Sérgio Tavares, 44 anos, não usa máscara ao pé dos pais, não deixa de beijá-los, de abraçá-los ou de estar na sua companhia. “Eu tenho um pai de 81 anos e uma mãe de 90 anos. Nunca usei máscara, nunca deixei de os abraçar.” E se morrerem depois de contagiados pelo vírus? "A vida é mesmo feita assim. Consigo digerir essa realidade facilmente, porque eles podem morrer de uma onda de calor, de frio. Se podem morrer disso, podem morrer de COVID.”

Além disso, justifica, há “vários relatos de pessoas que vivem na mesma casa, que não tiveram sintomas, uma com positivo e outra negativo, que sempre se beijaram e tudo mais e não houve contágio. Até que ponto é que os assintomáticos transmitem mesmo?”, questiona. Temos resposta para a questão, mas já lá vamos.

DJ e speaker do Estádio de Alvalade, a sua figura tornou-se viral num vídeo que circulou nas redes sociais, no qual surge a discursar num protesto de setembro, contra as medidas e restrições impostas pelo Governo devido à COVID-19. Foi na sequência deste episódio, e inspirando-se em páginas semelhantes, que criou a página de Facebook Jornalistas pela Verdade — apesar de já não exercer a profissão e de já não ter carteira de jornalista. A página conta já com uma comunidade de 35 mil seguidores nesta rede social. “Estão mais jornalistas envolvidos, mas querem manter o anonimato com medo de represálias”, diz.

É contra a utilização generalizada do equipamento de protecção individual, tal como de outras restrições postas em prática pelo governo, que, acusa, está apenas a disseminar a pobreza e a miséria no país, às custas do medo e da repressão. Diz que a COVID-19 não é pior do que a gripe, que o mediatismo é desproporcional à gravidade da doença e considera que nos estão a ser retirados direitos e liberdades.

Surge na fotografia que ilustra o manifesto do movimento a cortar uma máscara com uma tesoura, cuja utilização foi tornada obrigatória pelo Governo em outubro. 

“A imagem é simbólica. Não sou fundamentalista que diz abaixo a máscara”, diz à MAGG o DJ e speaker. “Sou apologista do uso da máscara por quem lidar com doentes ou estiver com sintomas. Se eu hoje acordar e sentir a cabeça mais pesada, devo usar em respeito aos outros. Se não sentir nada, acho que não faz sentido nenhum.”

Não faz sentido mesmo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e as autoridades de saúde do país (e de outros)  recomendem. É que Sérgio Tavares quer ver "evidência científica", mesmo que as supracitadas entidades se baseiem na ciência para emitir as suas recomendações.

“Constatando que os países com maior uso de máscaras são os que têm casos a disparar, parece que quanto mais máscaras se usa, mais casos se têm”, diz. Ficamos confusos. Não será ao contrário? “Também se pode fazer essa leitura. Todas estas medidas são tomadas por suposições. Não há evidencia que diz que a máscara não protege. Há o contrário: acumulação de bactérias e o potencial de problemas respiratórios.”

Será? "À data o que está provado é que a máscara é uma medida de controlo importante e que deve ser transversalmente adoptada, porque controla a transmissibilidade da doença”, diz à MAGG um especialista em Medicina Interna, no hospital Curry Cabral, com sub-especialização em Medicina Intensiva, no hospital de São José, em Lisboa.

Usar máscara "é a diferença entre temos uma cama de internamento ou de cuidados intensivos disponível para uma pessoa que realmente precise.

Não se trata de acabar com o vírus, diz o internista. “As pessoas anti-máscaras veem as coisas a preto ou branco e não é assim que a pandemia funciona. Quem promove o uso de máscara não está convencido de que ela anula o problema do COVID. Ela atenua porque, se calhar, com isto vamos conseguir exercer menos pressão no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e garantimos que conseguimos tratar todas as pessoas que chegam com doença grave. É a diferença entre termos uma cama de internamento ou de cuidados intensivos disponível para uma pessoa que realmente precise.

É na questão da transmissibilidade que reside o grande problema da COVID: a rapidez no contágio, que gera muitos casos positivos. Ainda que a larga maioria dos doentes fiquem a recuperar em casa — um dos argumentos utilizados por Sérgio Tavares para contestar as restrições —, é preciso compreender que quanto mais doentes positivos, mais doentes graves. 

