Se tivesse acontecido hoje, o destino de Cintoya Brown (hoje Long-Brown) teria sido muito diferente. É uma frase várias vezes repetida no documentário "Murder to Mercy: The Cyntoia Brown Story", disponível na Netflix desde 29 de abril.

Com uma infância condenada mesmo antes de nascer, Cintoya viva uma adolescência conturbada e marcada por traumas, embora tivesse sido acolhida por uma mãe adotiva que sempre lhe deu afeto. Fugia de casa com muita frequência, faltava e desistia da escola.

Começou a relacionar-se com as pessoas erradas e é com 16 anos que começa a ser controlada por Cut Throat, o namorado de quem era vítima de violência física, psicológica e de tráfico sexual, conceito que pela altura era entendido simplesmente como prostituição, independentemente da idade.

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Foi nestas circunstâncias que em agosto de 2004, a mando de Cut, conheceu John Allen, o homem de 43 anos que quis ter relações sexuais com a menor de idade, em troca de dinheiro. Levou-a para sua casa e acabou por morrer com um tiro nas costas. Os advogados de Cyntoia alegaram a legitima defesa, justificando que com várias armas à vista em diferentes divisões da casa, a jovem tinha ficado com medo, pensando que Allen ia pegar numa pistola para a matar, enquanto se virava, deitado na cama.

Só que o tribunal não aceitou: considerou que esta quis simplesmente roubá-lo (levou a carteira do homem) e, em 2006, condenou-a por homicídio qualificado em primeiro grau. Assim, e como previa a lei do Tennessee nesta altura, a jovem foi julgada como um adulto e foi condenada a uma pena de prisão perpétua, a ser cumprida no estabelecimento prisional deste estado americano.

Só que, enquanto ela esteve presa, os tempos foram mudando. Veio o movimento #MeToo, e uma enorme pressão nacional para que houvesse uma reforma na justiça criminal. A percepção sobre aquilo que aconteceu a Cyntoia nos dias de hoje teria sido muito diferente: ao invés de ser vista como uma prostituta no controlo das suas acções e escolhas, seria vista como uma menor de idade,  controlada por um homem criminoso, vítima de tráfico sexual.

Com isto tudo, em 2017, o caso da jovem, que entretanto já tinha 28 anos, ganhou atenção mediática. Celebridades como Rihanna, Kim Kardashian ou Snoop Dog saíram em sua defesa, começou a circular a hashtag #freecyntoiabrown e em aconteceu: em 2019, Cyntoia recebeu clemência judicial do governador do estado do Tennessee Bill Haslam e foi posta em liberdade.

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A pessoa que entrou naquele estabelecimento prisional aos 16 anos não era a mesma que saía. Contra todas as probabilidades, saiu consciente do que tinha feito, de quem era, e de todas as fragilidades do sistema onde esteve encarcerada grande parte da sua vida, até então: enquanto esteve presa, Cyntoia frequentou a faculdade, licenciou-se e destacou-se entre a comunidade prisional pelo seu bom comportamento.

Em oposição a quem passa pelo sistema prisional, conseguiu, por mérito próprio, reintegrar-se na sociedade: escreveu um livro de memórias "Free Cyntoia: My Search for Redemption in the American Prision System", no qual relata o que é crescer dentro de uma prisão americana. Hoje, a mulher de 32 anos empenha-se em denunciar as injustiças do sistema legal americano e aquilo que de facto representa o sistema prisional. Além disso, foi nomeada para os prémios literários NCAAP Literaly Image Awards, tendo colaborado já várias vezes com o reputado jornal americano "Washington Post".

De acordo com um comunicado de Cyntoia Long-Brown, o documentário da "Murder to Mercy: The Cyntoia Brown Story" não foi autorizado pela mesma, sendo que muitas das imagens foram retiradas do documentário "Me Facing Life: Cyntoia’s Story", que acompanhou os seus primeiros anos de prisão.

"Enquanto eu ainda estava presa, um produtor que tinha imagens antigas minhas fez um acordo com a Netflix para um documentário NÃO AUTORIZADO, que será lançado em breve. O meu marido e eu ficamos tão surpreendidos como toda a gente quando ouvimos as notícias pela primeira vez porque não participámos de nenhuma maneira", disse. "Estou atualmente no processo de partilhar a minha história, da maneira certa, com todos os detalhes e de uma forma que retrate e respeite a mulher que sou hoje. Enquanto rezo para que este filme mostre o que está errado no nosso sistema de justiça, eu não tive nada a ver [com a sua produção]."

De acordo com o que escreve a revista "Time", além do facto de não ter sido uma produção autorizada pela figura central, Long-Brown poderá não estar satisfeita com a narrativa que o documentário acaba por ganhar: uma mulher que, dentro do vulnerável sistema prisional e de justiça dos Estados Unidos, encontra o seu caminho para a redenção, encontrando o sucesso e a reintegração do outro lado das grades.

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