O caso está a agitar a redação do "Washington Post", um dos jornais norte-americanos de maior prestígio, que está debaixo de fogo depois de se saber que a equipa de editores da publicação decidiu impedir a jornalista Felicia Sonmez de investigar e escrever sobre casos de abuso e assédio sexual. Em causa está o receio do jornal de que haja um conflito de interesses, já que a jornalista é uma sobrevivente de uma agressão sexual.

A restrição à jornalista, sabe-se agora, foi levantada esta segunda-feira, 29 de março, depois de a própria ter denunciado o caso no Twitter e várias redações, como a do jornal "Politico", ter dado conta do clima de tensão que se vivia entre jornalistas, editores e a administração da publicação.

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Segundo Sonmez, esta não foi, no entanto, a primeira vez que se viu impedida de escrever sobre casos de violação e assédio.

A primeira restrição foi imposta pelos mesmos editores do jornal, em setembro de 2018, quando Brett Kavanaugh, nomeado juiz do Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, foi acusado de abuso sexual.

A repetidas restrições ao jornalismo de Felicia Sonmez

Durante vários meses, a jornalista foi impedida de escrever sobre temas que, de alguma forma, se aproximassem do movimento #MeToo, e a restrição só terá sido levantada meses depois — mas voltou a ser imposta em fevereiro deste ano, quando Alexandria Ocasio-Cortez revelou que, ela própria, era uma sobrevivente de uma agressão sexual.

A restrição foi novamente levantada para, na segunda-feira, 22 de março, ser aplicada uma vez mais assim que se soube das acusações de que Eric Greitens, um governante republicano e na corrida para o Senado, terá chantageado e abusado sexualmente de uma mulher.

Ainda que, na altura, Sonmez e um porta-voz do "Washington Post" se tenham recusado a comentar as sucessivas restrições, vários jornalistas do jornal questionaram a administração sobre a decisão.

"Todos os repórteres têm viés e parte do trabalho implica deixá-lo à porta. Um dos jornalistas revelou que Sonmez se tornou numa defensora das vítimas de agressões sexuais, facto que deixou a administração do jornal desconfortável com a sua escrita sobre estes temas. Mas mesmo esse jornalista disse que uma proibição total é um exagero", lê-se na peça escrita pelo jornal "Politico", que cita vários repórteres anónimos do "Washington Post".

A mais recente restrição foi levantada esta segunda-feira, 29 de março, depois de o caso ter feito notícia em vários jornais. A notícia foi dada pela própria jornalista através do Twitter: "Olá a todos. Acabo de ser informada pelos meus editores de que o ['Washington] Post' vai levantar a proibição. São boas notícias, mas é pena que tenha tido um custo emocional tão elevado", lê-se.

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"Não planeio ir para lado nenhum.  O 'Washington Post' precisa de ser melhor do que isto. Só quero poder fazer o meu trabalho", continuou na mesma publicação, mencionando Steven Ginsberg, Cameron Barr, Lori Montgomery e Peter Wallsten, os editores do jornal.

A suspensão do jornal após a morte de Kobe Bryant

O caso ganhou maior repercussão depois de, na semana passada, a revista "Vanity Fair" ter publicado uma reportagem em que Steven Ginsberg, um dos editores da jornalista Felicia Sonmez, surge citado argumentando a importância de apoiar as jornalistas mulheres que são vítimas de assédio e bullying nas redes sociais.

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Após a publicação da reportagem, Felicia Sonmez escreveu, na sua página oficial de Twitter, que esperava que o mesmo editor que surge citado na reportagem a tivesse apoiado quando a própria foi vítima de doxxing [a procura e a partilha de informação pessoal, como a morada, com o intuito de provocar danos] e obrigada a sair de casa.

A jornalista refere-se a um tweet que publicou a 26 de janeiro de 2020, após a morte de Kobe Bryant, que recuperava uma reportagem do caso de uma mulher que diz ter sido vítima de abusos sexuais perpetuados pelo jogador de basquetebol. O tweet foi imediatamente apagado e Sonmez foi suspensa pela administração que considerou a publicação uma "falta de bom senso" e um ato que prejudicou o trabalho dos seus colegas.

Ainda que apagado, houve quem guardasse imagens da publicação e se juntasse para descobrir as informações pessoais da jornalista, como a morada, que foi obrigada a sair de casa e a mudar-se para um local seguro por temer pela sua própria segurança.

Na mesma semana, um dos jornalistas do "Washington Post" escreveu um artigo de opinião para o mesmo jornal através do qual deu a conhecer a suspensão da colega e contestou a decisão do jornal, alegando que, se os jornalistas podem ser suspensos por partilharem as histórias que quiserem, então "toda a redação deveria ser suspensa" de forma imediata.

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