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créditos: Jornalistas pela Verdade

“No início da pandemia, apontava-se que 2,5% dos infetado precisassem de camas nos cuidados intensivos. O problema é que num universo de infetados grande, como que temos hoje, 2,5% facilmente representa o total de camas de unidades de cuidados intensivos do hospital e de uma região”, explica. “Em termos percentuais, há um grande número de pessoas assintomáticas ou doença ligeira que passam por isto de forma relativamente simples. Mas o que acontece é que rapidamente se satura a capacidade do sistema de saúde para as pessoas que precisam de ventilador. Foi isso que aconteceu em Itália ou em Madrid em que rapidamente o sistema de viu assoberbado.”

Tal como as máscaras, as restantes medidas “não pretendem acabar com o vírus”, afirma o internista. “Não é em três ou sete meses que isto se revolve. As medidas pretendem, sim, dispersar o contágio e, desta forma, não saturar o sistema.”

Além do grupo dos auto-denominados Jornalistas pela Verdade, há ainda os Médicos pela Verdade, movimento pioneiro nesta corrente em Portugal, criado a 29 de agosto, e que inclui já mais de 56 mil seguidores na mesma rede social.

Foi fundado por Alfredo Rodrigues (não é médico), autor do canal de Youtube e da página de Facebook “Quero Emigrar”, na sequência de uma entrevista com o médico e membro do movimento Gabriel Branco, Diretor do Servico de Neurorradiologia do Hospital Egas Moniz. Aconteceu a propósito de um artigo de opinião publicado pelo especialista no Observador, sobre a utilização das máscaras (este especialista está a ser alvo de um processo aberto pela Ordem dos Médicos, depois de várias queixas relativas ao facto de passar declarações em que dizia que os utentes em questão não tinham de usar máscara).

É constituído por médicos de várias especialidades, desde internistas a anestesiologista, cirurgiões, ginecologistas, radiologistas, especialistas em Medicina Geral e Famíliar. Inclui ainda psicólogos e dentistas. Não conta, no entanto, com especialistas de Medicina das áreas que lidam mais diretamente com a COVID-19 — isto é, epidemiologistas, infecciolositas ou intensivistas.

Tal como o aquele que foi fundado por Sérgio Tavares, inclui no seu manifesto uma série de pontos de protesto — como a utilização generalizada de máscara e a fiabilidade dos testes RT-PCR. Desvaloriza a COVID-19 e culpa os media e governo de dramatizarem, assustarem e porem em causa as liberdades e direitos da população, considerando que há uma enorme “desproporção entre o mediatismo do fenómeno e a gravidade do mesmo.”

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Nos dois casos, não se nega a existência do vírus, mas vai-se contra as medidas impostas para o controlar. “Não negamos que se trata de uma virose respiratória com repercussões pulmonares que podem ser muito graves nos pacientes com imunidade deprimida, doenças pré-existentes ou idade muito avançada”, lê-se no Manifesto dos Médicos pela Verdade.

"Porém, em caso algum, justifica o exagero dos meios de comunicação social que insistem em realçar constantemente números cumulativos que não correspondem à realidade actual e que só servem para alimentar o medo e o pânico na população.”

COVID-19 vai ser “a história mais disparatada e risível do século XXI”

Carlos Cabrita, cirurgião clínico, é um dos membros deste grupo. Considera que a forma como se está a viver a pandemia vai ser “a história mais disparatada e risível do século XXI”. E questiona a credibilidade da OMS.

“Há muita ciência que hoje se faz que é discutível e de seriedade relativa”, diz. “O que se põe aqui é: sabe-se quase nada sobre este vírus; não se sabe porque é que sobre crianças e jovens saudáveis não faz mais do que uma doença leve; não se sabe porque é que alguns jovens ficam com sintomas de algum modo preponderantes; não sabemos se tudo o que estamos a dizer ou se vem dizendo é verdadeiro. E essa certeza que vem da OMS e dos seus peritos garantindo coisas que não podem garantir é pouco cientifico.” E destaca: “Aceitar que não se sabe é de uma cultura extremamente importante.”

