O cansaço, a incerteza, a ausência de vida social, de escapatórias, e a memória recente do que viveram entre março e maio está a fazer com que este segundo confinamento, com os filhos em casa, seja ainda mais duro do que o primeiro, para uma grande maioria dos pais. É isso que defendem os especialistas ouvidos pela MAGG, que juntam a todos estes problemas a preocupação adicional com o estado do País, da Economia e dos seus próprios empregos.

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É verdade que já passámos por isto em março e abril de 2020, e é também verdade que, ao contrário do ano passado, a vacina já é uma realidade. No entanto, o sentimento geral é de que este segundo confinamento está a ser mais difícil de gerir para os pais, que já não sabem o que dizer aos filhos, como os confortar ou dizer que vai ficar tudo bem, quando os adultos são os primeiros a sentir o grande abalo emocional que o momento atual está a causar na vida de todos nós.

"As pessoas estão cansadas. Há muitos meses que não vivemos como queremos, tentamos fazer tudo ao mesmo tempo e lidamos com um pavor de não saber como vai ser o futuro", salienta à MAGG a psicóloga Sílvia Botelho. "Já fizemos os cozinhados, já esgotámos as ideias e a paciência está quase a acabar. Estamos todos com demasiadas preocupações em todas as áreas da vida, desde a saúde dos nossos à pública, à preocupação com os nossos empregos, com a Economia. Não temos um escape, não temos vida social para equilibrar e, para quem tem filhos, a carga é ainda maior."

silvia boteho
Sílvia Botelho é psicóloga e reconhece um aumento de pedidos de consultas nas últimas semanas, em comparação com a norma.

O cansaço acumulado e o stresse dos tempos que vivemos, aliados às memórias do primeiro confinamento, são um fator de peso para este "segundo round" ser ainda mais penoso para quem tem crianças, principalmente agora que as escolas fecharam. "Há muito que estamos todos a sofrer desta fadiga pandémica, muitos meses em que muitas das nossas necessidades básicas e emocionais foram pouco ou nada satisfeitas", acrescenta Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica. "Os meses que passámos fechados em casa foram muito pesados para as famílias e, agora que é perspetivado que o ensino à distância se siga aos 15 dias de interrupção lectiva, esta perspetiva de regresso ao que foi o primeiro confinamento está a aumentar os níveis de stresse e desgaste dos pais."

Para além disso, há outro elemento que não pode ser descartado quando falamos do peso psicológico mais duro deste novo confinamento: a luz ao fundo do túnel em dezembro do ano passado, embora puramente ilusória.

"Apesar de as coisas não estarem bem, foram existindo um conjunto de mensagens que criaram expetativas. E o ser humano, quando está muito cansado, agarra-se a isso. Recuperámos alguma liberdade de movimento, garantiram-nos que as escolas ficavam abertas, que eram locais onde não se verificavam focos de transmissão fortes do vírus, e tudo isso gerou um tom positivo sobre o que estava a acontecer. E, de repente, temos uma passagem drástica de um tom esperançoso e até positivo, ainda que numa situação difícil, para estas restrições tão severas, uma vez mais", sublinha Filipa Jardim da Silva.

"Culpa também gera cansaço"

Apesar de a situação atual não ser fácil para ninguém, os pais podem ser dos primeiros a acusar mais desgaste emocional. "Os adultos com crianças têm o peso acrescido de gerir o contexto com e para os filhos. E depois há a culpa", alerta Filipa Jardim da Silva.

Para a especialista, a culpa é algo que acompanha os pais, sempre à procura da sua capa de super-heróis para poderem chegar a tudo. E culpam-se quando não conseguem. "Culpa de não entretermos as crianças convenientemente, culpa da atenção dividida, culpa pela falta de paciência, às vezes culpa por não nos sentirmos os melhores modelos. E essa culpa também gera cansaço, desalento, frustração. Os diálogos internos de auto culpabilização e falha permanente são muito nefastos para os pais."

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Sílvia Botelho acrescenta que este stresse acrescido dos pais também se pode justificar devido aos adultos quererem fazer tudo pelas crianças. "Este período pode ser aproveitado para treinar a autonomia. Os filhos querem lanchar? Não têm de ser os pais a preparar sempre, os miúdos podem fazê-lo. A mesma coisa com outras tarefas como arrumar loiça, fazer a cama, pôr a mesa. Um bom pai é aquele que ensina a preparar os filhos para o futuro e, dando este autonomia aos miúdos, os adultos acabam por conseguir ficar um pouco menos sobrecarregados", explica a psicóloga.

Este novo confinamento pode ter ser ainda mais negativo para a saúde mental dos pais?

De uma forma geral, a psicóloga Sílvia Botelho salienta que o regresso ao confinamento está a ser bastante mais nocivo para os portugueses em termos psicológicos, comparando com o anterior. "O impacto psicológico aumentou, sem dúvida. Nos últimos tempos, tenho tido muitos mais pedidos de consulta do que a norma, desde problemas em casal mas também de pessoas que estão a ter muitos dificuldades em gerir a situação atual com os filhos."

