A proximidade pode ser um inibidor sexual. Passar demasiado tempo com uma pessoa pode levar a que haja uma diminuição do desejo sexual, da descoberta, da vontade de ter mais intimidade, até porque essa mesma intimidade deixa de ser uma exceção e passa a ser um hábito recorrente. Em tempo de quarentena, com milhares de casais fechados 24 horas por dia em casa, muitas vezes com filhos, e a trabalhar ao mesmo tempo, os níveis de stresse, ansiedade, tensão tendem a subir para níveis extremos, o que leva a que aumentem os conflitos, as discussões e tudo isto junto promove ainda mais distanciamento entre os casais e uma maior diminuição do desejo.

Mas será que há forma de se conseguir melhorar a relação sexual neste período? O que é que os casais devem fazer? Ou acontecerá o contrário, e esta convivência forçada está a fazer renascer nos casais algo que andava adormecido? A MAGG foi ouvir duas especialistas, as séxologas Vânia Beliz e Maria do Céu Santo.

Qual é o maior desafio dos casais durante a quarentena?

"A maior parte dos casais tinha muito pouco tempo de qualidade passado juntos. Tenho falado com muitas pessoas que me dizem que há muito tempo que não almoçavam com os parceiros e parceiras". Vânia Beliz acha que esta convivência diária tem sido um desafio já que "tem obrigado as pessoas a conversar mais, a estar mais perto, a estar presente". A vida que vivíamos antes da pandemia consistia em saírmos de manhã e voltarmos ao fim do dia, tínhamos horários muito desfasados e agora temos a oportunidade de conviver diariamente com as pessoas com quem mantemos uma relação.

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Contudo, para aquelas relações que não eram saudáveis, nem positivas, Vânia Beliz acredita que este período acentua as dificuldades. "Ou porque estavam com dúvidas na relação, ou porque não estavam coesos enquanto casal, isto veio fragilizar ainda mais as coisas, por isso é que há alguns dados que dizem que aumentaram os divórcios (na China) depois desta quarentena."

Já a sexóloga Maria do Céu Santo explica que um dos grandes problemas é o facto de as pessoas viverem em função do vírus e não se conseguirem adaptar para criar um bom ambiente em casa. "Só falam do vírus, só ouvem notícias e criam uma certa ansiedade." As pessoas vivem em função das circunstâncias. "Aquele parceiro que nós julgávamos que conhecíamos, de repente é outro. Porque se acentuaram os defeitos, as manias e tornaram-se intolerantes e perderam a capacidade de se adaptarem ao outro." Este conflito pode levar a que as pessoas tragam assuntos fraturantes e entrarem em discussão e até alterar a relação.

Maria do Céu Santo acrescenta que também depende do contexto em que o casal está, se com filhos, com familiares, ou apenas os dois. No primeiro e segundo caso, um dos problemas mais difíceis "é a organização do tempo para que cada um consiga assegurar o teletrabalho, o apoio escolar aos filhos, as atividades domésticas e o tempo para o casal, para que as 24 horas não se resumam apenas a obrigações." Já quando o casal está sozinho, "o que anteriormente disse também se aplica, mas deverá reforçar a ligação através da sensualidade, do envolvimento e do enamoramento entre os dois."

O que é positivo para os casais durante a quarentena?

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Vânia Beliz acredita que o retomar da proximidade e o retomar da convivência a dois é muito importante. "Nós associamos muitas vezes a sexualidade à prática sexual e sexualidade não é só isso. Muitas vezes as pessoas também têm uma má intimidade sexual porque também perdem a relação, porque não há convivência ou diálogo." A sexóloga pensa que agora as pessoas podem falar mais abertamente das suas emoções e partilhar fragilidades, porque este é um período onde podemos ser mais nós próprios sem medos. Vânia Beliz diz que quem consegue lidar bem com esta situação vai sair deste período mais rico e com pensamentos positivos à cerca da relação e do futuro da mesma.

A sexóloga Maria do Céu Santo diz que é fundamental o casal adaptar-se, ser tolerante e ter o seu próprio espaço para estar sozinho. Mas acima de tudo, o mais importante para os casais é reinventarem-se. "Ter imaginação, criatividade, aproveitar todos os cantos da casa para o afeto, não ter medo do silêncio, mandar um SMS mesmo em casa, dar aquele olhar." A sexóloga acrescenta que haver sensualidade é essencial, "criar rotinas, tomar banho e arranjarem-se todos os dias de manhã, não andar todos os dias de pijama, ter tempo para fazer exercício físico juntos, fazer das refeições um trabalho de equipa, e até haver um jantar à luz das velas de vez em quando."

Como é que os casais podem aproveitar este período?

Por um lado, temos os casais que estão a viver juntos, e por outro, temos os casais que estão separados.

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Para os primeiros, Vânia Beliz diz que é muito importante que estabeleçam rotinas, principalmente se tiverem crianças. "Principalmente para as mulheres as coisas são mais complicadas. Muitas, além de estarem em teletrabalho, acabam por ter todas as tarefas domésticas." É muito importante que haja a divisão de tarefas e os casais têm de saber como se podem organizar. "Temos muitas realidades de pessoas que têm vidas profissionais muito ativas e agora estão em casa com tarefas que não estavam habituadas a fazer." Sendo que muitas mulheres estão a ser sobrecarregadas, esta altura não é fácil para elas. "Chegarmos ao sofá e o nosso parceiro estar a jogar PlayStation ou a ver Netflix pode criar algum desentendimento."

Além disso, a sexóloga Vânia Beliz acrescenta que é muito importante encontrar espaços de intimidade para o casal. "Criar rotinas para as crianças se deitarem cedo, terem um espaço a dois que pode ser para verem um filme, jantarem um pouco mais tarde e conversarem os dois, ou tomarem um banho juntos."

Quanto aos casais que estão separados, Vânia Beliz diz que se tem assistido um aumento do sexting e recurso ao envio de material. Mas "é preciso que as pessoas tomem muita cautela em relação a isto" porque o envio de material erótico ao outro levanta muitos riscos. A sexóloga acredita que as relações que são mais estáveis não vão ter alterações ou acabar por estarem separados por um ou dois meses, mas para isso "é preciso muito bom senso."

Contudo, é importante que as pessoas saibam que esta situação que estamos a viver pode "criar algumas alterações na resposta sexual, pode haver uma baixa do desejo." E por isso, é muito importante haver um auto-cuidado "porque a auto-estima, principalmente para as mulheres, é muito importante." Auto-cuidado não é só o aspeto exterior, também inclui manter a atividade física e uma boa alimentação.

Ingredientes para o sucesso da quarentena

Para Maria do Céu Santo há uns ingredientes de sucesso para a quarentena, que até são ditos pelos seus clientes. São eles: ser tolerante; estar bem disposto/a; elogiar, não só as ações, mas as qualidades; cuidar de si física e mentalmente; saber ouvir e observar parceiro/a; partilhar tempo de qualidade; não ter medo dos silêncios; criar objetivos todos os dias.

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