O propósito da entrevista é o seu novo livro "Encontrei o Amor Onde Menos Esperava" (Editorial Planeta), mas é inevitável conversar com Fátima Lopes sobre a saída da TVI, anunciada a 8 de janeiro passado.

Aos 52 anos, a apresentadora reflete sobre o que correu menos bem, promete que, no futuro, vai ser menos "ingénua" e afirma que a saída da estação de Queluz de Baixo foi uma oportunidade para trabalhar "ainda mais" a sua "humildade". E também para ser um exemplo para os filhos, Beatriz, de 21 anos e Filipe, de 12.

O romance, que começou a imaginar no final do ano passado e que foi escrito em tempo recorde, conta a história de Sofia, uma mulher de 50 anos que viveu uma relação tóxica e que decide deixar Lisboa e ir viver para o Alentejo. E é por aí que começamos.

livro fátima lopes
"Encontrei o Amor Onde Menos Esperava" Editorial Planeta (15,50€) créditos: Editorial Planeta

O seu livro "Encontrei o amor onde menos esperava" narra a vida de Sofia, uma mulher que deixa Lisboa e um relacionamento abusivo aos 50 anos para se mudar para o Alentejo. O facto de o lançamento coincidir com uma nova fase da sua vida foi acaso?
Foi um acaso. Comecei a escrever as primeiras linhas deste romance em outubro. Esta ideia surgiu fruto da pandemia. A pandemia provou-nos que houve muita gente que precisou de fazer uma grande mudança na sua vida. Tenho várias pessoas amigas que foram para casas de famílias, que estavam fechadas, e perceberam que ali tinham melhores condições para criar os filhos, já que conseguiam trabalhar a partir de casa. Esta minha noção de que muita gente tinha mudado, uns por necessidade outros porque resolveram fazê-lo, deixou a sementinha. Depois, eu gosto de escrever sobre mulheres. Achei que tinha de colocar alguns ingredientes que são muito comuns a mulheres que chegam perto dos 50 anos e, por exemplo, ainda não tiveram um relacionamento que correu bem, ou que não concretizaram o sonho de serem mães, que é algo que é muito penalizador. Apercebo-me disso, porque tenho vários casos de amigas nessas circunstâncias e percebo o quanto isso é um sofrimento para elas. Fui colecionando esta informação e, depois, coincidiu que a minha vida levou uma grande reviravolta. Acho isto interessante e acho que nunca nada é por acaso. É interessante a minha própria vida, depois, acabar, em parte, por bater na minha intenção de comunicação com este livro. 

Dizia há pouco que a sociedade é penalizadora para as mulheres que não tenham uma vida como mandam as regras. Há um factor penalizador maior para mulheres que, seja aos 40 ou 50, decidem mudar, seja deixar relacionamentos ou um trabalho?
Sem dúvida nenhuma. O ser humano tem muito medo da mudança. Mesmo em relação aos homens, se um homem numa determinada idade, na idade de "assentar", resolve dar uma reviravolta, é porque tem ali qualquer coisa de louco. E as pessoas lidam mal com isso. Mas para as mulheres ainda mais, porque a mentalidade, nesse aspecto, ainda tem muito para evoluir. Quando se chega ali à casa dos 40, 50, já é suposto — e vou sublinhar o suposto — ter uma relação que seja para a vida, já é suposto ter filhos, já é suposto ter um trabalho que tenha uma estabilidade, já é suposto uma série de coisas. Mas, tal como a palavra diz, são só suposições. E cada vida é uma vida.

A sociedade não lida bem, por exemplo, com mulheres que não tenham cumprido a maternidade. E isso pesa imenso. Eu sou extremamente sensível a este tema, porque tive muita dificuldade em engravidar do meu filho [Filipe]. Eu sei colocar-me na pele dessas mulheres. E, depois, estou atenta e vejo a forma como se pergunta a uma mulher ‘então, não há meio de seres mãe?’. Como se as outras pessoas é que fossem donas da nossa vida. E não são. Eu gostava que as pessoas parassem para pensar que, às vezes, essa pergunta magoa profundamente quem a ouve. Se uma mulher resolve, por exemplo, fazer uma grande mudança na sua vida, é quase como ‘ela não é muito certa’. Se tiver 20 anos, é expectável, porque está na flor da idade. Aos 40, parece que estamos com os pés para a cova. E eu acho que isto não faz sentido nenhum. 

