A ofensiva talibã para a tomada do Afeganistão começou em maio, coincidindo com o início da retirada dos Estados Unidos e dos seus aliados do país depois de mais de 20 anos de ocupação como resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001. Nos primeiros três meses após o início da ofensiva, as forças talibã passaram a deter 223 cidades controladas (em vez das 73 iniciais), com a maioria a ceder o poder sem oferecer resistência.

O avanço surpreendeu os EUA, que chegaram a prever a tomada total do país em cerca de três meses, mas Bruno Neto, o português que, até há duas semanas, coordenou uma organização não-governamental italiana que visa prestar cuidados de saúde em Kandahar, uma das províncias tomadas pelas forças talibã em maio, fala numa ofensiva previsível. "Não foi repentino. Nós sabíamos que isto ia acontecer desta forma e que a tomada total do país iria acontecer durante o mês de agosto. Quando os serviços de informação dos EUA e as comunidades internacionais fazem as mesmas previsões [de uma tomada total em três meses], ou estavam a dormir, ou estavam a dormir. Não estavam naquela realidade, porque quem, de facto, estava, via as coisas a acontecer", explica à MAGG.

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Afinal, conta, antes de regressar para Portugal, já Bruno Neto e a sua equipa, composta por cerca de 400 pessoas, trabalhavam diretamente com o regime talibã nas zonas em que estes já controlavam. "A partir do momento em que havia uma passagem de controlo do governo afegão para o regime, tínhamos de trabalhar com eles para garantir que os nossos trabalhadores e trabalhadoras podiam fazer os seus trabalhos em segurança", refere.

"As pessoas tendem a generalizar e a idealizar os talibã como aqueles senhores das montanhas, mas eles são mais do que isso. Não nos podemos esquecer que houve 20 anos de um crescimento do movimento e há de tudo. Quando tínhamos de falar sobre questões de saúde, falávamos com um representante que era formado em saúde. Quando o assunto tinha que ver com questões económicas para os projetos que tínhamos em mãos, falávamos com pessoas formadas em economia e gestão", diz Bruno Neto, referindo-se a uma forma de trabalhar que envolvia "dois governos".

À medida que foi vendo "as áreas" do país a mudar de poder, a equipa do português sabia exatamente que Cabul, a capital do Afeganistão, "também seria tomada de forma relativamente rápida, especialmente porque ambas as partes não quiseram derramar sangue".

Mas afinal, o que aconteceu? O que explica a "eficiência", termo que Bruno Neto prefere a "repentino", da ofensiva talibã face à resistência afegã? E o que quer um governo destes? Que repercussões podem vir daí? As mulheres vão deixar de estar seguras?

Preparámos um explicador que tenta responder a algumas destas questões.

O que nos trouxe até aqui e quem são os talibã?

A origem pode ser traçada até 1994, com um movimento composto, essencialmente, por mujahidin, guerrilheiros da resistência afegã que tinham como objetivo impor no país a sua interpretação ultraconservadora do Islão, renegando qualquer influência externa. Com a captura de Cabul em 1996, depois de um conflito de quatro anos em que o regime talibã, apoiado pela al-Qaeda, Arábia Saudita, Paquistão e Emirados Árabes Unidos, derrubou o então Estado Islâmico do Afeganistão que contava com o apoio de países como Irão, Rússia, Turquia, Índia e EUA, formando o Emirado Islâmico do Afeganistão (EIA).

Com o regresso dos talibãs, as mulheres afegãs temem perder a liberdade. O que vem aí?
Os talibãs depois de tomarem o Palácio da Presidência em Cabul, a capital do Afeganistão

Com o controlo total da região assegurado, o regime talibã pôs em prática uma série de regras que restringiam liberdades e direitos fundamentais. As mulheres, por exemplo, passaram a estar proibidas de estudar ou trabalhar, de sair à rua sozinhas, de aparecerem em rádios ou televisões, ou de praticar desporto. Diariamente, passaram a estar obrigadas a vestir-se com o chador, vestes que as cobrissem da cabeça aos pés.

