A luta constante por um mundo mais verde é algo que se tem intensificado e, apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer para que todos percebamos o impacto que as nossas escolhas têm para o planeta em que habitamos, são cada vez mais as pessoas que optam por fazer escolhas mais conscientes, nomeadamente ao nível da alimentação.

Temos todos de nos tornar vegan? Não. E vegetarianos? Também não. A escolha é sempre de cada um, mas a verdade é que está mais do que provado que se todos reduzíssemos o consumo de carne (e de peixe), não só a natureza sairia beneficiada, como também a nossa saúde poderia melhorar.

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Atualmente, de acordo com o estudo do "The Green Revolution", Portugal tem mais de um milhão de veggies — pessoas que optam por uma alimentação vegan, vegetariana ou flexitariana (dieta baseada em produtos vegetais que permite o consumo de produtos animais como carne ou peixe algumas vezes ).

Em dois anos, a população portuguesa que pertence à comunidade veggie cresceu 33%, os flexitarianos continuam a representar a maior fatia da comunidade e a preocupação com a saúde lidera a lista de motivações dos consumidores.

Se, por exemplo, optássemos por consumir carne e peixe apenas duas vezes por semana, que impacto teria essa escolha para o nosso organismo e para o planeta?

"Os maiores efeitos dar-se-iam, muito possivelmente, a nível da saúde cardiovascular, mas, dependeria da alimentação da pessoa", começa por explicar à MAGG a nutricionista Ana Isabel Monteiro, acrescentando que relativamente ao meio ambiente, "poupar-se-iam vários litros de água, sobretudo, e a emissão de gases com efeito de estufa seria reduzida".

Ana Isabel Monteiro é nutricionista há cinco anos. Decidiu abraçar a profissão porque a fascina o "poder da alimentação na felicidade e bem-estar das pessoas" e é esse poder que pretende passar através do projeto "Laranja Lima Nutrição". Na sua página de Instagram, onde é acompanhada por mais de 100 mil pessoas, Ana Isabel Monteiro partilha várias receitas vegetarianas, regime alimentar que pratica desde 2018.

"Retirar simplesmente a carne e o peixe também não é saudável"

A nutricionista afirma que a evidência científica prova que "adotar uma dieta de base vegetal tem vantagens a nível da prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, obesidade e até alguns tipos de cancro". E qualquer pessoa pode optar por este tipo de alimentação? "Sim, desde que a alimentação seja bem planeada e adequada", afirma a especialista.

"Ter uma consulta de nutrição é fundamental para entender a base de uma alimentação vegetariana saudável. Diria que uma consulta com o médico também é importante, para saber se está tudo ok a nível de saúde", acrescenta.

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O grande problema está, muitas vezes, em não saber como substituir os nutrientes que alimentos como a carne e o peixe nos fornecem, mas a verdade é que há sempre alternativas. "Essencialmente, a carne e o peixe são alimentos fornecedores de proteína, que podemos encontrar em praticamente todos os alimentos do reino vegetal — à exceção dos açúcares, óleos e fruta — mas as maiores fontes são as leguminosas e derivados (como o tofu), cereais integrais, sementes e oleaginosas."

Como explica a nutricionista, estes alimentos têm ainda a vantagem de fornecerem fibra, vitaminas e minerais. Assim, torna-se fácil perceber que, ao contrário daquilo que por vezes pensamos, talvez o consumo de carne e o peixe não seja obrigatório para uma boa alimentação. Contudo, não basta retirar estes alimentos do nosso dia a dia. "Retirar simplesmente a carne e o peixe também não é saudável, a pessoa tem que saber pelo que substituir", realça a nutricionista.

Nos últimos anos, têm surgido cada vez mais investigações, documentários e estudos que provam e alertam para o impacto negativo que o consumo atual de carne tem para o planeta. Uma das mais recentes, publicada na revista científica "Nature Food", conclui que a produção de alimentos de origem animal na agropecuária, onde se inclui a carne que consumimos, gera o dobro das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) que a produção de alimentos de origem vegetal, avança o jornal "Expresso". O processo de produção destes alimentos é responsável por 17,3 mil milhões de toneladas de GEE por ano (ou um terço de todas as emissões geradas pelo homem), com os alimentos de origem animal a pesarem 57% nestas emissões.

"A alimentação é uma das formas mais eficientes de reduzirmos a nossa pegada"

Em Portugal, a produção de alimentos como a carne, os ovos e os laticínios, seja para consumo interno ou exportação, gera 14 milhões de toneladas de equivalentes de CO2 por ano, 4,5 vezes mais do que os de origem vegetal, escreve o mesmo jornal, que revela ainda dados que dão conta de que os portugueses consomem 3,5 vezes mais carne do que a dose diária recomendada.