Esse olhar penalizador da sociedade tem tudo que ver com o medo. De que forma é que se gere o medo para que ele não seja condicionador, mas impulsionador de mudança?
Tem de transformar o medo em perguntas. O medo é qualquer coisa que nos bloqueia, mas pode ser desmontado. Eu aprendi isto em técnicas de desenvolvimento pessoal. Faço perguntas ao medo. 'Então e agora se eu sair da televisão, qual vai ser o meu caminho? Que recursos é que tenho para fazer outras coisas e também ser feliz nessas coisas?'. Quando começamos a fazer perguntas ao medo ele vai caindo porque, na maior parte das vezes, ele não tem fundamento. As primeiras perguntas que se devem fazer, quer no campo pessoal quer no profissional, são: 'estás feliz onde estás?' e 'tratam-te como mereces?'. Se as respostas forem negativas, tens de ir embora. Se não fores, é porque não te escolhes. 

Houve algum momento da sua vida em que não fez perguntas?
Faço sempre perguntas. Isto tem que ver com as técnicas de desenvolvimento pessoal, onde se aprende a fazer estas perguntas. Quando as pessoas me dizem ‘ai Fátima, essa tua maneira de pensar é que te ajuda muito’, eu digo ‘ó meus amigos, isto não me caiu do céu’. Eu comecei a fazer cursos de desenvolvimento pessoal há 25 anos, quando ainda nem se falava disso em Portugal. Ao longo destes anos, investi muito tempo e também dinheiro, a conhecer-me. Isto que eu consigo fazer hoje é fruto de muita persistência nesta aprendizagem. E prática. Não me caiu do céu e não fui eu que nasci assim. 

A personagem principal do seu livro vive uma relação onde há violência doméstica. Enquanto apresentadora, entrevistou muitas mulheres (e homens também) que viveram relações abusivas. A realidade é muito pior do que a ficção?
Sim, e eu acredito que os números são muito piores do que os que conhecemos. Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, não é só quem está numa situação económica frágil que passa por violência doméstica. Nas classes ditas A e B há muita violência doméstica. Talvez menos física, mas a violência psicológica e emocional é uma constante. Há 25 anos, no programa "Fátima Lopes", uma das histórias que mais me marcou foi o testemunho de uma médica, que não deu a cara, e que era agredida pelo marido. Ela dizia 'ele sabe como me bater e não deixar marcas'. Isto ficou-me gravado. Ela era médica, tinha independência económica, ganhava bem. A questão é que se fica ali numa dependência emocional da qual é muito difícil sair. Eu não condeno as mulheres que levam mais tempo, não porque não conseguem. Não têm recursos para sair dali. Se existisse uma mosquinha que visitasse cada lar, os números, infelizmente, acredito que seriam o dobro do que são. Até porque, se olharmos para os números da violência doméstica, percebemos que não estamos no bom caminho.

"As pessoas têm medo que eu esteja triste ou deprimida. Têm uma preocupação que sinto que é genuína"

Gostava, quer com este livro, quer com a mudança que aconteceu na sua vida, de ser de um exemplo para mulheres que estão em situações semelhantes?
Eu tenho esperança que seja inspirador. Não pretendo mais do que isto. Se o meu exemplo e o da Sofia, neste livro, inspirar algumas pessoas, nomeadamente algumas mulheres, acho que já é muito bom. O que a Sofia faz é ir à procura do sentido da vida. E, quando nós atravessamos uma pandemia, percebemos que tudo o que tínhamos como garantido afinal não o é. E tudo o que nós achamos que é básico, que nunca nos vai faltar, afinal pode faltar. Então nós temos que pegar na nossa vida, colocá-la numa balança e fazer escolhas em que sejamos amigos de nós próprios. Porque, às vezes, somos os nossos maiores carrascos. 

