“Eu estou bem. E tu, estás bem?”

“Aceita, que dói menos”.

As duas frases têm tudo para entrar nas conversas do dia a dia de muitos portugueses, dão ótimas citações para estampar em T-shirts e o crédito da autoria das mesmas tem de ser atribuído a Diogo Reffóios Cunha, 33 anos, concorrente do “Big Brother 2020”.

Estas duas frases, com pouquíssimas palavras, não são uma qualquer paródia ou momento fun em TV, antes, representam a pressão que um estranho sente por ter de viver todos os dias num mundo onde abundam os normais. E não há mal nenhum em estar numa minoria, só o há quando a maioria dos normais procura, a toda a hora, impor a sua normalidade a uma minoria que não faz questão nenhuma de ser normal, e é feliz na sua estranheza.

É isto que Diogo Reffóios Cunha tem tentado demonstrar em quase três meses de presença diária na televisão portuguesa. Ele tem sido o porta-estandarte dos estranhos, tem carregado na voz a mensagem dos diferentes, tem lutado, com as armas dele — o silêncio, o refúgio, a não confrontação, a aceitação, o pedido de desculpas —, que não são as armas que se espera que alguém use, e que, por isso, muitas vezes não são entendidas.

O Diogo é orgulhosamente um estranho, é feliz como um estranho, mas não é por isso que repudia e critica a normalidade ou os normais. Aceita. Dói menos assim, diz ele, digo eu, porque é verdade.

Diogo BB
créditos: Reprodução TVI

Eu quero muito que Diogo ganhe esta edição do “Big Brother 2020”, pelas mais variadas razões. A maior de todas é também a mais simples: porque ele merece mais do que qualquer outro concorrente, porque ele fez mais pela luta de termos uma sociedade mais justa e equilibrada do que qualquer outro, porque ele mostrou a milhões de portugueses que não é preciso ser-se bully, agressivo, ofensivo, indelicado, para se discutir e defender um ponto de vista. Às vezes, basta o silêncio, basta o não ir a jogo. Só no desporto é que a falta de comparência é sempre uma derrota. Na vida não tem de ser assim. Tantas e tantas vezes, a bem da nossa sanidade mental, a bem do equilíbrio emocional e social, é melhor não ir a jogo. Ganha-se por não se ir a jogo.

Eu quero muito que o Diogo ganhe porque é nele que me revejo em tantas e tantas coisas, porque sinto as dores que ele sente, e enfrento as lutas no dia a dia que ele enfrenta, usando também as armas que ele usa: a tolerância, o silêncio, a aceitação, o refúgio.

Não há dia em que também eu não me sinta um estranho empurrado para um lado e para o outro pela maioria dos normais que me querem impor aquilo “que é correto”, aquilo “que é aceite”, aquilo “que deve ser”, aquilo “que toda a gente faz”. E não são precisas discussões de fundo, problemas estruturais, para que eu sinta isso. São as pequenas coisas, aquelas que toda a gente acha absolutamente irrelevantes, insignificantes, que me montam um cerco, que me apertam para que eu seja como os outros e para que faça o que os outros fazem. E isso afeta-me, perturba-me, mesmo que nunca o demonstre, mesmo que use a minha arma para o combater: o aceitar e respeitar a opinião e visão de quem pensa diferente, o entender o conforto que é, para muitos, o ser-se normal.

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Exemplos parvos, mas que são exemplos. “Se estás na praia, tens de ir à água”. Eu não adoro ir à água na praia. Posso passar um verão inteiro sem dar um mergulho. Não há um dia, um só, em que vá à praia e não tenha pessoas à minha volta a exigir-me que vá à água, a dizer-me que eu vou estar melhor se for à água, a tentar provar-me que estou melhor na água do que fora dela, a criticar-me por estarem 30 graus e eu continuar sem ir à água. Se eu quiser ir à água, eu vou à água, quando eu quiser, porque eu quis naquele momento ir à água, porque achei, no momento em que fui, que isso era o melhor para mim.

É normal que as pessoas que vão à praia gostem de ir à água. Sou um estranho, não sou um normal, e uma coisa eu sei: jamais eu, o estranho, direi seja a quem for para não ir à água, para ficar na areia, à sombra, debaixo do chapéu, porque aí é que se está bem.

Exemplos menos parvos, mas que são exemplos. “Tens de estar rodeado de amigos”. Há dias, em conversa por casa, fui questionado pelo facto de ter poucos amigos, de me relacionar pouco com os outros, de não marcar programas com amigos. Uma vez mais, é isso que a sociedade nos exige, é essa a moldura perfeita para a felicidade: uma pessoa rodeada de amigos, a viver grandes momentos de alegria. A pressão social impõe-nos isso. Mas eu não preciso disso para estar na minha plenitude. Não me lembro da última vez que me senti solitário, mesmo estando na maioria das vezes sozinho. Eu gosto de estar sozinho, eu sou feliz e sinto-me completo na minha solitude, que não sinto como solidão. Eu consigo ser feliz da mesma forma estando sozinho enfiado numa cama num domingo de 35 graus a ver um filme na Netflix como estando na praia rodeado de amigos, num calçadão a correr, num jardim a ler debaixo de uma árvore ou a beber sangria numa esplanada com outras pessoas. Mas o quadro da felicidade e dos momentos felizes já está pintado pelos outros, e se não nos encaixamos nele, então, é porque não sabemos o que é felicidade. Vida de estranho é assim.

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Mais exemplos não tão parvos, mas que são exemplos. “Tens de viver com os pés assentes na terra”. A sensação de segurança e estabilidade é absolutamente fundamental, estrutural, para muitas pessoas. Para mim, o que é absolutamente fundamental e estrutural é voar, é tirar os pés do chão. Viver com os pés no chão, provavelmente, garante uma conta bancária mais robusta, garante uma sensação de segurança para o futuro, e isso transmite paz a muita gente. A mim, nada me transmite mais paz do que ser feliz a viver o momento, mesmo que por estar a viver o momento tenha de ter menos zeros na conta. A maioria normal exige-nos que preparemos uma velhice tranquila, mas a minha estranheza só me faz pensar que eu prefiro muito mais ser um adulto feliz todos os dias, a fazer o que eu quero, o que eu gosto, o que me faz bem, do que ser um velhinho cheio de dinheiro.

E um último exemplo que até é bem sério, e que é um exemplo. “A família é tudo”. Não é, para mim não é, e nunca será. Como sempre, a sociedade, esse monstro onde achamos que cabem todas as pessoas, exige-nos que tratemos a família com respeito, que sintamos aqueles que partilham o nosso sangue com um afeto único, como se fossem seres especiais. Provavelmente haverá no meu passado explicações para que eu sinta as coisas de maneira diferente, mas também nisso me considero um estranho. Eu valorizo pessoas, não por serem familiares, mas pelos seus valores, princípios, pela relação que criaram comigo e pela forma como essa mesma relação foi-se moldando com o tempo. É daí que, para mim, nascem os sentimentos e a união, não é pelo facto de se partilhar sangue. Infelizmente, tenho na minha família muita gente que não me interessa rigorosamente para nada, da mesma forma que tenho fora dela gente por quem dou e daria tudo.

É estranho? É. Mas eu estou bem e vocês, estão bem? Aceitem, que dói menos.

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