Cozinhar, por mais chato que seja para alguns, cumpre para todos um objetivo básico: nutrir o corpo. Mas para Daniela Ricardo a cozinha é muito mais do que isso. É a forma de alcançarmos um corpo saudável, mas também uma mente em equilíbrio. Como apaixonada pelo mundo da alimentação, além de cozinhar com emoção, cozinha também para as emoções. Mas, afinal, o que é isto de cozinhar para as emoções?

"Existe uma ligação entre o nosso corpo e aquilo que nós sentimos. Peguei em matérias que estudei, medicina tradicional chinesa, shiatsu e no ciclo das cinco transformações, e liguei cada um dos estágios desse ciclo aos órgãos associados", explica Daniela à MAGG.

De forma mais simples, este ciclo diz respeito a etapas de mudança energética que corresponde à energia Árvore, Fogo, Solo, Metal e Água que se ligam com cinco emoções básicas — alegria, nojo, tristeza, medo e ira —  retratadas no novo e quarto livro de Daniela Ricardo, "Cozinha das Emoções" (P.V.P 18,80€).

Cozinha das Emoções
"Cozinha das Emoções" créditos: divulgação

"O objetivo é: quando sabemos qual é o órgão por detrás daquela emoção e se sentimos que esta é predominante no nosso ser, a ideia é pegar nessa emoção em desequilíbrio e tratar através dos órgãos", explica Daniela Ricardo.

Ora, tristeza é coisa que nos domina no inverno mal abrimos a janela e para esta emoção há dois órgãos correspondentes: pulmões e intestino grosso, ligados à energia metal. Solução? Pode ser algo tão simples quanto apostar num prato de arroz integral acompanhado de algo tão nosso: sardinha ou cavala. Ah, e o picante é bem-vindo para equilibrar esta energia.

E como é que uma enfermeira de formação sabe tudo isto? Daniela Ricardo foi enfermeira durante 20 anos no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, período durante o qual começou a estudar shiatsu (massagem terapêutica com pressão em pontos de acupuntura, sem uso de agulhas) com o objetivo de poder ajudar os pacientes a melhorar os efeitos dos tratamentos.

Contudo, depressa percebeu que a condição dos doentes não permitiria o uso desta prática. "Ficam com valores sanguíneos muito baixos o que faz com que ganhem nódoas negras muito facilmente. Então, uma pressão extra faria equimoses no corpo, o que não é de todo desejável", explica.

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Mas o shiatsu foi apenas uma porta de entrada para um outro lado da saúde que estava prestes a descobrir. Depois de descobrir o shiatsucomeçou a praticar ioga e com a prática despertou também para a alimentação. Começou por ser vegetariana na altura, embora de forma desequilibrada até perceber que o caminho não era por aí.

Encontrou posteriormente a filosofia macrobiótica, chegando até a tirar um curso, momento em que percebeu "o poder curativo do alimento", diz. A partir daqui, passou a estar cada vez mais perto de uma alimentação consciente e natural, expressão que a acompanha no dia a dia e nos quatro livros que já tem publicados, dois deles galardoados, o "Cozinhar com Amor" e o "Sabores do Viajante".

"Temos de perceber o que é que os alimentos fazem ao nosso corpo para adaptarmos a alimentação às nossa necessidades", diz Daniela Ricardo, que não é vegetariana, acrescentando que nenhum alimento é proibido, e que tudo depende da frequência e quantidade do que se come.

Qual o papel da alimentação nas emoções provocadas por uma pandemia?

"Vejo neste momento duas emoções à flor da pele de quase toda a gente. Primeiro, medo. Está muito enraizado porque ninguém quer ficar doente. Depois, há também a raiva, porque as pessoas começam a ver que estão privadas de muitas coisas e as muitas estão a passar fome e ficam com raiva de todas as medidas implementadas", refere Daniela, destacando que ambas as reações são compreensíveis dado o contexto.

Contudo, para alcançar o equilíbrio não basta o básico chá de camomila que nos mandam tomar quando é preciso acalmar. "A Cozinha das Emoções" passa de nome de livro para nome do tratamento que vai do fogão para o prato de modo a atingir o equilíbrio emocional nesta altura.

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"Primeiro, devemos cuidar da energia dos rins, associada à energia do medo, ou seja, dos órgãos água. E aí podemos usar, por exemplo, os feijões, ótimos para os rins, e são uma fonte de proteína", lembra Daniela. Além de combater a emoção medo, os feijões podem ser também uma mais valia para a emoção "carteira vazia", uma vez que ao serem ricos em proteína são uma alternativa à carne e peixe, mais dispendiosas.