"Precisava provar a mim própria que também existia além da televisão"

Uma pessoa, seja de que idade for, quando sai de uma empresa dita normal, está no desemprego. Quando uma figura pública como a Fátima sai de um canal de televisão, o impacto é completamente diferente. Sente isso?
Sinto isso todos os dias. As pessoas têm muita empatia em relação àquilo que elas acham que eu estou a sentir. Ainda ontem, quando vinha no táxi, o senhor dizia-me 'a Fátima tem que voltar! A Fátima não pode estar fora do ecrã'. E eu dizia-lhe 'eu não voltei porque ainda não me fez sentido. Não se preocupe que eu estou bem'. E ele disse. 'Mas não pode ser! A Fátima é a televisão e a televisão também é a Fátima!'. Eu disse-lhe. 'Olhe, duas coisas. Eu estou bem. Estou de bem com a decisão que tomei e estou a fazer muitas coisas'.

Há anos que eu as adiava porque não tinha tempo, mas faziam parte do meu baú de sonhos. E que, agora, se estão a concretizar. Estou feliz. Estou superprodutiva. Apesar de estar em casa, as pessoas que acompanham as minhas redes sociais percebem que estou a trabalhar muito. Saí da TVI em janeiro e, em três meses e meio acabei um livro, já perdi a conta ao número de webinars, masterclasses e consultorias em empresas na área da comunicação. Estou a trabalhar com duas fundações. Fiz um curso de desenvolvimento pessoal... as pessoas não imaginam a quantidade de coisas que eu já fiz! Agora, eu sinto a ansiedade do público e a expectativa. A pessoas fazem sempre duas perguntas quando me encontram: quando é que vou voltar e se estou bem. As pessoas têm medo que eu esteja triste ou deprimida. Têm uma preocupação que sinto que é genuína. 

É preciso ter-se feito alguma coisa bem ao longo destes anos todos para que o sentimento comum seja esse.
O que eu sinto é que é o sentimento de quem cuida. Do género 'ela não merece estar mal'. E isso deixa-me muito feliz porque é sinal de que há um caminho que é feito de coerência. Eu tenho sido sempre a mesma pessoa. Vou fazendo o meu caminho, discretamente, não me ponho em bicos de pés, não quero o mundo de uma vez, vou andando calmamente com a serenidade de saber esperar. E o público leu-me exatamente como eu sou quando saí. Sentiram uma grande injustiça, mas eu digo 'saí porque quis, não fiquem assim'.

As pessoas, às vezes, ficam muito emocionais, elas mais do que eu. Estou a trabalhar duas coisas importantes para mim: que tenho esta capacidade de renascer, como a Sofia. Como consultora de comunicação, modéstia à parte, sou muito boa. E tenho feito um trabalho muito interessante. E a ensinar na área da comunicação, também. E tenho provado estas minhas competências. Precisava provar a mim própria que também existia além da televisão.

Esta quarta-feira volta à SIC, onde vai ser entrevistada por Júlia Pinheiro [nr: a entrevista a Fátima Lopes realizou-se na manhã desta quarta-feira, 19 de maio, antes da apresentadora estar no programa “Júlia”]. Podemos ler mais alguma coisa nesta presença ou é só um regresso pontual à casa da qual fez parte durante tantos anos?
É um momento muito importante por dois motivos. Eu não entro na SIC há 11 anos e vou lá entrar. Como convidada, mas vou entrar. Tem importância para mim. Depois, porque eu saí do ecrã em dezembro e vai ser a primeira vez que vou aparecer para dar uma entrevista. É importante ser com a Júlia porque, nos últimos anos, temos feito formatos muito parecidos. Enquanto comunicadoras, temos andado a fazer coisas muito próximas. Faz-me sentido que a primeira entrevista seja com ela. Mas o bonito disto — e eu fico muito satisfeita — foi que quando o meu livro saiu, foi enviado para todos os canais e todos me convidaram. 

A TVI convidou-a?
Sim. Na próxima segunda-feira vou ao programa da manhã. A TVI vai ao lançamento do meu livro este sábado, em Monsaraz, fazer uma reportagem comigo. 

