Diz-se que a única coisa que temos como certa na vida é a morte. Não é. Também é certo na vida que um homem jamais ganhará uma discussão a uma mulher, mesmo quando acredita profundamente que a ganhou. Não ganhou. O homem acaba por fazer aquilo que a mulher quer, mesmo que ela argumente que preferia outra coisa. Não preferia, é tudo jogo psicológico delas para nos levarem a fazer o que elas no fundo querem desde o início.

É mais ou menos assim, com este espírito derrotista, que entro numa guerra que já sei que vou perder, ainda para mais porque é daquelas guerras épicas que se travam uma, duas, três vezes na vida: escolher o nome de uma filha. Ainda antes de se saber o sexo da criança eu já tinha a certeza de que a coisa não seria pacífica, sobretudo se fosse menina. Os nomes que iam sendo atirados para o ar por um e pelo outro não reuniam consenso e, pior, eram mesmo recebidos com caretas seguidas de expressões como “estás a gozar?”. Isto de um lado e do outro. Ficou então decidido que o melhor seria cada um ir reunindo ideias numa lista e, depois, quando houvesse certeza sobre se seria um ou uma, logo se discutia o assunto.

Assim foi. Cada um organizou uma lista de opções, que foi mantendo mais ou menos secreta até ao dia das certezas. Esse dia chegou, uma menina. E a guerra começou.

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Nenhum dos meus cinco nomes foi recebido com uma ponta de entusiasmo, sendo que dois deles foram mesmo repudiados, ao ponto de ser quase insultado. O mais frustrante disto tudo é que eu sei que há pelo menos ali dois outros nomes da minha lista de que ela gosta, e em tempos chegou mesmo a dizer que eram giros, só que como há outros que prefere, os tais da lista dela, diz agora que as minhas sugestões são pavorosas, ou horrorosas. Não são, é tudo manipulação, são só joguinhos, é mais uma manobra que aponta à tal vitória final que ela já sabe que vai alcançar, e que eu já sei que ela vai alcançar, porque me vencerá pelo cansaço, que é outra das estratégias comuns entre elas.

Às vezes pergunto-me se haverá workshops destas coisas onde ensinam estas técnicas às mulheres, porque, quando falo destas coisas com amigos, a reação é a mesma que a minha, ou seja, fazem todas o mesmo.

Se quiserem perceber um bocadinho melhor aquilo de que estou a falar, deixo aqui um diálogo que deve ser comum a muitos casais. Escuso de dizer quem é ele e quem é ela. Cá vai.

— Queres ir comer a algum lado?
— Sim, podemos ir.
— O que é que te apetece?
— Qualquer coisa, decide tu.
— Podemos ir ao Asiático, ainda não conheço.
— Não me apetecia muito sushi.
— Mas o Asiático não é de sushi.
— Sim, comida asiática. Preferia outra coisa.
— Tipo quê?
— Qualquer coisa, escolhe.
— Vou marcar no El Clandestino.
— Não há nada assim mais normal?
— Normal como? Comida portuguesa?
— Qualquer coisa, mas sem ser assim esquisito.
— Mercantina?
— Italiano não.
— Sei lá, o Salsa e Coentros? Mais português é difícil.
— Isso é alentejano, é muito pesado para a noite.
— Desisto. Diz lá, onde é que queres ir?
— Sei lá, a qualquer sítio.
— Bom, pelos vistos não é a qualquer sítio, já dei sei lá quantas hipóteses e não quiseste nenhuma.
— Podemos ir ao La Finestra.
— Mas disseste que não querias italiano.
— Mas tem aquela panacotta maravilhosa.
— Se querias ir ao La Finestra porque é que não disseste logo?

Soa a qualquer coisa, não é? Uso o exemplo de um restaurante, como podia usar o de um filme, porque a técnica é exatamente a mesma. Querem ir ver um filme, mas são incapazes de dizer que querem ir ver esse filme, deixam a coisa nas nossas mãos. Damos a volta a todo o cartaz e acabamos por ir ver o filme que elas querem. Algo do estilo:

— O que é que queres ver?
— Não sei, vê lá o que te apetece.
— Pode ser o “Dunkirk”.
— Isso é de guerra, muito violento. Queria uma coisa mais leve.
— “A Forma da Água”?
— Vi o trailer e odiei. Esse não.
— E os “Três Cartazes”? A crítica é ótima. O João e a Paula foram ver e adoraram.
— Mas não é um bocado parado?
— “A Linha Fantasma”?
— Acho que adormeço a ver esse.
— Mas não disseste para eu decidir?
— Oh, só sugeres coisas que não me apetecem.
— O “Lady Bird”?
— Pode ser.
— Bom, também não havia mais nenhum em cartaz.

Somos uns bananas, é o que é.

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