Também os vegetais e cereais, como a cevada, são importantes nesta fase. "Vão ajudar a nutrir o fígado, que é o órgão que nivela a nossa raiva", exemplifica a chef, professora e consultora de alimentação consciente e natural.

Por outro lado, também é preciso introduzir fibras, como cereais integrais, uma vez que os hidratos de carbono dão estabilidade emocional e, por conterem as tais fibras, aumentam a imunidade. "Por isso é que  hoje se fala tanto da macrobiota, porque quando a nossa flora intestinal não está em equilíbrio, a nossa imunidade também não", acrescenta Daniela.

Os hidratos... esses bem ditos que nem sempre são sinónimo de pecado

Percebemos que não é por acaso que quando precisamos de comida de conforto, para combater emoções negativas, a única coisa que nos vem à cabeça é um bom prato de hidratos de carbono, sejam eles massa ou uma pizza. "A comida de conforto vai variar muito de pessoa para pessoa, depende muito dos hábitos alimentares que vêm desde criança", refere a especialista em alimentação, dando como exemplo pessoas para quem o "leitinho", um hábito que vem de infância, é o conforto de que precisam.

Mas para lá destes hábitos mais específicos, há um transversal a quase todos os portugueses: o pão. E não é que não o possamos comer, mas há outras formas de comer hidratos de carbono sem que as emoções no tragam a angústia da gula em vez de conforto.

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"Aconselho sempre a redução das farinhas brancas, mas nós precisamos de comer hidratos de carbono. De preferência complexos, para que a absorção seja mais lenta e os níveis de açúcar no sangue se mantenham estáveis", explica Daniela. Desta forma, além de garantir energia para gastar ao longo do dia, faz com que esta "não se acumule no pneu" — que é precisamente o motivo de vermos os hidratos de carbono como um inimigo.

Afinal, que hidratos de carbono complexos são esses? Todos os que estão na moda, desde o arroz integral, millet (milho painço), bulgur, cevada, trigo sarraceno, mas que existem há centenas de anos e deixaram de ser usados na nossa cozinha. No entanto, é altura de dar as boas vindas de volta.

O que ter na dispensa e no frigorífico durante todo o ano?

As estações do ano não ditam apenas aquilo que devemos vestir, regem também o que devemos comer. É por isso que não faz sentido comprar abóbora no verão, uma vez que é no outono e inverno que é a estrela da estação. O mesmo acontece com as frutas: se no inverno não precisamos de tanta hidratação, não faz sentido comer uma fatia de melancia rica em água, mas sim um marmelo ou castanhas.

"Se comermos de acordo com a estação, vamos estar tendencialmente em equilíbrio. Nunca esquecendo que não comemos só pela boca. Comemos também pelo que ouvimos, sentimos ou lemos. Às vezes até podemos ter uma alimentação super equilibrada, mas por algum motivo um acontecimento tirou-nos o equilíbrio, não por alimentação física, mas emocional", alerta Daniela Ricardo. No entanto, se já estiver alinhado com uma alimentação de acordo com a estação, o mais local e sazonal possível, será mais fácil de recuperar de qualquer equilíbrio.

Aquilo que não muda ao longo do ano é a composição do prato, que deve ter em conta as regras já conhecidas: metade do prato para os hortícolas, um quarto para carne ou pescado e um quarto para os cereais, derivados e tubérculos, de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

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No fundo, para escolher os ingredientes certos, há apenas um segredo chave: "Comida de verdade não precisa de publicidade. Nunca ninguém vê publicidade aos brócolos, aos feijões, às lentilhas, ao grão. Essa é a comida a sério, comida que se estraga. Tudo o que tem valor nutricional acaba por se estragar porque há outros seres vivos a quererem alimento também. Então, tudo o que dura muito tempo dentro das prateleiras é de fugir", alerta Daniela Ricardo.

Melhor do que saber a teoria para regular as emoções, é passar à prática. Para isso, Daniela Ricardo deixa três sugestões do novo livro (que além de receitas mostra exercícios e pontos chave a estimular) para equilibrar as emoções através da alimentação, nunca esquecendo que tudo é comandado pelos órgãos.

Da entrada, com bolinhos de polenta, à sobremesa, com uma granola que pode servir com uma mousse de chocolate de abacate, eis o remédio que se toma às garfadas.

