O tema é polémico e continua a gerar discussão. Com o fim do estado de emergência em Portugal e início da segunda fase de desconfinamento, a data de 18 de maio marca também a abertura das creches, embora até ao fim de maio os apoios aos pais em assistência familiar ainda se mantenham. Entre as dificuldades em manter o distanciamento social entre crianças e o perigo de contágio, a decisão do governo em arrancar com a abertura das creches em primeiro lugar (o pré-escolar abre apenas a 1 de junho) não caiu bem junto de muitos educadores de infância.

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"Do ponto de vista exclusivo dos interesses da criança, esse regresso não deveria, de todo, acontecer", escreveu a Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) num comunicado, divulgado a 10 de maio, onde se manifestou muito preocupada com o regresso às instituições. Outros educadores com que a MAGG falou aqui também se mostraram receosos com a abertura das creches, e principalmente com as dificuldades em manter as crianças afastadas umas das outras, bem como dos funcionários.

Mas nesta segunda-feira de abertura das creches depois de quase dois meses encerradas, o que se está a passar nas instituições? Receberam muitas crianças ou estão a funcionar a meio gás?

Medição de temperatura, sapatos na escola e almoços por turnos

Em linha com as recomendações de segurança da Direção-Geral da Saúde, a Horizonte Sagrada Família, uma IPSS no concelho de Cascais com berçário, creche e pré-escolar, está a pedir aos pais que deixem as crianças à porta e que tragam um par de sapatos extra, que são trocados de manhã e à tarde, e permanecem na creche durante todo este período, sendo limpos e desinfectados diariamente.

"Para o berçário, pedimos também uma roupa extra, que usam na escola, para a creche só mesmo os sapatos, dado que andam de bibe o dia todo. Em relação aos funcionários, ninguém entra sem fardas, máscaras e proteção de sapatos", explica à MAGG Madalena Nunes, diretora técnica do Horizonte Sagrada Família.

Para além destes cuidados, a temperatura é medida a funcionários e crianças duas vezes ao dia, e o almoço é feito por turnos. "As crianças do berçário sempre almoçaram no próprio berçário, por isso não vão para o refeitório", refere Madalena Nunes, que explica que esta segunda-feira o berçário apenas tem duas crianças. Em relação às cerca de 30 crianças que hoje foram para a escola — são 130 as inscritas no berçário e creche —, a separação ao almoço vai ser feita por salas. "Primeiro vão as da sala de um ano, depois as da sala de dois."

Outra medida de segurança é a proibição da entrada de pais no interior das instalações sem máscara, e só o podem fazer se necessitarem de tratar de algum assunto na secretaria, mas apenas por marcação prévia.

"Não é fácil manter as crianças separadas"

O distanciamento social entre crianças com menos de três anos entre elas, ou mesmo entre as crianças e funcionários, é uma das medidas mais discutidas e difíceis de cumprir. E este primeiro dia de regresso às creches provou isso mesmo.

"Estamos a tentar, mas não é fácil manter as crianças separadas. Elas não percebem que não podem brincar umas com as outras e têm essa vontade. A educadora ainda tentou usar um jogo de ginástica, que consistia em abrir os braços, para as distanciar e separar o mais possível, mas realmente não é fácil", relata Alexandra Leão Costa, diretora do Jardim-Escola João de Deus de Alcobaça, uma instituição que vai da creche ao ensino primário, que esta segunda-feira recebeu seis das 33 crianças inscritas na creche.

E o problema não está apenas em manter as crianças afastadas entre si, mas também impedi-las do contacto com as educadoras. "Ainda esta manhã, uma menina de dois anos correu para a educadora, cheia de saudades, e claro que a colega teve de a pegar ao colo", conta Alexandra Leão Costa, que acrescenta que existem três funcionárias para tomar conta das seis crianças.

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Para além dos cuidados com os sapatos e as roupas das crianças, as mãos dos miúdos são desinfetadadas várias vezes ao longo do dia, os funcionários recebem-nas à porta de máscara e viseira, e o jardim-escola criou dois circuitos de entrada e saída, para evitar o cruzamento de pessoas.

"Também retirámos das salas os brinquedos mais difíceis de desinfetar e dividimos todos os outros por caixas para cada dia da semana. As crianças brincam com a caixa de segunda-feira, ao fim do dia desinfetamos, na terça-feira têm nova caixa com outros brinquedos e assim sucessivamente. Na próxima segunda-feira, os brinquedos são novamente limpos e desinfetados, e os miúdos brincam novamente com estes", explica Alexandra Leão Costa.

Como é que as crianças reagem às máscaras? Com estranheza

Dizer que o Colégio da Fonte, um colégio particular no Tagus Park, no município de Oeiras, está a funcionar a meio gás é o eufemismo do século. "Temos cerca de 70 crianças na creche e no berçário, estão cá três hoje", revela Rui Gonçalves, representante do colégio, que salienta que foi feito um inquérito aos pais nos dias que antecederam esta abertura para avaliar a afluência. "A grande maioria só regressa no dia 1 de junho."

Sem grandes problemas em cumprir o distanciamento social entre os miúdos devido à muito baixa frequência do colégio, Rui Gonçalves destaca que todas as medidas de segurança impostas pela DGS estão a ser cumpridas, e que existe um esforço por parte dos funcionários em tornar a situação o menos estranha possível para as crianças —  mas não é fácil.

"Quando vão receber os miúdos à porta, os funcionários estão com máscara e viseira, e colocaram uns bonecos nas viseiras para as tornar mais apelativas e engraçadas para as crianças. Mas ainda hoje de manhã, uma menina chegou à porta, não nos reconheceu e achou tudo aquilo muito estranho, não percebeu porque é que estávamos todos de máscara. É complicado de explicar", relata o representante do Colégio da Fonte.

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