A crise económica e o desemprego provocados pela pandemia de COVID-19 levaram a um "aumento brutal" de mulheres na prostituição por uma questão de "sobrevivência". O panorama é traçado por Ana Loureiro, proprietária de uma casa de prostituição em Lisboa e defensora da legalização do setor, que adianta que surgiu ainda um fenómeno que não acontecia há vários anos.

"Há mais familiares a trabalhar uns com os outros: mãe e filha, tia e sobrinha, irmãos, mulheres casadas... Aquilo que não se via há muitos anos e está a verificar-se novamente por causa do desemprego causado pela COVID-19", revela Ana Loureiro ao "Jornal de Notícias". A proprietária de uma casa de prostituição em Lisboa adianta ainda que os preços baixaram e que há mulheres a cobrar entre 5 e 20€ — tendência contrária ao que está a acontecer em Espanha.

Na zona industrial de Villaverde Alto, em Madrid, apesar de a atividade ter diminuído, as prostitutas que continuam a prestar serviços cobram o mesmo valor ou até mais elevado aos clientes regulares, de acordo com o jornal "El País".

Os valores praticados em Portugal espelham as dificuldades financeiras pelas quais mulheres, mas também homens — principalmente do Porto — passam, circunstância que se reflete ainda no aumento dos pedidos de apoio social a instituições de solidariedade que apoiam prostitutas. 

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É o caso da associação "O Ninho", na qual "há muitas mulheres que pedem rendimento social de inserção e apoio para os filhos", relata Conceição Mendes, assistente social da associação. Também Carla Fernandes, da direção técnica da instituição Irmãs Oblatas, diz ao "JN" que todas as semanas contactam com "novas mulheres que retomaram ou iniciaram a atividade devido à perda de empregos formais e ausência de rendimentos".

Já no Porto, a associação Porto G indica que "houve um aumento de pedidos de apoio social, nomeadamente esclarecimento de questões sobre medidas de apoio ou de apoio alimentar durante o confinamento".

As fragilidades estão à vista nacional e internacionalmente, uma vez que o panorama repete-se no Reino Unido, onde chegam cada vez mais pedidos às instituições e a capacidade de resposta é cada vez mais escassa. "Os serviços já estão sobrecarregados e a lutar para corresponder à procura e às necessidades", afirma Jen Riley, diretora de operações da instituição One25, em Bristol, ao "The Guardian". 

Como forma de travar a precariedade do setor durante o segundo confinamento, pelo qual também o Reino Unido está a passar, o English Collective of Prostitutes (ECP), um grupo que apoia a descriminalização da prostituição, já pediu ao Governo britânico para avançar com apoios, de acordo com a BBC. Estes permitiriam aliviar a situação económica dos trabalhadores do sexo, que muitas vezes têm de escolher entre ir trabalhar e colocar a saúde em risco — por contactarem com clientes e estarem vulneráveis à contaminação com COVID-19 — ou deixar as famílias passar fome.

Proteção contra a COVID-19

O risco de contaminação está sempre iminente, mas por Portugal os moldes de funcionamento alteraram-se e as máscaras e o álcool gel passaram a andar com as prostitutas. "No contexto da rua, percebemos que, por uma questão de imagem, nem sempre têm a máscara colocada. No entanto, quando a equipa aparece colocam-na ou referem que têm na mala", refere Carla Fernandes das Irmãs Oblatas, que relata ainda mudanças nos serviços em apartamentos, nos quais há uma "maior preocupação com a limpeza, a desinfeção dos espaços e a higiene dos clientes".

Devido ao confinamento, as casas, bem como os hotéis, passaram a ser o local de eleição para a prostituição em Portugal, mas cá e lá fora surgiram outras formas de prostituição. É o caso do online, que empurrou várias mulheres no ano passado para estas plataformas, embora algumas trabalhadoras do sexo britânicas tenham reconhecido à BBC que não é fácil de conseguir clientes neste meio. Ainda assim, a procura por pornografia foi elevada nas semanas que se seguiram ao início da pandemia, com destaque para países como a Dinamarca, Israel, Bélgica, Suíça, Tailândia, Canadá ou Espanha.

A internet foi também o recurso usado no estado do Nevada, nos EUA, onde as casas legais de prostituição foram encerradas e alguns dos encontros passaram para o online, relata o "The Independent".

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