Entrei para a faculdade em 1994, na minha terceira opção, na Universidade da Beira Interior, no curso de Comunicação Social. Falhei a entrada em Lisboa por duas décimas, e coloquei como primeira escolha para fora da capital a universidade da Covilhã, perto da terra do meu avô. Sabia que isso o ia fazer feliz, gostava de viver uma experiência numa região diferente daquela aonde tinha vivido mais tempo, e achei que seria indiferente ir para Coimbra, Braga ou para a Covilhã, porque sempre tive a convicção de que o que iria marcar o meu futuro seria aquilo que eu iria fazer depois de terminado o curso, e não durante.

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Hoje, como empregador, nunca olho para a universidade de onde vêm os candidatos a estágios ou a empregos. É-me indiferente que sejam alunos de 16 da Universidade Nova ou alunos de 10 da Escola Superior de Comunicação Social, porque não acho, de todo, que seja aquilo que fizemos na universidade que determina se seremos bons ou maus profissionais.

Sou muito mais de olhar para os micro skills, as experiências profissionais curtas e para atividades paralelas (o que mais valorizam neles próprios, como olham para as suas qualidades, se praticam desporto, se gostam de ler, de cinema, se fazem voluntariado, se trabalharam em lojas ou restaurantes durante os estudos) do que de olhar para as universidades ou as médias de curso.

Também por isso, era-me mais ou menos indiferente entrar num curso em Lisboa ou em qualquer outra cidade. O que é que me preocupava mais? O facto de eu sempre ter tido vontade de começar a trabalhar na minha área — o jornalismo — enquanto estava na faculdade. E isso seria muito mais fácil de fazer se estivesse em Lisboa, onde há muito mais oportunidades na minha área do que em qualquer outra região, Porto incluído.

"E o que é que eu senti nesse momento? Humilhação?"

Então, em setembro de 1994, lá rumei à Covilhã. E foi aí o meu primeiro grande contacto com a realidade da praxe académica. E a praxe começou no momento em que pus um pé fora do comboio, num domingo ao final da tarde. À nossa espera (vinham muitos caloiros no comboio), na estação, estavam centenas de alunos “veteranos”, trajados, que tratavam de perguntar a toda a gente se eram caloiros e de que curso.

Assim que me apresentei como caloiro de Comunicação Social fui imediatamente levado por um grupo de cinco ou seis miúdas, que me retiraram dali escondido debaixo das capas pretas. E porque é que fui escondido? Porque era uma peça preciosa (havia pouquíssimos homens no curso de Comunicação Social), e os caloiros podiam ser roubados por estudantes veteranos com mais matrículas. Elas eram todas do terceiro ano, o primeiro a partir do qual se podia praxar na UBI, ou seja, também para elas era a estreia a praxar.

Lá fui eu, então, debaixo das capas das miúdas, a carregar a minha mala, e sem fazer ideia do que me esperava. Recordo que, nessa altura, em 1994, não havia telemóveis, e a única forma que a minha mãe tinha de me contactar era através do número fixo de casa da senhora que me tinha alugado um quarto. As residências universitárias eram raras e a capacidade de alojamento para estudantes era muito limitada.

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Com sorte, um grupo de amigos conseguia arrendar um apartamento e partilhar os quartos, mas eu não conhecia ninguém na cidade. Naquele tempo não havia sites ou aplicações como a Inlife, onde se podem ver quais as melhores casas e quartos para arrendar, nem fazer visitas guiadas por WhatsApp, para vermos as condições, e tive de me sujeitar a arrendar um quarto com base numa chamada telefónica. Ou seja, naquela tarde em que cheguei à Covilhã, nem sequer sabia onde era a casa ou onde ficava o quarto que eu tinha arrendado.

As miúdas levaram-me para um café qualquer relativamente perto da estação. E foi então que começou a verdadeira praxe. Fizeram aquelas perguntas normais, para me conhecerem, e perceberam que não era dos que levam a coisa a mal, e que até alinhava nas brincadeiras. Pintaram-me a cara com as iniciais do meu curso, e lembro-me de que me obrigaram a fazer uma espécie de striptease, enquanto cantava Júlio Inglesias. Claro que foi a galhofa total.

E o que é que eu senti nesse momento? Humilhação? Uma violação dos meus direitos e das minhas vontades? Terror psicológico e emocional? Não. Senti um enorme orgulho de fazer parte do lote de alunos privilegiados que têm a oportunidade, e tiveram o mérito, de entrar na Universidade. E isso era superior a tudo o resto.

Esse fim de tarde prolongou-se aí até às 2h da manhã, altura em que elas me foram levar a casa, depois de uma noite que recordo ter sido divertida. Quando cheguei, a senhoria disse-me que a minha mãe já tinha ligado algumas vezes e estava preocupada, mas que ela lhe havia explicado que muito provavelmente eu estava a ser praxado e era normal chegar tarde.