Fátima Lopes regressa à TVI na segunda-feira. Apresentadora vai estar no "Dois às 10"
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Vai ao “Dois às 10”.
Dou-me muito bem com os dois [Maria Botelho Moniz e Cláudio Ramos]. Com o Cláudio, como toda a gente sabe, somos amigos íntimos há muitos amigos. Mas é óbvio que, se a direção da casa não quisesse, eu não poderia ir. E a resposta foi imediatamente 'sim' quando ele propôs. Isto prova como é verdade o que tenho dito. Eu não saí com zanga com ninguém. O processo não correu bem, houve um somatório de situações em que fui desvalorizada e desconsiderada, mas as pessoas conseguem separar as águas, o que me deixa muito feliz, porque eu também consigo. 

Já falou, na entrevista que concedeu à revista "Sábado", sobre as circunstâncias que determinaram a sua saída da TVI. Mas quero voltar ao dia 19 de novembro de 2020, quando participou na emissão em direto "O Futuro da TVI", na qual foram apresentados vários formatos, entre os quais aquele que seria o seu, “C'è posta per te". O que é que aconteceu no espaço de um mês e meio para tudo mudar?
Eu disse na entrevista, é o que eu acho e o que qualquer pessoa acha: não se anuncia uma coisa que não está tratada.

Apresentação nova grelha TVI
Fátima Lopes com Cristina Ferreira no direto "O Futuro da TVI", em novembro de 2020 créditos: TVI

Foi apanhada de surpresa naquele momento?
Não, não fui apanhada de surpresa. Perguntaram-me se eu estava disponível para apresentar aquele projeto e eu disse que sim. Só que, depois, não se deve dar o passo… é como anunciar um jogador de futebol com o qual não se fecharam as condições. 

Mas uma coisa são conversas dentro de uma empresa. Outra é um direto em horário nobre, em que a pessoa é colocada perante o País a dizer que vai apresentar aquele formato. Que foi o que aconteceu.
Vamos aos erros que aqui foram cometidos: da parte da direção da TVI, anunciar publicamente um programa com uma determinada pessoa sem fechar as condições com essa pessoa. Da minha parte, o erro foi boa vontade. Deveria ter feito como fazem as pessoas que pensam diferente de mim. ‘Primeiro, apresentem-me as condições todas. Depois, se me agradam, eu digo se faço o programa’. Mas eu não sou assim. Eu ainda funciono por paixão. Se o projeto me interessa, eu digo logo que sim. E depois vamos ver se nos entendemos quanto à forma de o fazer. E quanto à forma de o fazer, nós não nos entendemos. E é só isto. 

Naquele momento em que é apresentado o formato em direto, no seu íntimo pensou que não devia estar ali ou estava completamente tranquila?
Estava tranquila e, na minha cabeça, o que faltava eram só questões práticas que se iam resolver. Porque, se fosse difícil, o programa não estava a ser anunciado.

No dia 8 de janeiro, a TVI anuncia em comunicado que a Fátima ia deixar de ser apresentadora do canal, mas que iria manter o cargo de subdiretora de novos formatos. Nesse dia, há uma fonte que diz à MAGG que a Fátima “impôs condições contratuais que não foram aceites pela TVI". Que condições foram essas?
Adoro as fontes que não dão a cara. Quando alguém fala e não diz ‘sou eu que falo’, é alguém que faz sair cá para fora uma informação que dá jeito. Para mim, é logo merecedor de crédito zero. Não vou dizer as condições contratuais, era o que faltava. O que vou dizer é que a proposta que estava em cima da mesa representava mais uma desvalorização. E eu não posso continuar a andar de cavalo para burro porque não vou aumentando conhecimento, experiência no mercado e, inversamente proporcional, vão-me sendo cortadas ou fatiadas as condições para eu trabalhar.

