Eles estão novamente de costas voltadas e prontos a atacar sempre que pressentem a fragilidade das suas presas. Os ricos e poderosos exploram a fraqueza, importando-se pouco sobre se isso é ético ou não. É que no mundo extravagante e pouco escrupuloso dos privilegiados e sacanas de "Succession", não há redenção possível e, por isso, ser decente é perda de tempo e atividade deixada para a plebe.

Esta teoria é posta à prova em inúmeros momentos da terceira temporada da série, que regressou esta segunda-feira, 18 de outubro, à HBO Portugal. Um deles acontece no início da história. Este artigo contém spoilers da terceira temporada da série e não deve continuar a lê-lo a partir daqui se não quiser saber alguns dos detalhes dos novos episódios. Não diga que não foi avisado.

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Depois de se evitarem mutuamente ao longo de vários dias, na sequência da conferência de imprensa explosiva que encerrou a segunda temporada da série — em que Kendall (Jeremy Strong) recusou sacrificar-se pela empresa e acusou o pai, Logan (Brian Cox), de ter conhecimento e de encobrir os crimes ocorridos na empresa de cruzeiros que compõe o império da família — pai e filho reúnem-se com um dos investidores, Josh Aaronson, interpretado por Adrien Brody.

A grande preocupação de Josh, explica-lhes o próprio, é perceber quem poderá assumir o controlo do império se a investigação por parte do Departamento de Justiça americano se concretizar em detenções.

"Vocês devem pensar que sou um ricalhaço que não faz nada da vida e que investiu na vossa empresa porque estava aborrecido. Mas é com o meu dinheiro que andam a brincar", diz-lhes Josh, que incentiva Kendall a pôr fim à cruzada que lançou contra o pai. O encontro, no entanto, termina com o investidor a retirar a confiança a Logan. O motivo? O facto de o ter visto fraquejar à sua frente.

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O momento, ainda que pouco relevante no grande plano da nova temporada, é paradigmático da crueldade da série. Afinal, os ricos de "Succession" são intolerantes a demonstrações de fragilidade e são implacáveis sempre que a pressentem, atirando as mandíbulas às gargantas uns dos outros para o golpe final. Josh Aaronson é uma personagem secundária, como são todos aqueles que não compõem o seio familiar, e que serve apenas para dar corpo ao caos que afeta os que são próximos da família Roy.

Já vimos os primeiros episódios da nova temporada e mostramos-lhe, com spoilers, o que pode esperar durante as próximas semanas.

Não há pandemia em "Succession", porque os ricos não a sentem

Passaram-se cerca de dois anos desde o final da segunda temporada da série. Nesta terceira, que começará a ser disponibilizada semanalmente na HBO em Portugal, a pandemia da COVID-19 não faz parte da história.

A explicação é simples: os ricos não a sentem na pele. As palavras são de Sarah Nook, a atriz que dá vida a Shiv. "Jesse Armstrong [o criador da série] decidiu logo ao início que os guiões da série não iriam ser rescritos para incorporar a pandemia na história. Estamos a falar de personagens bastante ricas. Infelizmente, nenhuma das pessoas mais ricas do mundo foi afetada pela crise sanitária", explicou a atriz em entrevista à revista "Vulture".

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E ainda que a terceira temporada de "Succession" tenha sido gravada em contexto pandémico, nada sugere isso. As ruas surgem sempre muito movimentadas, há várias cenas gravadas no interior e, em todas, as personagens estão próximas umas das outras numa altura em que se pedia distância.

"Succession" foi, no entanto, afetada pelo surto do vírus. Mark Blum, que deu vida a Bill Lockhart (o responsável pela empresa de cruzeiros), morreu devido a complicações decorrentes de infeção por COVID-19 e tanto Alan Ruck como Bryan Cox foram infetados.

Quando a temporada começa, os protagonistas já se dividiram em equipas

Logo no primeiro episódio da nova temporada percebemos que, de um lado, estão Logan, Shiv, Roman, Gerri (J. Smith-Cameron), Tom (Matthew Macfadyen) e Frank (Peter Friedman). Do outro, estão Kendall e Greg (Nicholas Braun).

A temporada começa com Kendall a montar uma estratégia para reforçar a sua marca pessoal. Há que contratar advogados, agências de comunicação, representantes e outros profissionais que o ajudem a participar em entrevistas em direto para vários órgãos de comunicação social e a dinamizar as suas redes sociais. O objetivo? Elevar a figura de Kendall e torná-la o mais amigável possível junto do público.

O protagonista diz-se solidário com as vítimas dos crimes ocorridos dentro da empresa Waystar, mas nunca perde um minuto que seja a falar com nenhuma delas. Afinal, isso dá trabalho, sujeita-o ainda mais ao escrutínio e obriga-o a sair da sua zona de conforto. Estes ricos não querem saber de ninguém a não ser deles próprios. É esta a mensagem de "Succession".

Precisa de mais provas disso? Cá vai: Kendall ocupa a casa da ex-mulher para juntar advogados, agentes e representantes. O incómodo que isso implica na vida dela? Interessa-lhe zero.