Seguiram-se quatro semanas de vivência na Covilhã. E sempre em período de praxe — que só terminava com a latada, que estava marcada para dali a um mês. Foram dias de grande intensidade, alguma pressão, alguns momentos de tensão, uma ou outra situação de conflito, mas, em geral, foram quatro semanas que guardo como boas e bonitas.

Como expliquei, o curso de Comunicação Social, na altura, era sobretudo frequentado por mulheres. Ao longo das primeiras duas semanas, eu era o único homem presente em todas as atividades de praxe, por isso, era sempre eu, sempre mesmo, o escolhido para tudo o que eram coisas mais pesadas.

A única coisa que eu sempre recusei fazer foi beber álcool. Nunca tinha bebido uma bebida alcoólica na vida, e não tencionava fazê-lo, por isso, sempre fui muito rígido nisso. E foram talvez nessas situações que surgiram os momentos mais complicados. Era muitas vezes desafiado — para não dizer obrigado — a beber vinho ou cerveja, mas recusei sempre.

Ouvi gritos, ameaças, mas em todos os momentos aparecia sempre um veterano sóbrio, com um pouco de bom senso, a livrar-me daquelas situações. E a verdade é que nunca bebi uma gota de álcool. Fui castigado, tive de fazer muitas camas de algumas residências — não adorei, verdade — passei por alguns momentos de enorme desconforto, mas, em geral, conseguia safar-me bem, porque nunca levava nada verdadeiramente a peito, nem me mostrava de mal com as situações e os desafios que me eram impostos.

Lembro-me — e talvez essa seja a recordação mais tensa que tenho — de numa noite estar no edifício da rádio da universidade, juntamente com algumas caloiras da minha turma, e terem aparecido umas veteranas do terceiro a dizerem-nos que tínhamos de nos esconder rapidamente, porque vinham aí uns veteranos com muitas matrículas, que nos iam levar e podíamos passar por uns maus bocados.

Eu fui esconder-me na banheira da casa de banho, com duas ou três outras colegas, e conseguimos escapar-nos. Mas ouvimos, de facto, os tais veteranos a chegar, e a gritarem que sabiam que estavam ali caloiros e que os queriam levar, e senti algum medo, admito. O maior perigo destas situações era mesmo o de não estarmos protegidos por algumas pessoas com mais discernimento, bom senso, sóbrias, que sabem onde deve estar a linha da praxe e da violação ostensiva dos nossos direitos. E num grupo só de homens, na maioria alcoolizados, de cursos que não eram o meu, a probabilidade de me sentir desprotegido era grande, daí o medo. Mas não me encontraram. Safei-me.

Quase no final da quarta semana de praxe na Covilhã, recebi a notícia de que tinha sido colocado na Universidade Técnica de Lisboa, no ISCSP, em Comunicação Social, que tinha aberto 8 vagas na segunda fase de colocações, para as quais tinha concorrido. Foi triste a despedida dos meus colegas, depois de tantos dias intensos que vivemos juntos. E ainda hoje me relaciono com algumas pessoas — sobretudo veteranos (o Pedro, a Paula, o Jorge) — daqueles tempos de estudante.

"Acho tudo isso deprimente"

E como é que eu olho para tudo aquilo a que fui sujeito? Com o tal orgulho de que falei antes. Hoje, sou frontalmente contra a praxe abusiva, impositiva, humilhante, e preferia que não existissem situações dessas, como colocar pessoas com orelhas de burro, gritar-lhes ordens abusivas, insultarem miúdos só porque sim.

Acho tudo isso deprimente. Mas o que é que os próprios miúdos que passam por isso sentem nesses momentos? Será o mesmo que eu sinto hoje ou o mesmo que eu senti naquele momento em que fui eu o praxado? Provavelmente sentem o que eu senti: orgulho de estarem com a cara pintada com as iniciais do curso para onde entraram, orgulho de verem os outros a olharem para eles e a pensaram que eles são estudantes universitários.

Sete anos depois de ter entrado na universidade, em 2001, e quando já trabalhava como jornalista, sugeri à direção da revista aonde estava que fizesse uma reportagem na primeira pessoa sobre a realidade da praxe. No ano anterior, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) tinha tido um problema sério com uma caloira, que tinha sido obrigada a entrar numa luta de lama dentro de uma pocilga, e tinha contraído uma doença.

Isto ganhou dimensão nacional, porque o país estava a viver um problema de saúde grave com a doença das vacas loucas, que se podia transmitir pelas fezes dos animais. Ou seja, uma luta de lama num sítio onde existiam porcos e vacas podia ser uma forte fonte de contaminação. E o que eu queria saber, no ano seguinte, era como seria a praxe na UTAD naquele ano.

