O segredo para a boa forma de várias celebridades portuguesas tem nome: Pedro Cabral Medeiros. Açoriano de gema, orgulhosamente natural da Ribeirinha, na ilha de São Miguel, veio para o continente, pela primeira vez, aos 24 anos, em 2004, para cumprir uma missão: ser o melhor profissional de exercício físico possível. Foi, sem querer, o pai que lhe despertou o interesse pelo desporto: tinha um corpo impressionante, mas não era por passar muito tempo de volta dos halteres. Os  frutos colhiam-se da dureza do trabalho, vinham de uma rotina que se fazia a carregar centenas de pesadas bilhas de leite por dia.

Este endurecimento, conta-nos, faz parte do ADN açoriano. Cresce-se no meio da bravura do mar, da chuva, do campo, do gado. O continente é, para muitos, uma ideia distante, quase inatingível. Podia ter sido o seu caso, mas não foi, não tivéssemos como prova o trabalho acumulado nas últimas duas décadas: Pedro Cabral Medeiros é um dos PT de referência do país, é o segredo por detrás das transformações do apresentador João Paulo Rodrigues ou Diogo Amaral nas capas "Men's Health" e é o segredo da figura de muitas outras celebridades — incluindo de Carloto Cotta, que o PT preparou para assumir o físico do protagonista no filme "Diamantino". Mais: foi galardoado duas vezes como o Best Personal Trainer Holmes Place Portugal, cadeia onde trabalhou 12 anos, sendo ainda o mentor de um grupo de crianças da Ribeirinha a quem incute os principios de uma vida saudável, num projeto de intervenção social. Revê-se nestes miúdos, era um deles. 

Pelo continente, hoje é na Academia Life Club, em Santos, que o pode encontrar. E é no novo livro editado pela Manuscrito "Corpo de Capa" que o poder ler — e aprender sobre o método de 12 semanas, o mesmo que terá sido praticado pelas celebridades que transformou. Assenta em quatro pilares fundamentais, o quarteto que torna possível a verdadeira mudança, não só no corpo, mas no estilo de vida: treino, alimentação, descanso e sono.

Apesar das conquistas, é com a humildade de quem se orgulha das suas raizes que fala à MAGG sobre todos estas etapas. Leia abaixo.

corpo de capa

Tendemos a associar o treino a uma obrigação e tarefa aborrecida. Este é o nosso primeiro erro?
Está a tocar num ponto muito sensível. A verdade é que há pessoas que nunca deram a oportunidade e outras que não tiveram boas experiências. Não ter a ajuda de um profissional e iniciar por sua vontade é um passo muito difícil de se dar, porque pode resultar numa má experiência. O que marca a diferença é o tipo de profissional que nos acompanha nesse processo — e quanto mais facilidade ele tiver em perceber as pessoas, mais vai ajudar. O processo deve partir de um treino agradável, construído e evoluído ao longo do tempo — de uma forma continua e sustentável. As pessoas têm de se sentir entusiasmadas, seguras e sentir que vão evoluir.

Ou seja, não temos sempre de começar a matar.
É preciso perceber que a condição física pode não estar imediatamente pronta para uma atividade muito dura, e talvez se tenha de começar por algo mais leve. Tem de haver cansaço, mas tem de haver uma ligação entre o prazer e um certo esgotamento, que seja produtivo e não exaustivo. É a exaustão desequilibrada que leva a que as pessoas desistam. Depois, neste processo há uma adaptação à essência do treino, que é quando se começa a perceber como é que o corpo funciona, por exemplo, ao dar um salto, na forma de respirar... Aí já se entrou no processo da construção de um hábito que é muito precioso. Mas, antes disto tudo, é fundamental uma avaliação rigorosa, para ver as necessidades, dificuldades e até os comportamentos errados das pessoas. Como é que elas podem ter disciplina se não têm um plano que contemple isto tudo? É preciso ver a pessoa no seu todo: para a construção de um planeamento, é preciso identificar os gostos, as dificuldades e os erros. É isto que vai ser capaz de mudar aquela ideia errada de se achar que o exercício não é para elas.

