É uma das poucas celebridades portuguesas a falar abertamente sobre a dependência de substâncias. Em entrevista ao podcast do Observador Labirinto - Conversas sobre Saúde Mental, conduzido pela jornalista Sara Antunes de Oliveira, o ator e médico, de 43 anos,  relembra o momento em que percebeu que tinha de pedir (novamente) ajuda. Coincidiu com o dia da morte do ator Rodrigo Menezes, de quem era amigo, em março de 2014. Zeca ligou à mãe e admitiu que precisava de auxílio para parar uma rotina de consumo desregrado. "O meu padrão era de sexta a domingo, sem parar. Eram três dias sem ir à cama e, claro que isto, depois, tem repercussões na semana de trabalho", conta.

Quatro anos antes, em 2010, o ator havia assumido, numa mediática conferência de imprensa, que tinha um problema com o álcool e que iria submeter-se a um tratamento. Ladeado por André Cerqueira, à época diretor de programas da TVI, e por Júlia Pinheiro, na altura diretora de formatação de conteúdos do canal, Zeca, revelava que tinha pedido à estação para ser afastado da novela "Mar de Paixão" e que iria tratar-se.

José Carlos Pereira
Em 2010, numa conferência de imprensa promovida pela TVI, José Carlos Pereira revelava problemas com álcool créditos: Reprodução IOL

"Tenho um problema e reconheço que tenho de me tratar. Dirigi-me à TVI há cerca de dois meses para ser afastado da novela a fim de me submeter a um tratamento rigoroso e específico. A TVI apoia esta minha decisão e quando terminarem as gravações de 'Mar de Paixão' irei tratar este meu problema de saúde. Este é o meu objetivo de vida prioritário neste momento. Conto, como sempre, com o apoio dos meus amigos e, sobretudo, da minha família nesta fase difícil da minha vida", dizia em 2010.

Quatro anos depois, José Carlos Pereira internou-se no Centro de Tratamento Internacional de VillaRamadas, onde esteve durante quatro meses. Na altura, o ator tinha sido afastado do elenco da novela "Jardins Proibidos" e viu publicamente exposta a sua fragilidade, num vídeo divulgado pelo "Correio da Manhã". Sobre o internamento, recorda que o que mais lhe custou foi a "privação de liberdade".

"Não tenho nada a esconder. O meu passado foi o meu passado"

No podcast Labirinto, Zeca explica que o seu problema não era só o álcool. "Estamos a falar de tudo. Começa com o álcool, com uma coisa social. Ainda há pouco estive a olhar para trás, para como é que isto tudo começou e, numa conversa, apercebi-me que houve uma altura em que eramos pagos para sair à noite", recorda, referindo-se às chamadas "presenças" pagas em bares, discotecas e festas, uma prática muito habitual durante a década de 2000.

As chamadas "presenças", o "barulho das luzes", como José Carlos Pereira lhes chama, foi o início da dependência de substâncias. O ator, que se tornou famoso na novela "Anjo Selvagem", tinha 21 anos e foi nessa altura que começou a consumir drogas. "Muito tarde nos apercebemos que há aqui qualquer coisa que não está a funcionar porque já não sabemos sair sem utilizar determinadas circunstâncias", explica.

Novelas produzidas pela Plural
"Anjo Selvagem" (2002) créditos: TVI

"Isto acaba por afetar todas as áreas da nossa vida", conta, referindo-se aos compromissos que falhou, profissionais seja familiares, e que o levaram a ser afastado de vários projetos televisivos.  O ator de 43 anos reflete também sobre os rituais da adição, os enganos, as mentiras que dizia a si mesmo para contornar o facto de ter um problema com o álcool. "As substâncias que eu consumia, álcool e cocaína, que são um upper e um downer, uma controla a outra, não têm uma grande ressaca física. Mas a verdade é que é muito mais a componente psicológica de não saber estar, de não me saber divertir numa determinada situação, começa a mexer connosco interiormente. Vemos toda a gente a divertir-se e nós também queremos. Se não queremos sentir aquilo temos de nos afastar, não há outra maneira. Aqui não há super heróis".

O ator fez um "programa de 12 passos, espiritual". "É uma luta contra nós próprios e para sempre. reaprendemos a viver de outra maneira. Neste momento, eu faço desporto todos os dias. A mudança de hábitos é extremamente importante para esta recuperação. Mas é uma luta constante. Imagine, estar num ambiente de festa. Vou a jantar, as pessoas bebem, mas eu não posso, eu não quero. Eu hoje não vou beber e não bebo. E se me sentir incomodado, vou-me embora. Agora, não vou estar ali a lutar contra mim próprio. Isso é estarmos a alimentar a doença", reflete.

Depois do segundo tratamento, José Carlos Pereira conta que tentou ter uma relação social com as bebidas alcoólicas mas cedo percebeu que não era esse o caminho. "Experimentei voltar a beber mas fiquei com medo. Mas sempre me dei com amigos do tratamento, que me chamavam à atenção. Sempre fui e continuo a ser balizado", explica. "Neste momento não bebo de todo", diz, acrescentado que vive um dia de cada vez. "Houve um dia em que escolhi beber e senti que estava a pecar", recorda. A mudança de hábitos, e de companhias, permite ao ator seguir a sua filosofia de vida e manter hábitos de vida saudáveis, como correr com um grupo de pessoas às 5 da manhã. "Se calhar na altura não tive barreiras e não me soube defender".

O peso de ser figura pública foi "uma das coisas mais difíceis de ultrapassar". "Foi o ter ficado rotulado. Porque a verdade foi essa: acabamos por ter um rótulo. Depois, os primeiros dias cá fora, não deixamos de ter a profissão que tínhamos. E ter de levantar a cabeça e assumir aquilo que tinha acontecido. Há uma frase que se diz, que é 'fake it till you make it' ["finge até concretizares", em português], e muitas vezes temos de fazer isso".

José Carlos Pereira. "Aceito o meu passado e não o vou esquecer, para não voltar para lá"
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José Carlos ri-se quando questionado se acha que alguma vez vai perder "o rótulo". "Eu não tenho nada a esconder. O meu passado foi o meu passado. Neste momento sou esta pessoa. O rótulo as pessoas podem por ou não, isso já não me incomoda muito. Há pessoas que se vão sempre lembrar, como eu me lembro, derivado à exposição mediática que tive na altura, mas acho que a vida se vai fazendo no dia a dia. Só essa consistência é que vai conseguir mudar alguma coisa. Se vou estar a pensar nos rótulos, rapidamente me vou desmotivar. E isso não quero".

Festa é Festa - apresentação
Ana Guiomar, José Carlos Pereira e Cristina Ferreira créditos: TVI

José Carlos Pereira é pai de três rapazes: Salvador, de 5 anos, fruto da relação com Liliana Aguiar, Tomás, de 16 meses e Afonso, de um mês. Os filhos mais novos são fruto da relação com Inês de Góis. Neste momento, além de integrar o elenco da novela da TVI "Festa é Festa", é médico, especializado em Medicina Estética e Anti-aging.

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