Um pouco por todo o País levantou-se uma onda de solidariedade para com a Ucrânia. Todos querem ajudar com o que podem ou como sabem —alguns psicólogos mostraram disponibilidade para dar apoio a refugiados, por exemplo — e com a disponibilidade que têm, como é o caso dos voluntários portugueses que partiram na Caravana Humanitária. A boa vontade surgiu repentinamente, mas por quem nunca antes se viu nestes preparos. Será que a ajuda chega mesmo ao destino, sabendo nós que não há ainda um corredor humanitário? E para onde vão as ajudas dadas às organizações?

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Fomos saber tudo sobre esta situação sem precedentes junto da UNICEF, Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância, que já está a prestar apoio no terreno, como, aliás, faz há 25 anos. Mas para esta situação em particular teve de repensar a resposta e está a montar pontos móveis nas fronteiras com a Ucrânia — Moldávia, Polónia, Roménia — par aprestar apoio aos refugiados e proteger crianças que estejam sozinhas.

Para combater esta situação gritante, a UNICEF "precisa de cerca de 248 milhões de euros para conseguir responder às necessidades humanitárias de mais de 7,5 milhões de crianças e das suas famílias", refere a organização junto de um apelo no site para que sejam feitos donativos monetários. Porque é disso que precisa e é a forma mais fácil de ajudar.

"Estamos na Ucrânia há 25 anos e este conhecimento do país, da região e das suas comunidades, é o que nos tem permitido fazer o que é mais preciso e mais urgente, e ter a noção real das necessidades das populações", começa por dizer a diretora executiva da UNICEF, Beatriz Imperatori, à MAGG sobre o apoio que está a ser dado. "Os donativos permitem que a UNICEF responda às necessidades mais prementes que vão surgindo. Contamos com a generosidade e o apoio de todos para chegar às crianças e às suas famílias na Ucrânia e região, cujas vidas e futuros estão em risco", continua.

A generosidade não se mede em números e há valores para todos os tipos de situações financeiras. Independentemente da quantia que cada um possa dar, a organização garante diferentes ajudas: se forem apenas 5€, serão importantes para "garantir que muitas crianças têm uma oportunidade justa na vida"; 15€ cobrem os alimentos para um dia completo a sete crianças; 55€ ajudam uma família com um kit de emergência de água e higiene; e 75€ permitem a entrega de dois kits de primeiros socorros com medicamentos essenciais.

O que está a ser feito nos pontos de chegada de refugiados

A UNICEF tem mais de 75 anos de experiência em assistência humanitária e apesar de há décadas na Ucrânia, é a primeira vez que se confronta com a necessidade de dar apoio numa situação de guerra. Todavia, o Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância já tem no momento 140 pessoas espalhadas por várias regiões do país a prestar assistência humanitária e em breve "chegará à Ucrânia uma coluna humanitária da UNICEF com artigos médicos de emergência, água e kits de saneamento e higiene, bem como medicamentos, kits de obstetrícia e equipamento cirúrgico", avança Beatriz Imperatori.

A guerra não tem fim à vista (prova disso são as duas sessões entre as delegações da Rússia e da Ucrânia para o cessar-fogo sem sucesso) e o avançar das tropas russas também não, pelo que o trabalho das organizações não pode, nem vai parar.

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"Estamos a reforçar equipas nas fronteiras com a Polónia, Roménia e Moldávia para receber e dar apoio aos refugiados, que são na sua maioria mulheres e crianças", avança a diretora executiva da UNICEF. Nesses locais foram montados espaços seguros denominados “Blue Dots” para prestar apoio a crianças e mães que deixam os maridos para trás devido à Lei Marcial.

Além das zonas fronteiriças, também está a ser dado apoio na Ucrânia, em particular em algumas cidades sob ataques russos. "As nossas equipas estão em Donetsk, Luhansk, Kramatorsk, Mariupol e Lviv, onde estamos a assegurar o acesso a água boa para consumo e a disponibilizar serviços de higiene e saneamento em instalações como unidades de saúde ou escolas. Estamos a distribuir artigos médicos e cirúrgicos e apoiar unidades de saúde no país, e estamos a prestar serviços de proteção infantil e de educação. Estamos ainda a distribuir artigos não alimentares para multiusos (como tendas)", assegura a responsável da organização.

Há riscos de desperdício dos bens recolhidos até ao momento?

Na segunda reunião desde o início do conflito, que decorreu esta quinta-feira, 3, a Rússia e a Ucrânia não chegaram a acordo sobre o fim da guerra, apenas sobre a criação de corredores humanitários, com o objetivo de permitir a passagem segura de civis e feridos, assim como a entrega de medicamentos e alimentos aos militares em combate.

Mas este acordo são ainda apenas palavras, não está operacional (esteve apenas durante horas este sábado, 5, nas cidades de Mariupol e Volnovakha) e vários bens essenciais estão a caminho das fronteiras com a Ucrânia. Não havendo permissão para fornecer os bens necessários aos ucranianos, poderão todos os alimentos, medicamentos e equipamento ficar de lado e à mercê do desperdício?

"A nossa presença prolonga na Ucrânia e região e as mais de sete décadas de experiência em emergências, permitem-nos fazer a gestão adequada da nossa resposta de acordo com as necessidades humanitárias, evitando-se assim qualquer tipo de desperdício", refere Beatriz Imperatori sobre o caso particular da organização.

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No entanto, reconhece, "o ambiente operacional na Ucrânia é extremamente complexo. As restrições de acesso e as linhas de frente estão em constante mudança", o que pode colocar em causa o fornecimento de bens e serviços, ainda que, no que toca à UNICEF, tudo esteja a ser feito para que isso não aconteça.

Além da organização, outras ações têm sido levadas a cabo para dar bens aos refugiados ucranianos, como é exemplo a missão da Caravana Humanitária, composta por vários portugueses que já chegaram aos devidos destinos — Lublin, na Polónia, e Bucareste, na Roménia — para entregar os bens recolhidos e trazer nos próprios veículos alguns refugiados. A jornada tem sido relatada por Sónia Morais Santos, influenciadora mais conhecida como "Cocó na Fralda".

Também um dos organizadores da iniciativa, Pedro Fonseca, falou sobre o curso da viagem e anunciou na manhã deste sábado, 5 de março, que todos os voluntários já estavam "nos respetivos pontos de recolha".

As crianças estão em risco e "precisam de paz agora"

Em poucas palavras, a UNICEF lembra quem é mais vulnerável neste conflito que a Ucrânia não pediu: as crianças. "As crianças precisam de paz agora", diz Beatriz Imperatori à MAGG e ao mundo para que veja o quão imperativo é terminar com o conflito.

"O mundo está a assistir em direto à destruição de casas, escolas, unidades de saúde ou aos sistemas de abastecimento de água e saneamento. Estamos a assistir à morte de crianças", lamenta a diretora executiva. "Em Portugal, estamos a desenvolver campanhas de recolha de fundos. Um donativo à UNICEF é seguro e permite-nos continuar a nossa operação", continua.

Para ajudar, basta ir ao site da organização e ajudar com a quantia que cada um está disponível a dar. "Ajudar é também estar informado e sensibilizar para o respeito, para o diálogo e para a construção de comunidades para atentas ao outro", lembra a diretora executiva da organização.

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