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Qual é o maior erro dos profissionais?
É quando não avaliam bem, mas mais grave ainda: é quando o aluno diz que quer ir para o objetivo A, o PT faz a avaliação a pensar no A, mas depois esquece-se que para chegar ao A há mais fatores a considerar — é preciso comer de uma forma para chegar ao A, é preciso ganhar um determinado ritmo para chegar ao A, é preciso perceber o estilo de vida e as questões de logística para se chegar ao A. Se eu não conhecer a pessoa como é que vou ser exímio com ela?

Às vezes esquecemo-nos que fazer exercício físico não influencia só o nosso corpo.
Sim, às vezes as pessoas não chegam a perceber os benefícios — e daí também a importância de alguém que as motive. Uma coisa é saber que é importante, outra coisa é sentir na pele o bom acordar, a energia, estados que vão influenciar tudo na nossa vida e rotina, seja com as pessoas à nossa volta, seja no trabalho, porque isto aumenta o poder de concentração e de produtividade. Este livro ajuda-nos a refletir sobre a nossa vida, porque são os nossos hábitos que ditam aquilo que vamos ser. Por exemplo: se eu não tiver regras, se eu fico acordado até às duas da manhã a ver Netflix ou no telemóvel, se eu não tenho horários, se eu não tenho um cenário em casa tranquilo, se eu não tenho uma agenda com aquilo que eu tenho de fazer, eu não vou ser tranquilo, vou ser ansioso. Tudo isto causa stresse, que vai influenciar o sucesso do processo de transformação. O treino e a alimentação saudável não acontecem se a vida estiver desorganizada. Se eu não cuidar de mim, se eu não dormir bem, se eu não tiver atento e perceber o que é que esse dia ou semana vão exigir de mim, não vou ser bom naquilo que faço. Claro que temos de desfrutar da vida, mas temos de ser equilibrados.

É mesmo possível mudar?
Quando me dizem que as pessoas não mudam, eu digo sempre que é mentira — porque se ela quiser, ela muda. As pessoas é que não querem. É diferente.

Como?
A pessoa pega numa agenda ou num caderno e diz acabou. Cria regras e disciplina. Faz um mapa da vida dela. Eu quando meti na cabeça que queria ser um dos melhores personal trainers de Portugal tive de ter a coragem e a humildade de perceber em que é que era bom e em que é que tinha de melhorar. As pessoas têm tendência para serem todas as melhores quando estão no café com os amigos, mas no terreno não. Temos de ser honestos connosco, temos de ter os pés na terra para percebermos em que é que não somos assim tão bons. E isso tem um preço a pagar, que é dedicação e empenho, que é o que o [Cristiano] Ronaldo tem.

O que é que pôs na sua lista de coisas a melhorar?
Não era organizado, não tinha regras para dormir, não chegava a horas às coisas, não tinha rigor nos compromissos, tinha de estudar mais sobre determinados temas. Escrevi tudo. Nós não conseguimos evoluir se não olharmos para dentro.

pedro

E foi mudando?
Mudei muito. Pus coisas pessoais e profissionais na primeira página da agenda e olhava para ela todos os dias. Depois criava e desenvolvia tarefas para mudar.

Como por exemplo?
Punha alarmes para comer, alarmes para dormir. Adiantava o meu relógio meia-hora ou 15 minutos. Eu era uma pessoa que demorava muito tempo a tomar decisões — tanto que acabava por não as tomar. Por isso, comecei a criar um ritual em que definia um dia e uma hora para pensar sobre um determinado assunto e decidir sobre ele. O meu livro até se ia chamar “O Treino”. Tudo na vida é um treino: eu se quiser ser melhor namorado, tenho de treinar — tenho de perceber o que é que a minha namorada, gosta e não gosta, sendo fieis a nós próprios (a dois, temos de pensar a dois); na relação com os pais, há coisas que o meu pai já não muda pela idade, portanto eu tenho de treinar para lidar com o feitio dele; se eu quiser ser um bom melhor amigo, tenho de ligar mais vezes aos meus amigos, não posso falhar. Tudo passa por uma avaliação: temos de estar atentos, ter vontade e interesse. Eu tive esse interesse.  