A recusa em fazê-lo, resultaria em agressões físicas e verbais.

Após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, planeados e postos em marcha por Osama Bin Laden, na altura líder da al-Qaeda que operava dentro do Afeganistão, os EUA invadiram o país com dois objetivos: impedir o regime talibã de dar apoio à al-Qaeda e impedir que o Afeganistão servisse como base de operações da organização terrorista.

Com a saída dos EUA do Afeganistão e com o regresso dos talibã, o que vem aí?

O que se sabe agora é que, pouco tempo depois de Joe Biden assumir a presidência dos EUA, dirigentes do departamento do Estado e da Defesa deram início a uma campanha de lobbying com o objetivo de, pelo menos, manter uma pequena força de anti-terrorismo no Afeganistão, tal como escreve o jornal "The New York Times".

Em causa, terão dito os oficiais a Biden, estava o facto de o movimento talibã ter crescido exponencialmente em número de apoiantes durante os quatro anos de presidência de Donald Trump, com os serviços de informação a prever que, nos próximos dois ou três anos, a al-Qaeda voltaria a ter uma base de operações no país.

Apesar disso, Joe Biden, que herdou um acordou firmado entre os talibã e Donald Trump, ordenou a retirada das tropas americanas. No discurso que fez ao EUA e ao mundo esta segunda-feira, 16 de agosto, reiterou que era o quarto presidente (depois de Bush, Obama e Trump) a lidar com o conflito no Afeganistão e que não iria passar o problema para um quinto presidente.

O único requisito, fez saber Joe Biden, é apenas este: que o regime talibã impeça o país de se tornar no berço do terrorismo internacional e que, no processo de tomada de poder no Afeganistão, não haja qualquer ataque aos EUA e seus oficiais.

Qual foi o acordo entre os talibã e Donald Trump?

Aconteceu em 2020. Depois de três anos de negociações, a administração Trump e o grupo insurgente assinaram um acordo de paz que tinha como cláusula, do lado dos EUA, a retirada das suas tropas do Afeganistão e a libertação de cerca de 5 mil prisioneiros talibã.

Do lado dos talibã, ficou a garantia de que tomariam medidas para prevenir que grupos como a al-Qaeda usassem o Afeganistão como palco para fazer semear a insurreição contra os EUA e os seus aliados.

Isso, no entanto, implicou um aumento exponencial da violência no Afeganistão com os relatórios a confirmar que os talibã não tinham qualquer interesse nos processos de paz e que fariam uso do seu crescimento para ganhar vantagem nas negociações, escreve a CNN.

Como é que os talibã suplantaram as forças afegãs?

Em poucos dias, as forças afegãs, a quem os EUA cederam mais de 83 mil milhões de dólares (cerca de 70 mil milhões de euros) em equipamento, armas e treino ao longo de duas décadas, cederam as cidades aos talibã.

O plano dos EUA de criar, no Afeganistão, uma força robusta e capaz de resistir, falhou. E a soma de derrotas imputadas às forças afegãs começou a ser registada ainda antes da tomada de posse de Joe Biden, quando vários soldados, esfomeados, sem munições e cercados por talibã, foram obrigados a ceder o controlo de vários postos espalhados por áreas rurais do país.

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À medida que as forças afegãs foram perdendo terreno, as queixas eram iguais no tom e no conteúdo: falta de apoio aéreo e de mantimentos, escreve o "The New York Times". Foi isso que fez com que, à medida que o regime talibã foi ganhando força e poder, os soldados afegãos cultivassem um sentimento coletivo de descrença. Naquelas condições, não fazia sentido morrer pelo governo de Ashraf Ghani, presidente do Afeganistão desde setembro de 2015 até 14 de agosto de 2021, altura em que saiu do país após a queda de Cabul.

"Nenhuma região caiu como resultado de uma guerra [física], mas como um resultado de uma guerra psicológica", refere Abbas Tawakoli, comandante da 217.ª unidade das Forças Armadas Afegãs, ao mesmo jornal depois de um dos seus postos ter caído para os talibã.

