Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Cara leitora,

Se toda a gente tem as suas “feridas” emocionais, nos casos de auto-mutilação estas cicatrizes são, literalmente, levadas à letra (ou melhor, à ponta da lâmina…).

A boa notícia é que a leitora parece já ter alguma noção do que é que a faz auto-mutilar-se pois se é “para libertar a dor”, como refere, importa percebermos de que maneiras isto acontece, quando para a generalidade das pessoas esta pode ser uma explicação algo bizarra (afinal “como é que uma pessoa se liberta da dor infringindo-se dor?!”).

Pois é, a resposta a esta questão é complexa, mas hoje procurarei dá-la numa ótica que tanto se aplique a si (que claramente sofre, e é importante deixar claro que este sintoma que refere é grave, pelo que, no mínimo, dir-lhe-ia para desde já procurar ajuda profissional) mas também para todas as pessoas (amigos ou familiares) de alguém que descubram que se auto-mutila.

A auto-mutilação (ou auto-lesão) inclui qualquer comportamento intencional que envolva uma agressão direta ao próprio corpo, sem que o objetivo seja o suicídio. As formas mais comuns de auto-mutilação incluem o cortar-se com gilettes, navalhas, facas, vidros, agulhas, pregos, canetas ou outros objetos cortantes, queimar-se com cigarros, beliscar-se ou bater em si próprio, morder os lábios até fazer ferida, reabrir feridas, e ainda existe — acredite ou não — um sem-número de outras formas de auto-mutilação.

Não sei quanto a si, mas eu nunca fui lá muito fã de filmes de terror. Chucky, Freddy Krueger e Sexta-feira 13, Scream, Halloween… sempre achei tudo isso um desperdício de tempo e de energia. Nunca entendi bem o porquê de alguém pagar para passar medo ou tensão. É que a vida, como ela é, já é tantas vezes tão “stressante”, angustiante e caótica que já é “dose” suficiente uma pessoa lidar (de preferência, da melhor forma possível) com todos os monstros e fantasmas escondidos nos porões da mente.

Sim, existe um “dark side of the mind” e se tem dúvidas, sugiro-lhe leia este meu artigo para perceber como funciona este “lado sombra” ou o “lado lunar” na psique de todo e qualquer ser humano.

Quando uma pessoa se corta ou se agride deliberadamente, ou quando uma pessoa descobre que alguém próximo a si o faça, é muito difícil tentar explicar “porquê?”. Porque é que alguém decidiria voluntariamente fazer mal ao seu corpo?

Afinal de contas, porque é que uma pessoa escolhe sentir dor?

Por mais estranho que pareça, todos os dias, milhares de pessoas fazem isso em momentos de crise. Este é um comportamento que encontramos com mais frequência nos adolescentes, mas não é raro encontrá-lo também em adultos (e com mais incidência do que poderíamos pensar).

A primeira coisa que precisamos entender é que todos os comportamentos que fazemos tornam-se um hábito porque eles alcançam algum objetivo.

Por exemplo, o comportamento de “abrir a torneira” faz a água sair do cano, o comportamento de “ligar para a pizzaria” faz com que a pizza chegue até sua casa, o comportamento de “lavar o carro” faz com que ele fique limpinho e bem-cheiroso depois.

Então, se realmente queremos entender porque é que uma pessoa se auto-mutila temos de olhar para o que acontece “depois” do corte. Quais as consequências que isso traz?

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Porque é que alguém se auto-mutila? Há 3 objetivos principais

Há três objetivos principais que levam alguém a auto-agredir-se dessa forma. E o segredo é que se a leitora ou os leitores compreenderem cada um destes objetivos, principais podem ajudar-se a si mesma ou alguém que se corta a alcançar esses mesmos objetivos de uma forma mais saudável, sem precisar de se auto-mutilar e gravar marcas permanentes no corpo, na mente e na alma.

Se a leitora conseguir fazer isso, depois de ler este texto, dou como cumprida a minha missão no dia de hoje!

Vamos lá. O primeiro objetivo por detrás da auto-mutilação é conseguir focar-se numa coisa só. Como assim?

Quando uma pessoa está num turbilhão de pensamentos e emoções negativas, a sua mente fica a pular do passado para o futuro, da angústia para o desespero, da inadequação à frustração, da rejeição à desvalorização, da solidão ao vazio, como uma bola de ping-pong.

Exato. É mesmo uma montanha-russa emocional que estonteia o seu corpo e a sua mente em minutos, o que a poderá fazê-la sentir-se perdida entre um pensamento perturbador e outro, sem nada a que se agarrar.

Nestas alturas, muitas pessoas cortam-se como uma forma de se “concentrarem” em algo real. Mesmo que seja uma dor.