O médico do Curry Cabral faz uma leitura muito diferente. “Não posso partir do principio que a OMS está a agir de má fé ou que vai ativamente basear-se em evidência falsa”, diz. “Não ponho em causa que daqui a uns anos algumas medidas, algumas estratégias que se adotaram nesta altura, caiam em desuso. E que se perceba que não era, afinal, eficaz. Mas isto é uma doença nova com a qual estamos a aprender a lidar há nove meses. Noutra altura, não conseguíamos reunir evidencia à velocidade de hoje. Daí a ver uma teoria da conspiração e que a OMS está a agir de má fé... isto não é diferente de outros surtos e a nossa forma de entendê-lo evolui com o tempo. Até lá, se não quisermos ter o sistema saturado, vamos ter de ter restrições”

O membro dos Médicos pela Verdade usa máscara e respeita todas as regras, porque cumpre a lei. “Eu lido muito bem com a adversidade, com os processos, com a estupidez humana. Quando se faz uma lei, eu cumpro.” Mas isso não significa que não que não questione. Era o que mais faltava: que no direito de ter opiniões nos impedissem de as ter.”

Um teste positivo corresponde sempre a doença? Talvez não, mas mais vale prevenir

Um dos primeiros pontos que debatemos com o membro dos Médicos pela Verdade diz respeito aos testes RT-PCR, que, diz o manifesto, “não foi de modo algum criado para fazer este tipo de diagnóstico, leva a um elevado número de falsos positivos o que está de acordo com a elevadíssima percentagem de casos assintomáticos.”

Referindo a margem de erro dos testes, alerta ainda para as diferentes técnicas com que são cada operador os executa, o que, alegadamente, põe em causa a fiabilidade dos resultados. Mas, para Cabrita, a parte mais relevante é esta: “O que é estranho confundir-se doença com positividade”.

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Jornalistas pela Verdade

“Um teste positivo pode não corresponder a uma doença ativa. A questão é que não há evidencia robusta que permita dizer quando é que um teste molecular positivo não corresponde a doença”, diz o médico do Curry Cabral.

"No contexto atual é arriscado dizermos que quem tem positivo não corre o risco de infectar ninguém. É uma coisa que nos pode sair muito caro, enquanto sociedade.”

“Estão a questionar os falsos positivos, mas ainda não temos evidência suficiente para emitir uma normativa que diga em que pessoas em que se pode desvalorizar o positivo daquele teste. Não é tão preto no branco. Se daqui a uns anos interpretamos resultados da mesma forma? Talvez não. Talvez interpretemos melhor a doença. Mas no contexto atual é arriscado dizermos que quem tem positivo não corre o risco de infectar ninguém. É uma coisa que nos pode sair muito caro, enquanto sociedade.”

Para Carlos Cabrita faria sentido proteger quem precisa de ser protegido. “Protejam-se os grupos de risco”, diz, numa alusão a “pessoas gordas e que têm muita patologia.” De resto, a vida deve ser levada normalmente, defende, ressalvando, no entanto, a manutenção de alguma distância de segurança entre pessoas, sobretudo quando se trata de ajuntamentos.

Mas não é assim tão simples, porque pessoas jovens infectadas podem infetar. Lá está: o perigo da transmissibilidade. “É claro que para uma pessoa de 20 ou 30 anos, se vier a estar infetado, poderá ter uma doença leve. A questão é que o grande número de pessoas jovens infetadas aumentam a probabilidade de infectar pessoas mais velhas grupos de risco”, diz o intensivista. E reforça: “O grande ónus deste vírus é a transmissibilidade”.

O profissional de saúde do Curry Cabral dá o exemplo de outros países: “Houve países que tiveram uma abordagem menos agressiva quanto às restrições, nomeadamente a Suécia. A estratégia deles era essa: limitar a circulação das pessoas idosas e imunodeprimidas, deixando as pessoas mais jovens fazer a vida normal. Ao fim de umas semanas, tiveram de impor medidas mais restritivas. O que se verificou foi que nem assim tinham conseguido imunidade de grupo. Em Madrid onde a pandemia saturou rápido o SNS, fizeram um estudo semiológico à população no verão e verificaram que estavam longe da imunidade de grupo.”

“Fazer a vida como antes não é prudente. Vai correr mal”

Por mais que se queira, como sociedade, não se pode ignorar a existência do vírus. “Fazer a vida como antes não é prudente. Vai correr mal”, diz. Concorda que se possam ir revendo algumas medidas, mas novamente reforça o grande objetivo do plano ao combate à COVID-19: dispersar os casos graves para que haja sempre camas disponíveis para tratar doentes que precisam de cuidados intensivos.

“Claro que vamos ter de encontrar um ponto de equilíbrio. Não podemos viver confinados para sempre e vamos ter de assumir algum risco. Mas também temos de perceber que temos de adaptar alguns comportamentos. Não podemos assumir que está tudo igual, porque não está.”