A ideia é reforçada por Carter Malkasian, autor do livro "The American War in Afghanistan: A History" e ex-conselheiro do presidente do Departamento da Defesa americano, que diz que as forças afegãs foram perdendo "coordenação" e "moral" ao longo de todo o conflito.

"Durante muito tempo, as forças afegãs tiveram problemas de moral e perderam a vontade de lutar contra os talibã. Os talibã podem apresentar-se como aquelas que resistiram e lutaram contra a ocupação [dos EUA e aliados], que é uma coisa muito próxima daquilo que significa ser afegão", explica em declarações à CNN.

Os talibãsde agora são os mesmos de há 20 anos?

Desde o momento em que assumiram o controlo de Cabul, a capital do Afeganistão, o regime talibã tem feito por se mostrar diferente daquilo que era há 20 anos, antes de serem afastados pelos EUA e aliados após o 11 de setembro.

Nas declarações políticas que têm feito até agora, assumem-se uma organização mais inclusiva, garantido, por exemplo, manter o acordo de paz e assegurar alguns direitos para as mulheres.

Neste novo regime, as mulheres poderão continuar a sua educação para lá dos 8 anos de idade — proibido entre 1996 e 2001. As mulheres serão "muito ativas", mas tê-lo-ao de ser dentro daquilo que é a "lei islâmica". Da mesma forma, diplomatas, jornalistas e organizações não-governamentais poderão permanecer no país, segundo fez saber Sohail Shaheen, representante talibã, num comunicado oficial citado pela CNN.

"Se usar a burqa, significa que aceitei o governo talibã, que lhes deu o direito de me controlarem. Usar um chador é o começo da minha sentença, aprisionada na minha casa"

"Este é o nosso compromisso: possibilitar um ambiente seguro para que [todos] possam dar continuidade às suas atividades para o povo do Afeganistão", refere. Além disso, o regime promete ainda uma amnistia geral a todos os afegãos que apoiaram, trabalharam ou fizeram parte do governo afegão.

Dois dias depois de terem tomado o Palácio Presidêncial de Cabul, Abdulhaq Hemad, porta-voz do grupo fundamentalista, foi entrevistado esta terça-feira, 17, por uma jornalista afegã do canal Tolo — que, como outros, não teve mulheres a apresentar programas de informação e entretenimento desde domingo.

"O Emirado Islâmico não quer que as mulheres sejam vítimas", reforçou. "No quadro da lei islâmica e no respeito dos valores tradicionais afegãos, estamos preparados para garantir que as mulheres possam estudar e trabalhar”, insistiu, escreve o jornal "Público", citando a entrevista.

O homem responsável pela equipa de comunicação do regime pediu ainda à população para que não abrisse a porta a pessoas estranhas que diziam ser talibã, depois de terem surgido relatos, não confirmados, de que havia membros do grupo fundamentalista a entrar na casa de pessoas.

Neste momento, o regime talibã está ainda a formar governo e a considerar que leis serão apresentadas ao país.

Os talibã vão cumprir as promessas e respeitar os direitos humanos?

Neste momento, a única certeza que há é que o futuro do Afeganistão e do seu povo é incerto. À medida que o grupo fundamentalista foi ganhando terreno e a queda do país era uma certeza, surgiram inúmeros relatos de como a venda de burqas disparou nas lojas de Cabul. Não só em quantidade, mas em valor.

"Antes, muitos dos nossos clientes eram das províncias. Agora são as mulheres da cidade que as compram", explica Aref, uma comerciante, ao jornal britânico "The Guardian".

Na altura das suas declarações, Cabul ainda não tinha caído, mas era inevitável. "Nós, enquanto mulheres mais velhas, temos vindo a falar muito de como, há muitos anos, era difícil ser-se mulher. Vivi em Cabul nessa altura [antes da invasão dos EUA], e lembro-me de como eles [membros talibã] agrediam as mulheres e crianças que saiam de casa sem as suas burqas", diz Fawzia, uma mulher de 60 anos, ao mesmo jornal. E ainda que, nalgumas lojas, as burqas tenham esgotado porque o pânico com a chegada dos talibãsé generalizado, há quem resista.