Qualquer pessoa entende isto. Não chegámos a acordo, foi apenas isto. Sei que tenho a minha consciência absolutamente tranquila porque tive dez anos de total dedicação à casa, em que, em nenhum momento, me pediram para fazer uma coisa e eu não tenha estado lá. Estive sempre. E, de novo, com a minha boa fé, dizendo logo que sim para desenrascar e, depois, vendo o que é que a casa podia pagar ou dar de condições. Na maior parte das vezes, a minha preocupação era ajudar a casa a resolver um foco qualquer de incêndio e, depois, dizer ‘então agora como é que vamos resolver?’. Quantas vezes? 

Houve alguma ingenuidade da sua parte?
Sempre. Neste processo, sempre. Mas eu já prometi a mim própria que, daqui para a frente, tenho de aprender a não ser tão ingénua e a não ter tão boa fé. Como sou uma sonhadora e como amo o que faço, primeiro olho para o projeto e, se me deixar encantar, a seguir, quando olhar para as condições, eu sei que até olho com outros olhos. Eu ainda me movo por paixão e espero morrer assim. Agora, há mínimos olímpicos e, quando não são cumpridos, está na hora de bater com a porta. E, quando assim é, não tenho problema nenhum. Bato com a porta e vou à minha vida.

O comunicado da TVI é emitido numa sexta-feira e, horas depois, a Fátima faz o seu próprio comunicado e é só aí que percebemos que está num processo de saída da empresa. Preferia que tivesse sido feito um comunicado conjunto aquando a sua saída?
Isso nunca é feito. Isso é ter uma ilusão. A TVI entendeu fazer o seu e eu precisei das minhas horas para digerir, pensar, refletir em cada palavra, e fiz o meu. Mas tranquilo. Nem ambicionava que fosse um comunicado conjunto. 

Ou, pelo menos, comunicados a serem emitidos ao mesmo tempo, e com a mesma informação. Porque o da TVI veiculava que a Fátima deixava de ser apresentadora, mas mantinha o cargo.
O que não era mentira porque, de facto, eu tinha uma situação dupla com a empresa. Respondi quando achei que tinha de responder. Mas sem qualquer emotividade nisto. Eu sou uma pessoa muito emotiva, mas tenho este lado pragmático. E sem olhar para trás. Nem guardo nenhum rancor, nem zanga. Se guardasse, não iria à TVI. Eu não crio inimizades. Quando as pessoas já não fazem sentido na minha vida por algum motivo, eu sigo o meu caminho. Mas não prejudico, não passo por cima. 

Mas, mediaticamente, é sempre precisa uma narrativa do vilão e da vítima.
Eu sei. E as pessoas estão ávidas disso. Mas eu não vou fazer isso, porque eu não faço isso. Se olharem para o meu percurso, e não é a primeira vez que eu saio de uma estação, vão ver que, em momento algum, falei mal de alguém. Eu não sou assim. A forma como eu fui educada não joga com isso. Eu penso só: 'é um ser humano que fez o que fez. Se foi mau, vai ter o retorno na vida dele. Se foi bom, vai ter o retorno na mesma'. Eu digo isto aos meus filhos muitas vezes: 'não vale a pena sujar as mãos com nada porque Deus encarrega-se sempre de por as coisas no sítio certo'. E quando as pessoas nos fazem bem, têm retorno na vida delas. Quando fazem mal, também têm.

Será que têm?
Têm, têm. E é nesta vida! As faturas pagam-se até ao último cêntimo aqui. E eu sei que há muita gente que anda na ilusão de que pode levar as suas vidas sem se preocupar com os outros porque nada lhes vai tocar. Não. Quando lhes tocar, toca-lhes tudo de uma vez e depois podem não ter arcaboiço para aguentar. Eu olho para essas pessoas com compaixão. Porque não sabem fazer diferente. Pena não tenho porque pena têm as galinhas. 

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A TVI que deixou no início de 2021 era melhor ou pior do que a que encontrou em 2010?
Não é melhor nem pior. É diferente, porque hoje em dia tudo é diferente. Hoje em dia a televisão procura ter uma resposta quase ao segundo a tudo o que vai acontecendo. É quase um fervilhar que parece que não dá para pensar as coisas com calma. E antigamente não era assim. Por outro lado, diferente no aspecto em que, há uns anos, nos canais todos, havia mais atenção e mais rigor com, por exemplo, a questão dos horários. As pessoas são muito sensíveis a isso. E hoje em dia isso não é tão importante, é mais importante servir os propósitos da estação. Nós temos de nos lembrar que estamos a servir quem nos está a ver. E essas pessoas têm que ser soberanas. São donas do comando e calam-nos, mudando de canal. 

