Quando começámos o período de quarentena, ouvia-se muitas vezes em forma de piada a frase: "Daqui a nove meses vai haver um babyboom". Só que a reclusão nem sempre é sinónimo de um aumento da sexualidade e a proximidade muitas vezes é até inimiga do desejo. Mas afinal o que é que este período de isolamento forçado mudou na sexualidade dos indivíduos e na dinâmica sexual dos casais. A MAGG falou com a sexóloga Vânia Beliz para entender de que forma a pandemia pode mudar, de vez, a forma como os casais e os indivíduos se relacionam com o sexo.

A verdade é que estamos em terras nunca navegadas, num período de incertezas, em que não sabemos muito bem o que está a acontecer e este momento gera sempre alguma ansiedade. Logo, o impacto que a quarentena e a pandemia podem ter nas nossas relações vai depender muito do impacto que este período teve na vida das famílias e quais foram as consequências para cada uma. "Se as pessoas perderam emprego, se as crianças vão voltar à escola, como é que as famílias se vão reorganizar? E em casais estáveis, com relações tranquilas e com famílias estruturadas? Em ambos os casos, pode haver alterações na vida íntima." diz a sexóloga.

Para alguns casais, sobretudo os que viveram situações de maior tensão e preocupação, este período pode ter tido um impacto negativo na vida sexual. "Isto pode causar stresse, pode até desencadear outras patologias do ponto de vista de saúde mental, que depois também podem dificultar a intimidade. Tenho falado com muitas pessoas que até têm feito recurso à medicação, e a medicação acaba por ter consequências na resposta sexual."

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Acima de tudo, é importante que as pessoas percebam que nós não somos máquinas e que a sexualidade é um todo. "E se nós não estamos bem, se as coisas à nossa volta não estão bem, ao contrário dos mais jovens, que acabam por se envolver, talvez sem tanta influência destes fatores externos, mas para as pessoas mais velhas, para os casais, para quem já tem uma vida estruturada, isso não acontece."

Há que ter em conta que as relações são um fator muito importante, contudo o sexo e o desejo podem passar para segundo plano. "E é muito importante que as pessoas compreendam que a intimidade dos casais não se faz apenas de sexo", diz Vânia Beliz, que acrescenta que é muito importante que as pessoas falem das suas emoções, do que estão a sentir, o que passa na cabeça de cada um e dos seus medos. "E isto é válido para as mulheres e para os homens, sendo que os homens têm mais dificuldade neste exercício."

Um estudo argentino realizado pelo Instituto Kinsey chegou a uma média de relações sexuais por ano.

19-29 anos: 112 encontros sexuais
29-39 anos: 86 encontros sexuais
39-49 anos: 69 encontros sexuais

Vânia Beliz relembra que nesta altura de crise é muito importante que as pessoas se aproximem. "E não há problema se não houver sexo, desde que as pessoas conversem e estejam bem com isso. Porque é importante que as pessoas percebam que a falta de desejo pode acontecer, simplesmente, por causa deste cenário todo que estamos a viver. E nós não somos máquinas e não temos botões para apagar as consequências das coisas."

Para aquelas pessoas que não têm parceiro, vai ser mais difícil relacionarem-se?

A nova realidade pode ser complicada para quem não tem um parceiro fixo, até porque as dinâmicas sociais vão mudar. "Para aquelas pessoas que estão sozinhas, neste momento conhecer alguém é mais complicado, no sentido em que nós estamos com desconfiança de todas as pessoas que estão à nossa volta, e é normal."

Para começar, os espaços de convívio social estão muito reduzidos, por isso, tirando as plataformas online, não há grande forma de conhecer pessoas novas.

Contudo, há pessoas que podem querer divertir-se, sem pensar em consequências. "A verdade é que muitas pessoas também têm aquela ideia que pode ser muito errada do 'nós somos mais jovens e isto não é um vírus que ataque muito os jovens.' Mas nós não sabemos. Há muitos jovens com outros problemas de saúde que depois se tornam mais frágeis."

Vânia Beliz acrescenta que, se uma pessoa quer conhecer alguém novo e está com receio do vírus, deve tentar perceber a rotina dessa pessoa.

O problema da solidão tem vindo a ser estudado nos últimos anos. Em 2015, uma investigação divulgada no “Sage Journals” indicou que a solidão e o isolamento social estão associadas ao aumento dos fatores de risco para uma mortalidade precoce, que equivalem a fumar 15 cigarros por dia.

O estudo revelou também que os jovens (entre os 18 e os 22 anos) são aqueles que se sentem mais solitários, apesar de, na dimensão online, terem uma vivência social animada.

Apesar disso, o estudo não demonstra uma variação relevante entre aqueles que usam muito ou pouco as redes sociais.

O fator com mais impacto no facto de uma pessoa se sentir sozinha está na frequência das relações pessoais, cara a cara.

Como podemos melhorar a intimidade pós-pandemia?

No caso dos casais, a sexóloga acha que é muito importante conversar sobre os medos, "sobre o que preocupa, sobre as emoções". "Nós já estamos a aliviar uma carga emocional que pode ser um obstáculo, e aí, a partir disso, nós já estamos a fazer com que o resto aconteça."

Para além disso, a promoção do autocuidado é muito importante, porque ao cuidarmos mais de nós, vamos também promover a nossa auto-estima. E ainda que haja momentos para aliviar o stresse que se vive de forma a quebrar este negativismo, "é importante que as pessoas encontrem, com todos os padrões de segurança, momentos para aliviar um bocadinho este stresse, planear deslocações, desde que sejam cuidadosas", sugere a sexóloga. "Durante muito tempo dizemos para as pessoas estarem muito tempo juntas, porque faltava tempo para estar junto, mas agora também é importante estar com outras pessoas, com segurança, para tentar que a rotina volte àquilo que é o novo normal."

 Será que a pandemia criou efeitos a longo prazo nas relações?

Neste momento não sabemos ainda quais vão ser as consequências que esta pausa no contacto social traz em relação aos outros. "O ser humano tem uma grande capacidade para se adaptar e existe já muita investigação neste momento para tentar perceber as consequências de tudo e mais alguma coisa. Eu tenho a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, nós vamos voltar às nossas rotinas."

Vânia Beliz não acredita que se mantenha a insegurança e receio que se tem vivido. "Eu acredito que numa primeira fase as pessoas tenham receio. Numa segunda fase, as pessoas com personalidades mais ansiosas vão manter esse receio e vão ter medo de se relacionar. Mas acredito que a maior parte das pessoas vai voltar à sua forma de estar. Vai depender muito da personalidade de cada um."

Esta pandemia deu-nos a oportunidade de parar, de desacelerar a nossa vida. "Durante muito tempo andámos a dizer que não tínhamos tempo para fazer isto, não tínhamos tempo para fazer aquilo, e de um momento para o outro fomos obrigados a parar e tivemos que aprender a viver com isso, e a priorizar coisas que se calhar estavam em segundo papel."

Esta situação deu-nos a possibilidade de repensar o nosso estilo de vida, a forma como nos relacionamos, as coisas a que damos valor. Claro que, para alguns, "pode ter sido a contestação de que não vai valer mais a pena, e aí as separações também poderão vir a acontecer, e há situações onde isso vai acontecer."

Vânia Beliz termina por dizer que as relações não se fazem unicamente de momentos bons. "Aliás, é nos momentos piores que as pessoas percebem se têm um companheiro ou companheira ao lado". Portanto, para muitos, esta pode ter sido uma altura de perceber que tipo de suporte existe na relação e se a relação realmente é coesa o suficiente para ultrapassar as dificuldades que se apresentam pela frente.

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