Succession
Na terceira temporada de "Succession", Kendall está constantemente ao ataque créditos: HBO

Além disso, percebemos de imediato que esta nova faceta de ativista ("que se lixe o patriarcado", ouvimo-lo, a certa altura, dizer) é uma fachada. Na verdade, apenas lhe importa arruinar o pai por alguma vez ter considerado sacrificar o filho para evitar a prisão.

Com amigos destes, quem precisa de inimigos?

Ao longo de todo este processo de solidificação da sua imagem, Kendall tenta, por diversas vezes, aliciar Roman e Shiv a mudar de lado e a apoiarem-no na sua cruzada contra o pai. Eles ponderam, claro, porque têm de ter em consideração aquilo que poderá ser melhor para si no futuro, mas acabam por recusar. Não sem antes ouvir todos os planos que o irmão tem para acabar com a reputação do patriarca, depois de ter passado a vida toda a ser desprezado e apelidado como drogado instável.

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Roman, sempre receoso da ambição do irmão, tenta por diversas vezes minar-lhe a reputação. O mesmo se pode dizer de Shiv que, uma e outra vez relegada para segunda plano, está pronta para conquistar o seu lugar. O custo pode ser alto demais, percebemos logo no primeiro episódio.

Ao longo dos episódios de "Succession", vamos vendo todas as personagens a equacionar a posição em que se encontram e qual dos lados poderá, afinal, facilitar-lhes a vida. É um verdadeiro jogo de xadrez para derrubar o Rei.

O ciclo inquebrável de vingança entre irmãos

Na nova temporada de "Succession", Kendall está constantemente ao ataque. Se, inicialmente, consegue roubar os advogados ao pai, para que o defendam a si e não a Logan, depressa se vira também contra a irmã. Ainda que queiramos ver, afinal, quando é que Logan cairá, talvez Kendall seja a personagem mais trágica desta história.

É que, quando não está a atacar o pai, está a usar os irmãos como saco de pancada. "Não sei se alguma vez conseguiremos ultrapassar isto, Shiv", diz-lhe Kendall a propósito dos inúmeros ataques que ambos foram trocando entre si. Ainda que no tom de voz se sinta alguma ironia e desprezo, os olhos tristes da personagem mostram-nos que, talvez, sinta mesmo o que está a dizer. Talvez o único momento em que o vemos sentir alguma coisa.

O desdém pelo filho mais ambiciosos do clã Roy é transversal a todos os irmãos. É o facto de não sabermos quais são os limites de todos os envolvidos que faz da série tão divertida, ainda que caótica.

O eterno jogo de cadeiras que está sempre a mexer

Devido à gravidade das alegações sobre toda a família Roy, a sua posição na sociedade e no mundo empresarial é posta em causa e há, até, conversas com altos cargos do governo sobre o que está a acontecer.

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Kendall tenta solidificar a sua imagem pública. Mas é tudo uma fachada créditos: HBO

Tudo isto serve como auxílio de memória para nos fazer entender que as decisões da família afetam outros ricos cujos interesses devem ser preservados.

Com a gravidade das alegações, Logan pondera, tal como na primeira temporada, subir alguém que tome o seu lugar em público. Ainda que seja este jogo de sucessão que dá nome à série, é um fachada, claro, já Logan que continuará a controlar tudo nos bastidores.

Ao longo deste processo, os filhos voltam a fazer de tudo para terem o reconhecimento do pai. Percebemos que os mais fracos são os primeiros a cair, mesmo que sejam de sangue.

Mais uma vez, a intolerância à fragilidade. Estes ricos querem-se rijos e robôs, incapazes de sentir coisas.

Em "Succession", até o dinheiro é insignificante

Na primeira temporada, um dos filhos oferece um relógio Rolex, de mais de 5 milhões de dólares [cerca de 4 milhões de euros] a Logan que o deita para o lixo sem pensar duas vezes. Ainda que os protagonistas de "Succession" se façam valer do seu dinheiro para aguentar o estatuto que têm na sociedade, até isso é, a certo ponto, insignificante.

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Uma das armas ponderadas para destruir a imagem de Kendall implica chantagear alguém com quem o próprio se cruzou há vários anos. Para corromper alguém que, apesar do encontro com Kendall, nunca guardou rancor do episódio que protagonizaram juntos, é-lhe oferecida uma quantia milionária em troco da sua colaboração. O número é atirado ao ar com a hipótese de que, se necessário, possa vir ser aumentado. Afinal, estes ricos têm os cofres cheios.

No universo de "Succession" resolve-se tudo assim. Até o dinheiro é insignificante. A série, que se movimenta entre a tragédia e a comédia, mostra-nos os podres de quem faz de tudo para espezinhar o outro. Mesmo que, para isso, se recorra a estratagemas cáusticos e tão mesquinhos que nos fazem rir. Há sempre uma resposta torta, um soco vindo do nada e situações hilariantes que emergem por entre o caos.

E nós, espectadores, tornamo-nos naqueles sacanas irredimíveis ao rir da desgraça alheia. Talvez o ponto seja esse.

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