Ainda assim, para Carlos Cabrita a insistência na criação de restrições para combater o vírus resume-se à incapacidade de os líderes admitirem alegados e sucessivos erros. “Tem tudo a ver com pessoas e as pessoas cometem erros. O problema é que se inventem sucessivos mecanismos para impedir que os outros percebam que se errou”, diz, acusando o executivo de António Costa e as autoridades da propagação da ideia “o mundo vai acabar, vão morrer milhões de pessoas” e da tortura dos números “distorcidos” transmitidos diariamente em conferência de imprensa.

“Desde abril que sabemos que não é o Armageddon”, repete, várias vezes, Carlos Cabrita. “Chegamos ao ridículo de abrir noticiários com uma notícia que diz que ‘morreu Manuel Fonseca de 95 anos por causa da COVID. É uma afronta. As pessoas lúcidas lutam melhor contra uma pandemia.”

O intensivista admite que há alguma “dramatização” e “alarmismo” mediático que roubam a objetividade à questão em que assenta o problema: controlar o contágio para que o SNS consiga dar resposta a todos os doentes.

Quando se fala do Serviço Nacional de Saúde (SNS), Carlos Cabrita diz que os hospitais “estão longe de entrar em ruptura” no que se refere às camas para tratar doentes COVID. A conversa com o médico decorreu a 5 de novembro, altura em que havia 2362 pessoas internadas, das quais 320 em cuidados intensivos. Esta segunda-feira, 16 de novembro, o número é de 3040 pessoas internadas, das quais 426 em cuidados intensivos.

“O volume de doentes que precisa de cuidados intensivos é muito inferior ao total”, diz. Porém, como já explicou o especialista do Curry Cabral, isto não quer dizer que haja espaço no SNS: é que quantos mais doentes infetado em simultâneo se somam, maior o número de camas de hospitais necessários.

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João Gouveia, presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, alertou na sexta-feira, 6 de novembro, para o perigo de rutura: “Com quatro mil casos de COVID-19 por dia, e sabendo que cerca de 2,5% precisam da medicina intensiva, vamos ter 100 doentes críticos. Em 10 a 12 dias teremos mil doentes e os cuidados intensivos entrarão em colapso”, disse ao "Expresso". "Só aguentamos cerca de 500 doentes COVID críticos ao mesmo tempo."

Existe um total de 900 camas de unidades de cuidados intensivos (para doentes COVID e não COVID), das quais 426 pessoas estão a ser, atualmente, utilizadas para tratar doentes infetados pelo novo coroanavírus, segundos os últimos dados disponibilizados pela Direcção-Geral da Saúde.

Por outro lado, Cabrita frisa que a ameaça de colapso do SNS não é exclusivo deste ano pandémico, afirmando que é algo que, ano após ano está na iminência de acontecer, por culpa dos sucessivos governos que o têm vindo a enfraquecer, responsáveis pelo seu estado atual.

"Podemos estar uma semana a falar dos problemas estruturais SNS que deixam uma faixa populacional mais vulnerável ao contágio. Agora não é de março até novembro que se resolvem esses problemas”, diz o intensivista.

"Nós temos que trabalhar com os meios que temos à disposição e depois aprender e estruturar o sistema de outra forma. Mesmo os países com sistemas de saúde mais estruturados se viram assoberbados. Não é um problema só nosso. Podem argumentar que há problemas de organização ou estruturais, mas seja como for não são os que se resolvem agora, não passa por ignorar o problema atual. É preciso lidar com ele. Fora desta crise, temos de tirar ilações, com isso estou totalmente de acordo.”

Tanto os Médicos pela Verdade como os Jornalistas pela Verdade referem que já houve surtos de gripe tão graves como o atual — mas que esses não mereceram o mesmo mediatismo.

Mas não é bem a mesma coisa: “Se olharmos para os números de casos, a diferença não é assim tão grande. Mas estamos a falar de uma doença nova, com alta taxa de contágio, com uma transmissibilidade superior à da gripe, com mais doentes que desenvolvem doença grave, o que representa uma sobrecarga para o sistema.”

“Matámos cinco mil pessoas porque estamos preocupadas com outras duas mil”

Um das consequências geradas pela COVID-19 que mais indigna os dois movimentos pela verdade tem que ver com o aumento no número de mortes não COVID, superior ao do período homólogo.

“Se calhar cometemos um erro muito mais grave: o de suspender o tratamento de muitas outras pessoas. Matámos cinco mil pessoas porque estamos preocupadas com outras duas mil ”, diz. "Não se procurou resolver um cancro de pele, que se resolve num instante se for pequeno e que mata se for grande. E esta vergonha para o SNS deve-se a uma ineficiente gestão de todo o processo.”