Como é que nasce a paixão pelo PT?
É uma história gira: o meu pai tem um físico incrível e nunca fez musculação. Era camponês, trabalhava na Lacto Açoriana (atualmente, Bel), na Ribeira Grande. Antes de haver os camiões cisterna, havia uns iguais, só que de caixa e com bilhas de 50 litros de leite. O leite ia sempre buscar-se, porque não havia frigoríficos e podia estragar. Por isso, havia um camionista e um ajudante de camionista — que era o meu pai. Era preciso ter resistência para carregar todas aquelas bilhas de leite, que podiam ser 200 ou 300. O meu pai sempre me impressionou com o físico dele, com a força dele, com a sua história. E isso contribuiu muito. Ele dizia-me sempre que eu tinha de ser alguém na vida. Foi por ele que eu venci. Eu quando vim para cá vinha com duas palas, que eram as da persistência e do foco. Disse aos meu irmãos “vou ser alguém, vou ser uma referência para o personal training”. E vivi para isso.

E hoje assina um livro.
Sim. É um prazer indescritível para mim, para os meus irmãos, para a caminha família toda. O meu pai não sabe ler e escrever e tem um filho que escreveu um livro. É como se fosse ele, é a continuidade dele.

Como é crescer nos Açores?
Nós açorianos costumamos dizer: nós amamos e odiamos os Açores. Ou seja: para quem não tem um plano, não tem ferramentas, não está preparado e não evolui não é fácil, sobretudo com o inverno de lá, em que chega a chover dez dias de seguida. É muito fácil perdermo-nos em álcool ou drogas. Sempre vi isso na minha infância. Lembro-me de comentar com um amigo que nunca íamos ser alguém. Eu trabalho com um grupo de crianças na freguesia da Ribeirinha [é um projeto de intervenção social] que têm 14, 15 ou 16 anos e que refletem aquilo que eu já pensava. Eu era um deles. Mas os açorianos são um povo muito corajoso: começamos a trabalhar na agricultura, nas vacas. As pessoas são duras, vão para o mar, têm de ajudar em casa, a sobreviver. A minha realidade foi dura. Eu cresci até aos 14 anos numa casa com um chão de terra e sem casa de banho. Sou filho de um camponês, o meu pai não sabe ler e escrever. Nos Açores não havia muito a tradição de ir para a Faculdade. O mar é a nossa grande barreira, estamos longe de tudo e sentimos que há coisas que não são atingíveis. Uma pessoa dos Açores não é igual a uma que vive no Alentejo. Mas eu sou um apaixonado pelos Açores. E a adaptação ao continente custou-me muito.

medeiros

Quando é que veio para o continente?
Sai da tropa aos 21 e abri um ginásio na Ribeira Grande. Depois, vendi-o e houve uma mistura de circunstâncias: uma história de amor e a vontade de crescer profissionalmente, combinação que me fez mudar para o Porto aos 24 anos. Só tinha o 12.º ano e vários cursos profissionais, portanto sentia que precisava de estudar e aprender mais. Antes de vir, estive uns meses em Madrid a tirar um curso numa das melhores academias americanas de personal training. Passado algum tempo, voltei para os Açores, abri outro ginásio, mas mesmo assim senti que precisava de mais. Em 2009 vim para o continente, altura em que trabalhei no Holmes Place de Cascais.

Como é que foi esta mudança?
Quando chegamos cá, sentimos que estamos em desvantagem, o mindset não é igual, não temos tantas ferramentas. Eu ia na rua, não via pessoas conhecidas. As pessoas não se cumprimentam. Era tudo muito diferente. Nós falamos com toda a gente, é tudo muito familiar. E temos grandes valores, como a educação — o bom dia, o falar com as pessoas, o dar-lhes atenção. E isso foi muito importante para o meu caminho: antes de sermos um profissional de sucesso, temos de ser um ser humano de excelência. Com a mentalidade de um sítio pequeno, eu consegui o grande. E isto aconteceu a cuidar das pessoas, a dizer bom dia nos balneários, bom dia nos corredores, bom dia na recepção. Quando as pessoas decidiam que queriam ter um PT vinham ter comigo, porque elas querem alguém que se relacione com elas, que esteja atento, que se interesse e preocupe. Que lute com elas.