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É o caso de Habiba, 26, que se recusa a usar uma ainda que os pais apelem para que o faça. "A minha mãe acredita que uma das formas de proteger as suas filhas dos talibã é fazê-las usar uma burqa. Mas em minha casa não há uma burqa e não tenho intenções de ir comprar uma. Não me quero esconder por debaixo de tecido. Se usar a burqa, significa que aceitei o governo talibã, que lhes deu o direito de me controlarem. Usar um chador é o começo da minha sentença, aprisionada na minha casa. Tenho receio de perder tudo aquilo que por que lutei tão arduamente", lamenta a jovem.

Num texto publicado na primeira pessoa, uma residente de Cabul fala desse mesmo receio. Embora não assuma o nome nem a idade por razões óbvias, diz que tem duas licenciaturas completas e que trabalhou "dias e noites" para se tornar na pessoa que é hoje. "Esta manhã [referindo-se a domingo, 15 de agosto], assim que cheguei a casa a primeira coisa que as minhas irmãs e eu fizemos foi esconder os nossos documentos de identificação, diplomas e certificados de conclusão de licenciatura", lê-se.

"Quando percebi que os talibã tinham chegado a Cabul, senti que ia ser uma escrava. Que podiam brincar com a minha vida de todas as formas que quisessem"

"Sempre adorei pintar as minhas unhas", continua, mas a partir de agora "não vou poder mais rir-me alto, não vou poder ouvir as minhas canções favoritas, não vou poder encontrar-me com os meus amigos no café e nunca mais vou poder usar o meu vestido amarelo favorito."

"No caminho para casa, passei pelo salão de beleza que costumava frequentar para arranjar as unhas. A fachada da loja, que tinha sido decorada com imagens de mulheres, tinha sido pintada de branco durante a noite. À minha volta, a única coisa que via era os rostos assustados das mulheres e os rostos odiosos dos homens que odeiam mulheres, que não gostam que elas estudem, trabalhem e sejam livres. O mais devastador foi ver aqueles homens que pareciam felizes e faziam troça de nós. Em vez de se posicionarem ao nosso lado, posicionaram-se ao lado dos talibã", escreve.

As mulheres temem o regresso da opressão e da intolerância imposta pelos talibã antes da invasão pelos EUA, como a proibição de trabalharem fora de casa; de fazerem negócios com o homens; de estudar; de andarem de bicicleta; de se rirem em público; de irem a festas; de mostrarem os tornozelos ou usar maquilhagem; ou de serem assistidas e acompanhadas por médicos homens.

"Quando percebi que os talibã tinham chegado a Cabul, senti que ia ser uma escrava. Que podiam brincar com a minha vida de todas as formas que quisessem", lamenta.

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Sobre o que esperar, Bruno Neto, longe de Kandahar há duas semanas (mas com esperança de voltar para continuar a coordenar a organização não-governamental quando a situação estabilizar), diz que aprendeu a não criar expectativas e que, por isso, é difícil prever o que, efetivamente, vai acontecer.

"Nós [referindo-se à equipa que trabalha consigo na organização] não fazemos política. Não temos qualquer tipo de intervenção que julgue ou alimente um regime. A comunicação dos talibã foi uma comunicação política, de intenção, como em qualquer campanha eleitoral. As últimas imagens que temos dos talibã são de 2001 e, por isso, as pessoas estão reticentes sobre o que vem aí. É sempre bom ter um bocadinho de esperança [face às garantias de um regime mais inclusivo], mas há que ver para crer. E há que garantir que os direitos humanos são respeitados."

Além da certeza de que o futuro do Afeganistão se prevê incerto, junta-se outra: a de que o mundo estará a ver.

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