Aqui, a auto-mutilação serve como uma “âncora” que faz com que se distraia dos pensamentos e se foque, de alguma maneira, no presente.

O que acontece é que existem muitas outras maneiras de se lidar com o turbilhão de pensamentos de formas mais positivas, imediatas e sensoriais que a façam “focar-se” em determinada sensação física (como por exemplo, segurar vários cubos de gelo na mão ou enfiar-se na banheira e ir tomar um banho gelado, ou a técnica do 5,4,3,2,1 (se quiser a descrição completa de todas estas técnicas, diga-me, por email, que eu posso enviar-lhe um ficheiro essa informação, de presente, sem qualquer problema), entre outras).

Muitas pessoas nunca ouviram falar ou nem sequer praticaram estas técnicas e acabam por recorrer ao que elas sabem que “funciona”, que são os cortes.

O segundo objetivo principal está ligado àquele que a leitora menciona desde logo e que é o alívio de algum tipo de dor emocional com uma dor física. “E isto porquê?!”, perguntarão, incrédulos, os outros leitores.

Porque quando uma pessoa se corta, o corpo liberta no seu sangue umas substâncias chamadas opióides (como as endorfinas, que são neurotransmissores que “socorrem a dor”) que causam um efeito analgésico. Ora, esse efeito alivia — porém, apenas temporariamente — a dor.

O que talvez a leitora ainda não tenha descoberto na prática (aposto todas as minhas fichas que sim!) é que existem outras formas de aliviar a dor emocional SEM precisar de se magoar, como, por exemplo, a técnica da respiração diafragmática ou do relaxamento progressivo (sim, também posso enviar a descrição e todos os detalhes  destas técnicas, por email), mas, lá está, é raro que alguém tenha aprendido isso, e mesmo para quem saiba, por vezes é difícil organizar-se “na hora” para as pôr em prática.

O terceiro objetivo ou motivo das pessoas se auto-mutilarem tem que ver com um pedido de ajuda. É comum que uma pessoa, depois de se cortar, receba da família ou amigos bastante atenção ou cuidados. As outras pessoas ficam mais perto delas, e por vezes conseguem “abrir-se” mais.

Minha leitora, querida, ficamos algemados à prisão do desespero quando simplesmente não conseguimos ou recusamo-nos a encarar e a reconhecer as nossas dores internas, mesmo quando elas estão espetadas na epiderme da própria pele, ostentando e gritando, como feridas nossas por sarar, que nós mesmos nos esfregamos na cara.

Por isso, para si e para todos os que conhecem alguém que se auto-mutile: por favor, não ignore quando alguém se agride porque isso só vai deixar tudo pior. Não tratem isto como uma “mania” ou uma fraqueza de alguém.

A solução é a leitora ou outros leitores ficarem mais atentos a outros sinais de que a pessoa precisa ser ajudada. Se a auto-mutilação for um pedido de ajuda, provavelmente não será o primeiro e o único que a pessoa faz. Antes de se cortar, talvez perceba que fica mais cabisbaixa…ou talvez comece a desmarcar compromissos… ou a participar menos das coisas… e é nessa altura que uma pessoa precisa de apoio (ou seja, antes das coisas ficarem extremas).

A auto-mutilação muitas vezes surge associada a muitos outros transtornos mentais, como as perturbações de personalidade, os distúrbios alimentares, a ansiedade ou a depressão.

Podem, então, haver transtornos encobertos e estas são realidades que somente os profissionais e saúde mental poderão determinar.

Neste vídeo que fiz, e que lhe disponibilizo em baixo, dou-lhe a conhecer os 10 sinais ocultos de uma depressão “mascarada” ou escondida; sinais esses que destaquei por serem muito comuns e frequentemente passarem despercebidos por serem até socialmente aceites ou valorizados. Neste vídeo, será possível compreender melhor e saber como oferecer ajuda aos que lutam contra as doenças não manifestas (mas mesmo assim latentes e/ou camufladas), o que é prejudicial pois impede as pessoas de procurarem um correto diagnóstico e tratamento (que de acordo com as queixas e a severidade do quadro poderão incluir apoio psiquiátrico, ou seja, medicamentoso).

Fique atenta a si mesma. A auto-mutilação causa danos irreversíveis e, de acordo com a investigação, aumenta o risco de uma pessoa cometer suicídio, para além de a fazer sentir-se super culpada.

Esta forma de auto-destruição é uma forma desadaptativa e disfuncional de lidar com o stresse ou com os desafios da vida, e é quase o mesmo tipo de comportamento aditivo (relembre-se do que disse acerca das substâncias opióides que o corpo liberta, pois… geram dependência) de uma pessoa que procura consumir para “esquecer”.