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Como foi chegar a este Holmes Place?
Eu cheguei à receção e vi umas mulheres a dizer: “Querida, você está tão gira, que máximo.” E eu pensei: “Uau, isto é real, eles falam mesmo assim.” Mas foi muito difícil adaptar-me a Cascais e até à própria empresa. Eu tinha medo de agarrar num telefone e de ligar às pessoas para marcar avaliações físicas e treinos. O primeiro ano, principalmente, foi não foi fácil. Não tinha o sucesso que não tinha. Só que estava muito atento a mim. Lidei com muitos obstáculos. E perguntava sempre: “Em que é que eu falhei? Porque é que aquela pessoa não se sentiu segura a treinar comigo? O que é que falta?” Quando as pessoas não aceitam que não estão preparadas e acham que a culpa é dos outros não vão ultrapassar os desafios. 

Entretanto, foi já considerado duas vezes o Melhor Personal Trainer do Holmes Place Portugal e é o segredo por detrás de várias capas da “Men’s Health”.
Sim. Treinei, por exemplo, o João Paulo Rodrigues, o Diogo Amaral e a Jani Gabriel — para a "Women's Health". Também treinei a Katia Aveiro ou o Carloto Cotta.

joão paulo

Como é que surgiu esta oportunidade de ser o PT responsável por estas transformações?
Começou com o João Paulo Rodrigues. Foi simples: disse-lhe bom dia quando ele chegou ao ginásio. Nesse momento, eu estava com uma aluna e disse-lhe: “Um dia ele vai treinar comigo e nem sabe.” Entretanto, ele depois parou e disse-me que se tinha envolvido num programa de treino. Quis mostrar-me o objetivo e o plano — sem nunca dizer que era para a capa da "Men’s Health". Ele já tinha tentado com outros PT e não estava a conseguir. Entretanto, sentámo-nos numa mesa, ele mostrou-me o treino e perguntou-me se achava que era indicado — intuitivamente, percebi que ele ia ser a capa. Eu fui honesto: “Tu para conseguires um corpo como deve ser tens de ter uma data, tens de ter metas reais. De outra forma não consegues.” Ele gostou desta frontalidade, que é uma coisa muito açoriana. Ligou ao Pedro Lucas à minha frente: “Olha, já tenho PT, podemos marcar a capa.” E marcou a data para as fotografias, mesmo ali à minha frente. Com o Diogo Amaral, conheci-o num evento da “Men’s Health”. Ele já tinha treinado com vários PT, o Pedro Lucas pegou na minha mão e pegou na dele e disse: “Tenho aqui o PT que te vai pôr pronto para a capa.” É assim que vai acontecendo: dão-nos oportunidades, nós conquistamo-las, mostrando que merecemos.

Qual é que foi mais difícil de treinar?
O João Paulo resistiu muito ao processo no início. Nos primeiros quatro meses ia aos treinos, mas depois negligenciava mais a dieta. Mas a partir do momento em que marcou a capa, teve de ser diferente. Eu participei nesse processo: se estávamos a almoçar, eu almoçava o que ele comia. Uma vez disse-lhe para correr meia hora ao final  do dia. Ele tem dias longos e cansativos, por isso, adormeceu e já não acordou a tempo de chegar ao Holmes Place. Ligou-me a contar isto e eu disse-lhe que ele tinha de ir correr. Estava a chover, mau tempo. Eu estava em casa, com pessoal que tinha convidado para jantar. Como moramos os dois no Parque das Nações, disse-lhe: “Daqui a dez minutos estou na tua porta." Ele até podia ter corrido na manhã seguinte, mas darmos esta liberdade num processo que é tão duro é perigoso. A tolerância tem de ser zero, porque o amanhã pode ser daqui a um mês. As pessoas quando precisam de um mentor precisam de uma pessoa que as acompanhe e que seja exigente.

Contribuir para estas capas foi a concretização do sonho?
Eu brincava com um amigo e dizia-lhe que um dia ia ser capa da “Men’s Health”. Isto foi a lei da atracção: eu queria tanto ser que acabei por ajudar as outras pessoas a serem. O que para mim ainda é melhor.

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