Bolinhos de polenta (energia fogo: emoção alegria)

Bolinhos de Polenta
Bolinhos de Polenta créditos: divulgação

Ingredientes (20 unidades): 
3 dentes de alho amassados
Uma colher de sopa de orégãos secos
1,5 litros de água
18 colheres de sopa bem cheias de farinha de milho
Sal marinho
Azeite

Modo de preparação:
Comece por dissolver a farinha na água e reserve. Doure os alhos num pouco de azeite. Depois acrescente a mistura de água com farinha, os orégãos e uma pitada de sal, mexendo sempre até ferver. No início a polenta irá ficar bem dura, mas à medida em que for cozinhando ela ficará mais fácil de mexer. Depois de ferver, cozinhe com o fogo no mínimo, durante trinta minutos.

Depois de cozida, transfira a polenta para uma tijela de vidro e cubra com pelicula aderente para que a polenta não crie uma crosta. Deixe arrefecer um pouco, para que a consiga manipular sem se queimar. Se arrefecer  completamente ficará quebradiça e difícil de moldar.

Amasse a polenta novamente com uma colher, pegue em pequenas porções da massa com uma colher e molde no formato que desejar. Não se esqueça de os rechear. Eu gosto de colocar quadradinhos de tofu frito, batata doce assada no forno ou um puco de estufado de lentilhas como o Dahl.

Depois de prontos os bolinhos precisam arrefecer completamente para que a polenta fique bem firme para fritar. Coloque no frigorifico durante uma hora. Após frite em óleo vegetal bem quente ou leve ao forno untados com um fio de azeite. Sirva em seguida.

Dica: Se a sua condição permitir faça-os fritos pois ficam mais crocantes e saborosos. Contudo se tiver problemas cardíacos ou qualquer questão relacionada com o aparelho circulatório é preferível que utilize a opção do forno.

Empadão de tofu (energia solo: emoção nojo)

Empadão de tofu
Empadão de tofu créditos: divulgação

Ingredientes (4 a 6 pessoas):
2 chávenas de chá de millet
6 chávenas de chá de água
Uma  de abóbora hokkaido em fatias
Um pacote de creme de aveia de cozinha
3 dentes de alho picados
3 colheres de sopa de shoyu
Sal marinho integral
500 gramas de tofu fumado
Uma colher de sopa de manjericão seco
Uma colher de sopa de coentros frescos.

Modo de preparação:
O primeiro passo é lavar e escorrer o millet. Depois de ter escorrido bem o cereal, leve-o ao lume num tacho sem água nem azeite, mexendo sempre para tostar ligeiramente. Quando perceber que a cor do cereal ficou mais dourada, adicione a água para cozer o millet e uma pitada de sal. Deixe cozer até a água estar ao nível do millet e retire do lume nessa altura.

Tempere o tofu fumado, previamente esmagado com as mãos, com o shoyu, o manjericão e os alhos picado. Agora é hora de montar o empadão. Comece por colocar numa assadeira ou num pirex, ½ do millet cozido, seguido da abóbora em fatias polvilhada com uma pitada de sal marinho, do tofu temperado e do restante millet. Cubra com um pacote de aveia de cozinha. Regue com um fio de azeite e leve ao forno, a 180ºC durante cerca de 20 minutos. Na hora de servir polvilhe com coentros frescos.

Granola de trigo sarraceno (energia água: emoção medo)

Granola de trigo sarraceno
Granola de trigo sarraceno créditos: divulgação

Ingredientes (10 porções):
500 gramas de trigo sarraceno em grão
Uma chávena de chá de nozes
Uma chávena de chá de avelãs
½ chávena de chá de sementes de abóbora
½ chávena de sementes de linhaça douradas
2 colheres de sopa de óleo de pevides de abóbora (ou outro de origem vegetal)
6 colheres de sopa de geleia de arroz (ou outro adoçante natural)
Uma colher de sobremesa de gengibre em pó
Uma colher de sobremesa de canela em pó

Modo de preparação:
Misture o trigo sarraceno com as sementes de abóbora, as oleaginosas, a canela e o gengibre. Coloque tudo num tabuleiro que vá ao forno, forrado com papel vegetal. Acrescente a geleia de arroz, o óleo de pevides de abóbora a esta mistura e leve ao forno.

Cozinhe a granola durante cerca de 20 minutos, a 180ºC ou até quando estiver levemente dourada, mexendo-a de 10 em 10 minutos para não torrar. Depois de remover do forno, deixe arrefecer acrescente as amoras brancas e vermelhas desidratadas, ou outras frutas desidratadas a seu gosto. Coloque a granola num recipiente fechado e guarde-a à temperatura ambiente. Sirva com a sua bebida vegetal favorita e se for do seu agrado acrescente fruta fresca da época. Fica delicioso, fresco e nutritivo!

Dica: Eu misturo as frutas desidratadas só na porção que vou comer, assim posso criar mais variedade no meu dia-a dia, pois posso variar o quanto me apetecer.

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