A especialista explica que tudo o que se passa pode contribuir para ataques de pânico, situações depressivas, mas também alterações a nível do sono, impaciência, sentimentos de frustração, entre outros. "O facto de andarmos muito vigilantes também nos torna mais hipocondríacos", acrescenta Sílvia Botelho.

filipa jardim da silva
Filipa Jardim da Silva apela a que os pais não descurem o auto-cuidado.

Para Filipa Jardim da Silva, o humor e a gestão da ansiedade, bem como a energia anímica e a disponibilidade mental, também vão ser afetados. E alerta que os pais, mesmo para continuarem sãos para os filhos, não se podem esquecer que são humanos. "Não podemos perder de vista a ideia que, antes de sermos pais, somos pessoas. Não nos podemos iludir nem pensar que somos super-heróis, não podemos descurar o nosso auto-cuidado, a nossa regulação emocional. Até porque se o fizermos, as pessoas dependentes de nós vão sofrer as repercussões."

Saiba reconhecer os sinais de alarme — e como não se deixar afundar

Os tempos que vivemos não são fáceis, a fadiga é muita, a preocupação ainda mais. E claro que alguma tristeza e ansiedade é tida como aceitável. Assim, onde é que traçamos a linha para separar o que é normal neste difícil contexto e o que pode ser um alerta vermelho?

"Temos de perceber se temos uma emoção mais bloqueada de forma persistente e crescente, que impacta a nossa vida e nos suga energia. Por exemplo, se nos sentimos tristes durante um longo período de tempo, e essa tristeza interfere com a nossa vontade de desempenhar tarefas, se prejudica a nossa concentração, se nos faz ter menos paciência para estar com os nossos filhos, isso pode ser um sinal de alerta. E quem fala de tristeza fala de medo, angústia. A persistência e intensificação de uma emoção pode significar que algo nos está a fugir ao controlo, a sobrecarregar e à qual não estamos a conseguir responder", clarifica Filipa Jardim da Silva.

A psicóloga clínica recomenda que, nesses casos, o primeiro passo é pararmos e tentarmos compreender o que está a acontecer. "Passar para o papel todas essas emoções, escrever o que sentimos, pode funcionar como um escape. Podemos também partilhar o que se está a passar com alguém próximo, seja um familiar ou um amigo, de forma a ter uma espécie de perspectiva dessa pessoa, de perceber se também ela nota as diferenças. E claro que também é possível recorrer às linhas de apoio psicológico que existem para ajudar os portugueses a lidar com tudo isto, ou a ajuda profissional e acompanhamento por um terapeuta."

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No entanto, Filipa Jardim da Silva alerta para os perigos de automedicação, que funcionam como um penso rápido, e nada fazem pela resolução dos problemas de base. "Automedicarmo-nos ou pedir a um médico da nossa confiança para receitar medicação só vai acrescentar problemas. A mesma coisa para os produtos de venda livre que prometem ajudar no sono, concentração, etc.. A medicação é importante, mas de uma forma integrada com apoio psicológico, para existir uma verdadeira resolução de problemas, e não apenas para disfarçar algo. Há que compreender o que se passa connosco, explorar e dar a adequada resposta a essas fontes."

No dia a dia, também há pequenas coisas que pode fazer para manter a sua sanidade mental. Sílvia Botelho destaca a importância das rotinas, bem como a definição de objetivos e hobbies. "A vida dos adultos não pode ser apenas trabalhar e cuidar dos filhos. Podemos aproveitar este período de confinamento para ler livros que andamos a adiar, iniciar uma atividade, dar azo à criatividade."

Já Filipa Jardim da Silva também enaltece a importância das rotinas, bem como não descurar os cuidados com a higiene, mantendo hábitos como se a nossa vida não estivesse a funcionar dentro de quatro paredes. "Manter as rotinas de tomar banho, vestir, tomar o pequeno-almoço à mesma hora" são muito proveitosas para o bem-estar dos adultos, bem como bons hábitos de sono e alimentação.

"Os níveis de stresse elevados e o cansaço extremo convida a uma alimentação mais emocional, que nos dê energia rapidamente e um momento de prazer instantâneo. Mas precisamos de encarar a comida como uma medicação natural, fazer melhores escolhas nutricionais e afastarmo-nos de alimentos muito salgados, açucarados e altamente processados, que só vão aumentar o nível de stresse interno", destaca a especialista, que também apela à manutenção de algum exercício físico.

Mas, acima de tudo, não nos podemos fechar. "Mesmo que à distância, temos de nos manter ligados, quer seja através de chamadas e videochamadas, e socializar. Que confinamento nunca signifique isolamento emocional e desligamento afetivo", conclui Filipa Jardim da Silva.

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