Numa frase: é um péssimo jeito de lidar com as emoções difíceis (mas talvez seja o único, até agora, que a leitora conhece).

Um psicólogo irá ajudá-la a encontrar outras formas de (e lembra-se dos objetivos principais?): 1) focar-se no momento presente; 2) aliviar as dores emocionais e 3) pedir ajuda. Há caminhos alternativos que a levarão ao mesmo lugar, só que com recompensas muito mais realizadoras e gratificantes.

O pior que a leitora, ou os leitores que saibam de alguém na mesma situação, podem fazer é ignorar. Isso faz com que as ações de uma pessoa fiquem cada vez mais extremadas.

Peça ajuda profissional. A auto-mutilação é um sintoma bem-bem-bem sério.

Creio ter ficado claro que a leitora, se se auto-mutila, não procura a morte, mas sim o alívio.

Uma boa psicoterapia irá ajudá-la a procurar outras formas de lidar com as frustrações ou o tumulto emocional. Permitir-lhe-á ajudar a identificar os problemas implícitos que provocam os comportamentos auto-mutiladores. A terapia pode, também, ajudar a gerir melhor a angústia/raiva/preocupação, ajudar a regular a impulsividade e outras emoções difíceis.

E os efeitos secundários? “Apenas” estes! Poderá aumentar a sua auto-estima, o seu amor-próprio, auto-conhecimento, melhorar os seus relacionamentos e desenvolver capacidades/aptidões/habilidades de resolução de problemas de formas mais assertivas e eficientes do que essas que até agora tem experimentado.

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Com o devido acompanhamento, descobrirá que pode desenvolver uma parte sua que está sempre centrada. Essa parte (provavelmente apenas — e ainda — adormecida dentro de si) tem sempre sabedoria e direção. Essa parte está inteiramente acessível a si, se fizer o esforço de aprender a acalmar a sua mente.

E porquê acalmar a mente?! Porque o seu humor define como a leitora vê a realidade.

- Quando estamos com raiva, pensamos em soluções agressivas e talvez pouco eficazes.
- Quando estamos tristes, não vemos soluções quando estas existem, sim!
- Quando estamos ansiosos, vemos monstros onde não existem.

Por isso, o primeiro passo é sempre acalmar a mente e voltar a centrar-se: auto-regulação emocional. A partir da mente calma, a sabedoria inata que cada pessoa tem sai do invisível e faz-se observar.

O problema nunca é “o” problema, é a forma como a leitora perceciona o problema. Acalme a sua mente, e conseguirá percecionar de outra forma.

Neste meu vídeo, que poderá ver também, a leitora vai ter acesso ao caminho que fará com que os problemas na sua vida (e o respetivo impacto negativo que têm sobre si), se possam começar a diluir para que finalmente possa viver com mais equilíbrio emocional e saúde mental.

Vai também poder descobrir qual é a tríade que a poderá fazer encontrar as soluções para todos os seus problemas, com uma demonstração prática do que é necessário fazer para reverter as situações negativas em superações positivas!

Todos os seres humanos guardam segredos no mais íntimo porão da sua mente. Esse porão é cheio de incertezas, medos, fantasmas e monstros que por vezes surgem para nos inquietar. Aprender a lidar com eles é fundamental para que o navio da sua vida siga rumo aos destinos que você traçar.

Deixo-lhe mais um vídeo, aqui em baixo, no qual vou contar-lhe uma história. Uma história bem comum a todos nós, sem exceção. É uma história sobre sofrimento, sobre aceitação e sobre transformação. A metáfora que a permitirá desacorrentar-se e livrar-se de uma vez por todas de todos esses “monstros” escondidos no porão da sua mente!

Isto lembra-nos que a dor não deve ser negada ou alienada, mas compreendida como parte de quem somos. De outra forma, não podemos curar aquilo que recusamos aceitar. Só assim seremos capazes de abandonar antigos apegos, que é um dos principais motivos de estarmos em permanentes estados de dor, e finalmente, avançar numa jornada exclusiva de auto-mestria e expansão pessoal.

É na escuridão que moram os nossos monstros e quanto mais trancamos esse porão, ou quanto mais nos “anestesiarmos” (seja de que formas for) mais eles ganham força.

O melhor é parar de fugir da dor e descobrir, o que fazer com os seus “monstros” e “fantasmas” quando eles saem do porão para a atacar.

Ah, e por falar em Monstros e Mostrengos, tal como dizia o "nosso" Fernando Pessoal no seu “Mar Português” (e termino com este naco de poesia viva que, além de bela, encerra grandes verdades psicológicas e emocionais!):

“Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

Até para a a semana.

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