Neste ponto, o internista concorda: “O COVID não deve ser desculpa para negar cuidados a pessoas com outras patologias. Estou inteiramente de acordo”, diz, acrescentando que, por um lado, pode ter havido pessoas que viram consultas adiadas e, por outro, doentes que tiveram receio de recorrer ao hospital.

“O problema não recai nos doentes urgentes. No auge da pandemia, um doente com trauma grave por contexto de acidente de viação, por exemplo, não deixa de ser atendido. O problema recai sobre patologias que precisam de ser orientadas rapidamente, mas não de forma urgente, que acabam por chegar já muito atrasadas.”

É difícil separar o problema da COVID-19 da política, diz Carlos Cabrita, devido ao “cataclismo de medidas que são contra os direitos das pessoas e das suas liberdades”, que nascem da ideia de que se "vai controlar aquilo que não é do seu conhecimento.”

Faz referência ao filosofo italiano Giorgio Agamben: “Sobre o Estado de Sítio ou de Emergência, especificou que sempre que se diz que ‘o estado diz', que o 'estado diz que não podemos sair de casa', ele está a violar direitos. Neste caso, os da educação, da saúde, da justiça portuguesa, que está parada há meses." E questiona, acerca do governo e autoridades de saúde: “E se eles estiverem errados?”

O internista e intensivista sublinha que quem descredibiliza a doença, é porque não está atento às taxas de ocupação das enfermarias COVID, sobretudo no norte do país, onde a incidência é maior. “Mesmo em Lisboa, o ponto de saturação não é tão grande, mas a pressão sobre as vagas é. Neste momento, quem trabalha percebe que não é preciso muito para saturar as vagas disponíveis."

É o coletivo que importa, sublinha: “Isto são medidas que têm como objetivo diminuir o contágio em termos civilizacionais. Não podemos olhar para isto em termos individuais. São medidas que têm de ser tomadas de forma abrangente para surtir efeito.”

Sobre todas estas alegações e teorias, o médico é claro a dar a sua opinião: “Essas pessoas não querem uma discussão fundamentada em evidencia. Têm uma crença e depois sustentam essa crença com evidência sombria e duvidosa. E não ao contrário.”

Para a Ordem dos Médicos, o caminho "é e será sempre o caminho da ciência”

Em ambos os movimentos pela verdade, o murais das respetivas contas de Facebook são marcadas por publicações que já foram caracterizadas como falsas, perigosas e sustentadas em pseudo-ciência.

Em relação ao grupo Médicos pela Verdade, o bastonário da Ordem dos Médicos, reconhece e considera que “o crescimento de grupos conhecidos como negacionistas” representa “uma ameaça à pandemia, ao disseminarem informação errada e que pode contribuir para a não adesão dos cidadãos às medidas essenciais como uso de máscara, higiene das mãos e distanciamento físico/social.”

“Mas no que é mais urgente – máscaras, etiqueta respiratória, higiene das mãos e distanciamento – não existem dúvidas de que são medidas eficazes.”

Confirma que há queixas ligadas à atuação de alguns dos profissionais que integram o movimento, afirmando que o caminho da Ordem dos Médicos"é e será sempre o caminho da ciência”, realçando que esta pandemia veio “reforçar a importância de uma enorme ligação entre investigação e prática clínica e deixar de lado a pseudociência.”

Destaca aquilo que foi feito nos últimos nove meses: “Em pouco tempo aprendemos mais sobre este novo coronavírus e sobre a melhor forma de tratar os doentes, mesmo sem vacina ou tratamento dirigido, do que em qualquer outro momento da história”, diz.

Sobre as discrepâncias em algumas medidas e recomendações, assume que a velocidade a que saem estudos pode resultar na alteração de estratégias: “A publicação de estudos tem sido feita a uma velocidade muito grande, pelo que é natural que vamos conhecendo factos novos e alterar alguns procedimentos.”

Destaca o essencial, refutando o que é defendido por estes movimentos: “Mas no que é mais urgente – máscaras, etiqueta respiratória, higiene das mãos e distanciamento – não existem dúvidas de que são medidas eficazes.”

Esta segunda-feira, 16 de novembro, a Direcção-Geral da Saúde anunciou mais 3.996 casos positivos de COVID-19 em Portugal e mais 91 mortes. Foi o pior dia de óbitos desde o início da pandemia.

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