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Fátima Lopes

O seu programa  "A Tarde é Sua" sofreu, nos últimos anos de existência, várias alterações de horário. Agora, está acontecer o mesmo com o programa de Manuel Luís Goucha, que estreou há muito pouco tempo e também já sofreu alterações. Considera uma falta de respeito ou uma falta de estratégia?
Eu vivi anos disso. E isso pode afetar irremediavelmente um formato. Um formato é desenhado com determinadas características, supostamente para agradar a um público que se conhece a todos os níveis, nomeadamente de hábitos. À tarde temos Portugal sentado, de manhã, não. Se todos os dias eu não sei bem com o que é que conto, porque o programa começa às 16h, depois amanhã afinal é às 16h20, depois no dia a seguir afinal termina às 18h, isto cria uma relação de desconfiança porque as pessoas não sabem com o que é que hão-de contar. E o ser humano, quando não sabe com o que há-de contar, fica desconfiado. Eu passei por isto e isto é muito difícil.

É difícil manter as equipas motivadas assim. Imagine o que é sair hoje da empresa e amanhã, supostamente, o seu programa é das quatro às seis. E, às 11 da manhã ligam da produção e pedem-nos mais uma hora. No próprio dia. E isto aconteceu centenas de vezes! É muito difícil produzir uma hora de programa com qualidade porque, depois, o que é que vamos ter? Tapa-buracos. Porque, depois, o público e a comunicação social não conseguem perceber que o apresentador apresenta o que tem e que, se não está a entrar às quatro da tarde como a pessoa estava à espera, não é porque se atrasou e estava a conversar com uma amiga. É porque alguém lhe mudou o horário. E as pessoas começam a ficar tristes e desiludidas com quem dá a cara pelos projetos. E o que é que as revistas escrevem? “Fátima Lopes perde para não sei quem”. Eu não era tida nem achada nestas mudanças todas nem nas vezes em que me tiraram o programa para meter novela. É-me comunicado. Mas alguém dá a cara. Sou eu. E assim se dá a vitória, também por estas razões, à concorrência.

Porque se a concorrência se mantém fiel no seu horário e o espectador sabe com o que contar… nós precisamos de segurança como seres humanos. Ainda por cima com uma pandemia, em que a palavra que mais temos na nossa vida é imprevisibilidade. Quando estamos à nora, com a imprevisibilidade das nossas vidas, até quando ligo a TV para me distrair também é imprevisível? Não, deixa-me ir para onde é previsível. Isto é psicologia humana, é conhecer a psique da criatura que somos nós e ir ao encontro disso.  

Quando, no início da pandemia, foi substituída pela Leonor Poeiras na condução do “A Tarde é Sua”, refletiu sobre o que é que poderia fazer a seguir ou isso ainda estava muito longe de acontecer?
Ainda estava muito longe! Nem me lembro já o que aconteceu nessa altura. Estava concentrada, como todas as pessoas, em perceber o que era isto, que impacto teria nas nossas vidas. Nem me lembrava da televisão. Lembrava-me era de proteger a minha família, que era a minha preocupação.

"A minha saída da TVI foi uma enorme oportunidade para eu trabalhar ainda mais a minha humildade"

Esteve esta terça-feira em Madrid. A fazer o quê?
Só posso dizer que é uma campanha que vai estrear em junho. 

Lançou em 2016 a sua plataforma digital, Simply Flow, mas há mais de uma década foi pioneira nessa área, porque teve o seu próprio site. Como é que a ideia surgiu naquela altura?
Sim, o Fátima.tv. Naquela altura as pessoas que trabalhavam comigo, visionárias, já diziam ‘o digital vai ser o futuro’. E esse foi o problema. Nasceu antes do tempo, em 2007. Foi muito cedo. Não deu para implementar o projeto como eu queria. Quando o Filipe nasceu [em 2009] e sabendo eu o tempo que aquilo exigia, eu disse ‘não vai dar’. Eu não ia deixar de ser mãe para alimentar aquele projeto. Fechei portas e só há quatro anos é que decidi, muito mais conhecedora, lançar-me nestas aventuras.

