantes homens;
  • Proibição de estudar;
  • Obrigação de usar burqa;
  • Espancamentos contra mulheres que não se vistam de acordo com as regras Talibã ou que andem sem ser acompanhadas pelo pai, irmão ou marido;
  • Proibição de andar de bicicleta;
  • Proibição de ir a festas;
  • Açoites públicos se mostrarem os tornozelos, proibição de usarem maquilhagem;
  • Apedrejamento público se mantiverem relações fora do casamento;
  • Proibição de se tirar fotos ou filmarem mulheres;
  • Proibição de rir alto.

Existem mais, muitas mais. Todas tão difíceis de compreender para mulheres como eu, que tecla estas palavras no computador porque tem um trabalho, conduz um carro, sai à noite, beijei a minha quantidade de namorados em público e tenho duas filhas que riem muito. Alto, para toda a gente ouvir.

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Esta terça-feira, 17, enquanto lia estas proibições, a minha mãe mandava-me fotos da minha filha mais velha com as unhas pintadas de amarelo, algo que esta me contou minutos depois ao telefone, numa felicidade que só ela. Sob o regime talibã, a minha filha provavelmente ficaria sem os dedos das mãos, dado que já foram amputados dedos das mãos e dos pés pelas mulheres os usarem pintados.

Estamos todos perplexos, sem saber o que fazer para ajudar, o que dizer, a quem nos indignarmos. Mas há muito ao nosso alcance, desde gestos maiores aos mais pequenos, desde abrir a porta de nossas casas aos refugiados a simplesmente não parar de falar no assunto. Porque há quem não possa, quem tenha a voz silenciada ou arrisque a vida por se fazer ouvir.

Nem que seja por rir.

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