A minha sugestão de reportagem foi: “Até onde vai a praxe na Universidade de Trás-os-Montes? Qual é o limite? O que é que verdadeiramente acontece? E se eu me fizesse passar por caloiro e passasse uma semana a ser praxado para ver até onde é que eles vão?”. E a direção da revista aceitou.

Na semana seguinte, no domingo antes de começarem as aulas, lá fui eu até Vila Real, na minha missão secreta, como aluno do curso de Engenharia Agrícola da UTAD.

Primeiro desafio: como é que eu iria explicar que era sete anos mais velho do que praticamente todos os outros caloiros? Inventei uma história. Disse que o meu pai era dono de uma grande propriedade agrícola no Alentejo, mas que eu quis seguir Relações Internacionais. Tirei o curso, mas, depois, achei que não era isso que queria na vida, e quis ajudar o meu pai na quinta. Para isso, ele sugeriu-me que fosse tirar outra licenciatura, agora em Engenharia Agrícola.

Toda a gente acreditou na história.

Segundo desafio: como é que eu, que percebia zero de disciplinas como Matemática, Biologia, Química, ia passar uma semana a ir às aulas de disciplinas destas? E se me fizessem perguntas básicas sobre isto? Acreditei na sorte, e que isso não iria acontecer.

Não aconteceu.

Terceiro desafio: como é que ia explicar que não tinha uma casa, nem quarto arrendado num apartamento, nem residência universitária, e que o meu alojamento era um dos quartos no melhor hotel de Vila Real? Simples: criei um perfil de filho de pais ricos, que não se importam de pagar o hotel até o filho encontrar a casa ideal.

Funcionou.

E lá começou a praxe. Foi ainda mais agressiva do que na Covilhã, e tive de me sujeitar (porque queria perceber até onde eles iriam) a situações bem mais violentas do ponto de vista psicológico e emocional. Recordo-me de uma noite em que fui levado para uma residência e tive de fazer umas 20 camas, lavar pilhas de loiça e no final fizeram-me um desafio (aqui só com homens na sala) que consistia em amarrarem-me um cordel ao pénis, com uma pedra enorme (tipo tijolo) na outra ponta.

Depois, vendavam-me os olhos e diziam-me que tinha de deixar cair a pedra. Diziam-me, claro, aos gritos na minha cara. Lá deixei cair a pedra, mas, entretanto, alguém tinha cortado o cordel com uma tesoura e, claro, não aconteceu nada. Foi só a gargalhada geral.

No final dessa semana, quando desvendei o real motivo da minha presença ali, e contei a todos que era afinal um jornalista infiltrado, a coisa não correu propriamente bem. A maior parte das pessoas aceitou bem, e até se riu imenso com a situação, mas houve uma série de veteranos que acharam que eu estava a colocar em causa o bom nome da universidade ao contar numa revista aquilo que me tinham feito naquela semana.

No meu último dia na UTAD, à noite, durante a festa da despedida da Semana do Caloiro, fui confrontado por vários veteranos bêbedos, que me tentaram agredir. Fui retirado a tempo por uma miúda que me conseguiu tirar do meio da confusão, mas mesmo assim gerou-se uma cena de pancadaria entre várias pessoas que me tentavam agredir e outras que me queriam defender, e que perceberam que não seria boa ideia bater num jornalista que estava ali para relatar a sua experiência durante uma semana na faculdade.

Estes dois momentos de praxe ajudaram-me a entender bem o fenómeno que isto representa, a olhar para todos os lados e dimensões desta tradição que leva décadas. Não há uma verdade, uma certeza, uma visão. Não mudei a minha opinião, e continuo a ser frontalmente contra uma prática que sujeita alguém a fazer uma coisa que não quer, que promove situações de pressão psicológica sob pessoas que podem não ter estrutura emocional para saber lidar com isso.

No entanto, consigo entender o orgulho, e, muitas vezes, o desejo, que os alunos, caloiros, sentem perante situações de praxe. E o melhor exemplo é mesmo o da minha sobrinha mais velha, que entrou este ano para a Universidade. Por várias vezes a desafiei a fazer alguns programas durante o período de praxe, e em todas elas ela recusou porque tinha sessões de praxe e não queria faltar.

Tal como em muitas outras situações, não existe uma verdade, uma certeza, uma consciência certa. Deve haver, sim, cada vez mais bom senso e respeito pelas liberdades individuais de cada um. Existe praxe para quem quer ser praxado. E ponto final. Serei sempre contra o princípio da proibição pela proibição, porque sempre que uma entidade superior nos proíbe de algo está, também, a limitar-nos na nossa liberdade individual. E existe a liberdade de se querer ser praxado. O que importa, sempre, é uma regulação forte e um controlo rigoroso das regras impostas.

*Esta crónica é escrita ao abrig0 do acordo entre a MAGG e a InLife, plataforma de arrendamentos de quartos e casas.

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