Fátima Lopes com o seu novo romance
Fátima Lopes com o seu novo romance

Porquê?
Porque eu gosto muito da área da saúde e do bem estar. Achei que, além de apresentadora, era importante ir trilhando outro caminho, noutras áreas que me apaixonassem. Na minha cabeça esteve sempre que a televisão tem de estar na minha vida enquanto me fizer sentido. Quando não me fizer sentido, eu tenho de ter outro caminho. As áreas da saúde e do bem estar sempre me cativaram muito e eu percebia que havia muitas figuras públicas que tinham os seus blogues, mas não havia um foco nestas áreas e que juntasse também a medicina tradicional com as complementares reconhecidas. Comecei a juntar pessoas que se identificassem com este propósito. O Simply Flow é a primeira plataforma digital em Portugal que tem o selo Portugal Sou Eu.

Como surge essa certificação de qualidade?
Eu candidatei-me, justificando que, se este selo é entregue às marcas e produtos portugueses que se diferenciam pela qualidade, porque é que o Simpy Flow, que é um produto digital e que se diferencia pela qualidade, não pode ter o selo? Na altura, analisaram o processo e reconheceram que fazia sentido. A plataforma tem artigos de muita qualidade, e hoje em dia vejo-os referidos em muitos sites e revistas. Foram quatro anos de com muita paciência. Eu não quero o mundo num dia. Eu sou extremamente resiliente e paciente. Eu sei esperar pelo meu momento. E hoje é com muito orgulho que me convidam para certos projetos por causa do Simply Flow.

A Fundação José Neves, que foi criada em setembro do ano passado pelo dono da Farfetch e que é totalmente dedicada à educação e à formação, tem três pilares de atuação: um deles é o do desenvolvimento pessoal. Convidaram-me para ser uma das embaixadoras que vai dar cursos. Por causa do Simply Flow. E isto começa a acontecer-me cada vez mais. Foram precisos quatro anos para a formiguinha colher aquilo que plantou. Mas o caminho faz-se caminhando. 

Como todos esses projetos a nascerem após a saída da TV, posso dizer que a Fátima nunca teve deslumbre com a televisão?
Nunca fui uma pessoa deslumbrada. Quando fui escolhida para apresentadora, a minha mãe teve uma conversa comigo que deve ter durado dois minutos. Ela disse-me 'a partir de agora vais passar a ser conhecida. A tua vida nunca mais vai ser igual, mas lembra-te sempre de onde vieste e quem é que tu és. E nunca tires os pés da terra'. E eu lembro-me disto todos os dias. Quem me conhece há muitos anos sabe que eu continuo a mesma pessoa. Continuo a mesma pessoa humilde e a minha saída da TVI foi uma enorme oportunidade para eu trabalhar ainda mais a minha humildade.

Porque, quando eu comecei a trabalhar noutras áreas, eu posicionei-me como se estivesse no patamar zero, em que tinha de provar aos que me convidavam que eu era merecedora daquela confiança. Há pessoas acham que se bastam a elas próprias. Que basta dizer ‘é a Fátima Lopes!’ e toda a gente tem de ficar em sentido. Não. Tenho de provar que sou aquilo que acham que eu sou. E tem sido muito interessante porque eu ainda alimentei mais a minha humildade e sinto-me muito feliz por isso. Além de que dou aos meus filhos uma lição muito importante, de humildade e de começar do zero, que os dois perceberam. Os dois veem o quanto eu trabalho em casa, numa rotina que não tem nada que ver com aquilo que eles conheceram toda a vida. Mas eles ficam com mais admiração pela mãe. E eu também quero que os meus filhos percebam quem é que eu sou e quais são os valores que me movem. 

Agradecimentos: Heritage Avenida Liberdade Hotel

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