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De acordo com a Associação ZERO, já em 2015, face ao que preconiza a Direção Geral de Saúde — que recomenda, em média, um consumo de 90 gramas por dia por pessoa de carne, ovos e pescado — cada português consumia 4,4 vezes mais do que seria necessário deste grupo de alimentos. Ou seja, cada português consumia, num ano, cerca de 178 kg de carne, pescado e ovos, quando deveria consumir apenas 33 Kg.

Para Nuno Alvim, da Associação Vegetariana Portuguesa, é claro o impacto que o consumo excessivo de carne e peixe tem nas alterações climáticas.

"A alimentação é uma das formas mais eficientes de reduzirmos a nossa pegada. Mesmo optando simplesmente por reduzir o consumo de carne e peixe já estamos a dar um grande passo no sentido de reduzirmos a nossa pegada e contribuir para o problema das alterações climáticas", explica à MAGG.

Nascida em 2006, a Associação Vegetariana tem assim como missão ajudar as pessoas que querem optar por este tipo de alimentação a perceber os efeitos positivos e fazer as escolhas mais saudáveis. "A nossa missão é sempre no sentido de informar e não de forçar as pessoas", garante Nuno Alvim, que partilha da opinião de que a questão das alterações climáticas é ainda um tema, "embora muito badalado", comunicado de forma "pouco apelativa e concreta".

"Penso que as pessoas têm dificuldade em compreender, na prática, o que é que podem fazer no seu dia a dia para mitigar este problema. Muitas vezes, relegam as decisões para a comunidade política, mas a verdade é que cada um de nós pode e deve fazer este papel como cidadão e começar a implementar isso no seu dia a dia: uma das coisas seria, sem dúvida, reduzir o consumo de carne e peixe", remata.

Também Ana Isabel Monteiro acredita que a mudança passa por aí. "Os portugueses têm pratos tradicionais essencialmente à base de carne e peixe, mas se formos ver mais a fundo, as leguminosas e os hortícolas também estão muitas vezes presentes (ainda que com um papel mais secundário), pelo que eu acho que poderíamos ir pelos sabores já conhecidos e, simplesmente, adaptar", diz a nutricionista. "Imaginemos uma feijoada que tem a carne, sim, mas também tem vários hortícolas e feijão. Porque não experimentar sem a carne, aumentar o feijão e juntar uns cogumelos para mais sabor e textura? Fica uma delícia", sugere.

Apesar de a realidade ser preocupante, e a mudança cada vez mais necessária, os dados mostram que há cada vez mais portugueses a mudar a sua alimentação.

Preocupação com a saúde é o principal motivo para a mudança alimentar dos portugueses

Na primeira edição do estudo da Lantern, lançada em 2019, concluiu-se que quase 9% da população portuguesa era veggie (vegan, vegetariana ou flexitariana). Este ano, o estudo mostrou que houve um crescimento face a 2019, que atinge quase 250 mil novos veggies, o que se traduz num aumento de 33%. Ou seja, 11,9% da população já se assume como veggie.

Dentro da comunidade, a maior parte destes consumidores (9,3% dos portugueses) consideram-se flexitarianos, ou seja, seguem uma dieta alimentar menos rígida que permite o consumo de carne e peixe de forma ocasional — o que significa que 800 mil pessoas seguem esta dieta.

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Quanto aos vegans (que excluem por completo qualquer produto de origem animal) e vegetarianos (que não incluem carne nem peixe na sua alimentação, mas aceitam os seus derivados), a soma destas duas classes alimentares cresceu 57% face a 2019.

Ainda assim, David Lacasa, da Lantern, alerta para o facto de o crescimento dos veggies não estar a ser sustentado pelos dados de consumo. "Ainda não se verificou uma queda significativa nas vendas da carne vermelha. Se analisarmos os dados do INE sobre a evolução, desde 2010, do consumo humano de carne vermelha, vemos como desde 2013 o volume total de toneladas tem crescido um 7%, mas ainda está 3% abaixo dos dados de 2010. De 2019 a 2020 o consumo caiu um 5% até às 662 toneladas, dados muito relacionados com o impacto da pandemia no consumo fora de casa", diz. 

De acordo com os dados revelados pelo estudo do "The Green Revolution", é ainda de notar que, no que toca ao género, pode-se assumir que a tendência veggie tem crescido, sobretudo, entre as mulheres. Uma em cada sete mulheres é veggie, e apenas um em cada dez homens pertence à mesma classe.

Face a 2019, as motivações dos consumidores em optar por este regime alimentar mantêm-se inalteradas: a saúde é a motivação mais citada pelos flexitarianos, seguindo-se a preocupação com os animais. Para os vegetarianos e vegans, é também a segunda razão para adotar este tipo de dieta. A sustentabilidade é outra das motivações que continua a ser relevante entre os flexitarianos, para adotar esta dieta, mas que desceu de forma importante nesta edição – menos 18 pontos percentuais.

A preocupação com o ambiente, a pegada que deixamos no futuro, representa agora 29% nas motivações dos flexitarianos para mudar a sua dieta este ano, em comparação com 2019, que foi de 47%.

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